terça-feira, 3 de maio de 2011

Nasser: Grupos se sentem obrigados a revidar morte de Osama


Ana Cláudia Barros
A captura e a morte do líder da Al-Qaeda, Osama Bin Laden, podem significar a redenção do presidente Barack Obama junto à opinião pública norte-americana, analisa o doutor em direito internacional e professor da Fundação Getúlio Vargas, Salem Nasser. Para ele, Obama, que viu a grande popularidade conquistada durante às eleições de 2008 se esgarçar nos primeiros anos de mandato, contabilizou um ganho político capaz de influenciar no resultado da disputa de 2012.
- O timing desse assassinato, ou eliminação, deve ser considerado com atenção. Tudo parece indicar que não havia como os serviços de informação paquistaneses não saberem onde estava Bin Laden e, portanto, não se pode afastar a hipótese de que os americanos também já soubessem, e que estes tenham feito algum cálculo sobre o melhor momento de eliminá-lo. A primeira relação, mais evidente, diz respeito à popularidade de Obama, para fins eleitorais, sim, mas não apenas. A eliminação de Bin Laden tenderá a redimir Obama, justamente no âmbito em que ele vinha descumprindo promessas: sobre o desmantelamento de Guantánamo, mantendo o envolvimento no Iraque, aumentando os contingentes no Afeganistão e, se não ampliou, mantendo inteira a ideia de uma guerra contra o terror.
Ao contrário do que tem sido especulado, o especialista não aposta no aumento significativo do risco de atentados terroristas nos Estados Unidos, cujas forças de segurança e os serviços de inteligência teriam redobrado a vigilância após a morte do homem apontado como mentor dos ataques de 11 de setembro de 2001. O comentário se estende aos países aliados.
- Quanto às consequências práticas, não creio que os riscos de ataques aumentem substancialmente. Consideremos primeiro a versão dos aparatos de segurança e governos dos principais países europeus e dos Estados Unidos. De acordo com estes, há grupos espalhados pelo mundo planejando em permanência ataques e dispostos a levá-los a cabo. Como indícios disso, somos informados de tempos em tempos que algum plano foi descoberto e a tragédia impedida, normalmente in extremis. Diante disso, os aparatos de inteligência estão, naturalmente, em permanente estado de alerta. A morte de Bin Laden não tem muito como transformar isso radicalmente ou criar novos e mais intensos perigos. É claro que se pensa dever evitar alguma tentativa de resposta rápida e surpreendente, mas quão mais em alerta podem estar os serviços secretos? - indaga.
O professor minimiza as promessas de retaliação, como a anunciada na última segunda-feira (2) por Talebans paquistaneses - aliados da Al-Qaeda -, e diz que esses grupos "se sentem obrigados a dizer que não deixarão passar sem resposta a eliminação de um símbolo de tal magnitude".
- Não se deve esquecer que, enquanto no Ocidente Bin Laden era visto como um terrorista que liderava e inspirava outros terroristas, entre alguns grupos era visto como um líder de valor numa luta contra inimigos, contra quem o uso de certos meios de violência era legítimo. Com relação à sua condição de símbolo, diga-se de passagem que, em grande parte, o Ocidente, especialmente os Estados Unidos, foi responsável pela construção do mito.
Nasser reconhece que "há muita gente no mundo, inspirada ou não por Bin Laden, disposta a levar a cabo ataques violentos contra os países ocidentais", mas considera improvável que "suas capacidades de ação sejam tais que lhes permitam aumentar substancialmente os riscos".
- Seja como for, não parece haver dúvida de que o estado de medo permanente é alimentado por alguns governos, se não por outras razões, ao menos para justificar melhor as operações militares levadas a cabo em certas partes do mundo. Finalmente, não se pode eliminar a possibilidade de que haja operações contra as forças americanas ou da Otan no Afeganistão, no Paquistão e no Iraque.
Sobre as consequências da morte de Bin Laden para a Al-Qaeda, o doutor em direito internacional, especialista em Oriente Médio, não prevê o enfraquecimento do grupo.
- Segundo todas as notícias que se tem da Al-Qaeda, ela foi pensada e sempre funcionou como uma rede de pequenos grupos operacionais muito autônomos e com pouca articulação entre si. Essa seria, por assim dizer, a sua maior força, ainda que essa força não tenha feito do grupo uma organização altamente eficaz ou impossível de deter. Isso não deve mudar muito, portanto, especialmente se considerarmos as notícias de que, em meio à sua contínua fuga, Bin Laden talvez não estivesse no comando direto dos aspectos operacionais. Além disso, ele sempre teve um segundo em comando que é tido por muito ativo e inteligente e, segundo muitos, talvez mais importante para o grupo do que Bin Laden.
Hipocrisia e catarse
Para Nasser, as imagens de cidadãos norte-americanos celebrando nas ruas o assassinato do líder da Al-Qaeda não devem catalisar o ódio dos seguidores do terrorista.
- Não imagino que as comemorações façam algum efeito especial já que esses sentem ter coisas muito mais graves pelas quais condenar os Estados Unidos. Já sobre a opinião pública nos mundos árabe e muçulmano, talvez alguém se lembre de notar a hipocrisia no condenar meios de violência considerados ilegítimos e utilizar outros, igualmente ou similarmente condenáveis. Mas não mais do que isso, porque Bin Laden estava longe de comandar a admiração das massas nesses dois mundos.
Ele acrescenta que as cenas, amplamente veiculadas pelos meios de comunicação, evidenciam a capacidade do Ocidente de "também celebrar a morte" e mostram o quanto foram "eficientes o esforço de convencer a opinião pública americana de que seu país estava em guerra com um certo terrorismo e o esforço de fazer de Bin Laden a personificação do inimigo e, no limite, do mal".
- É claro que a ligação de Bin Laden com o evento de 11 de setembro, que marcou tão fortemente a psique americana, dá um aspecto catártico à morte dele: junta-se a sensação de expiar o medo com o sentimento de ter vingado a violência sofrida. TERRA MAGAZINE