Janeiro 25, 2008

A crise é bancária, mas o pau torto são os déficits dos EUA, fonte da riqueza e riscos globais

CIDADE BIZ

Problema é mais de overdose de crédito e regulação frouxa que de liquidez, ainda muito elevada no mundo

Antonio Machado

Mercados financeiros e partidos políticos não são de andar juntos nem têm bom conceito um do outro em qualquer parte do mundo. Mas é só o governo, qualquer governo, fazer o que querem para que emulem o, digamos, PMDB brindado com outro ministério: abrem o sorrisão e por algum tempo se comportam. É quando encenações se confundem com acontecimentos reais e se perde a noção entre crise e pura manha.

Os mercados globais reagiram assim à assustada corrida do Federal Reserve (Fed) contra o incêndio nas bolsas globais, antecipando o corte dos juros básicos previsto apenas para a reunião já agendada do dia 30. As bolsas asiáticas, onde tudo começa pela diferença de fuso horário, agradeceram repondo altas tão performáticas quanto as quedas passadas. Mas as européias bateram pé: o Banco Central Europeu estragou a festa ao descartar que também baixará os juros.

O Fed foi mais ágil que o presidente George W. Bush, que saiu a campo para tentar evitar a recessão nos EUA anunciando um pacote de rebate de impostos para o consumidor. Só que o plano, anunciado na sexta-feira e responsabilizado pelo ataque de pânico nas bolsas pela sua timidez, ainda não foi detalhado e depende de aprovação do Congresso, enquanto o Fed é só com ele mesmo.

O Fed Fund caiu de 4,25% para 3,5% ao ano, e a taxa do redesconto bancário foi arredondada em 4%. Mas tal como o PMDB, que depois de levar um ministério quer as estatais anexas, ainda ecoava a nota do Fed quando começaram a circular pelas redes de computadores em tempo real “avaliações” de porta-vozes da banca antecipando outro corte na reunião regular do dia 30 de 0,25 a 0,5 ponto percentual.

Nem isso, a este ponto, parece capaz de deter a onda recessiva em formação na economia americana, e com sinais ameaçadores também em vários países da zona do euro, no Japão e na China - cada um com suas próprias mazelas econômicas, pressões sociais e uma agenda de litígios políticos em desacordo com a inflação e a taxa cambial.

A esse cenário se adicionou a crise financeira formada na franja subprime do mercado de hipotecas dos EUA e que já se espalhou para os demais ativos de dívida, pondo em risco a solvência bancária e a normalidade do crédito para financiar a economia.

Doença mais grave

O que virá pela frente? Difícil prever. A crise financeira é só um dos componentes da instabilidade econômica mundial. Ela é mais de overdose de crédito e regulação frouxa que de liquidez - ainda muito elevada, até por conta das maciças reservas de divisas dos países exportadores de petróleo e das economias emergentes, China à frente.

Anterior à crise gerada na licenciosidade das hipotecas, no entanto, há outra doença mais grave para a economia mundial: os déficits gêmeos dos EUA, comercial e fiscal. Eles vêm de longe e respondem pela contradição que coloca a estabilidade da economia global a dançar em cima de um fio de aço esticado no precipício.

Exportador de vento

A inadimplência do subprime das hipotecas, o crash dos títulos derivativos, os prejuízos da banca e a instabilidade das bolsas, tudo refletindo a ameaça de recessão da economia real nos EUA e, por arrastão, no resto do mundo, tirou foco do que originou esta situação: a drenagem das poupanças do mundo pelos EUA.

Sem elas, a farra de uma economia armada para “exportar” papéis financeiros e importar bens de consumo, como automóveis do Japão e eletrônicos e têxteis da China, nem teria existido. Os EUA de hoje lembram o Brasil depois do Plano Real: tudo funcionou às mil maravilhas até que o mundo cansou de financiar os déficits externos do país.

Tem coisas piores

Resolvam-se os déficits dos EUA, e o externo exige o ingresso de algo como US$ 2 bilhões por dia para manter a ciranda girando, que se resolvem todas as demais crises. Visto desta ótica, a crise da banca parece solúvel. Há perdas a realizar no sistema financeiro, de bancos comerciais aos fundos de hedge, passando pelas empresas criadas pela banca para dar saída fora da contabilidade ordinária à baciada de papéis exóticos da família de derivativos.

Tudo micou, porque sem preço, valuation pelo jargão financeiro, dado pela procura no mercado, que lhe bateu a porta. Trata-se de um problemão. Mal pilotado, mata por asfixia a economia devido à escassez de crédito. Mas sem o equilíbrio nas contas dos EUA, é o dólar que afunda. E que Deus nos acuda.

Como diz o financista húngaro radicado na Inglaterra George Soros em nota no Financial Times, coincidindo com analises da coluna, “a ruptura do mercado interbancário, coração do sistema financeiro, foi o sopro final”. É nele que atuam os juros básicos, como o Fed Fund e a Selic, induzindo as operações diárias de troca de reserva entre bancos superavitários e os com insuficiência de caixa.

Sem este mecanismo, só resta a ajuda em última instância do banco central. Que o juro básico fosse zero, que não resolve, se existir a desconfiança de que o “outro” está ilíquido, na prática - e isso porque carrega papéis que ninguém quer. Como a banca opera casando o que empresta com o que capta, se esta travar entope a outra.

Assim estão os mercados. Como romper o impasse? Talvez só com um Proer americano, programa do primeiro governo FH que livrou a banca de papéis podres e evitou quebradeira, uma crise sistêmica.

O Blogueiro

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