Olhando pelo retrovisor, a carnificina a que estamos assistindo nos mercados mundiais é justificada.
A economia global não está apenas mais fraca do que no auge da Grande Recessão, em 2008/2009. Ela está mais endividada. E esgotou a munição disponível para sair do atoleiro.
Há três anos, o epicentro da crise eram os EUA. Hoje, há dois polos: EUA e Europa, com Espanha e Itália no centro.
A economia americana tem hoje quase 7 milhões de empregos a menos (5%) na comparação com dezembro de 2007, quando entrou em recessão.
Mesmo partir da recuperação em junho de 2009, praticamente não ganhou terreno. A produção não cresceu e a renda das famílias encolheu 4%.
Para sair da Grande Recessão, o Fed (BC americano) baixou a zero a taxa básica de juro em dezembro de 2008 e injetou US$ 3 trilhões (quase um PIB e meio do Brasil) para comprar títulos de bancos e empresas em dificuldade. O governo Obama também gastou US$ 800 bilhões em programas de incentivo à produção e ao emprego.
Esses gastos resultaram em uma esperança de recuperação no início deste ano. Mas também na explosão do endividamento e no rebaixamento da dívida dos EUA.
No início de 2011, o país parecia avançar e criava cerca de 180 mil empregos ao mês. Muitos previam um crescimento anualizado de 4%. Hoje, a geração de empregos e a expectativa de alta do PIB correspondem à metade disso.
Os mercados espelham esses fatos. Mas não totalmente.
Na histeria da última crise, em outubro de 2008, o índice Dow Jones da Bolsa de Nova York (que costuma levar o mundo de roldão) caiu para 8.175 pontos. Na segunda (08.ago.), após despencar 5,6%, estava em 10.809 pontos. Ou seja, ainda está 25% acima do piso de 2008.
É difícil imaginar que o mundo (e o pânico) volte ao patamar de outubro de 2008.
Naquele momento, os maiores bancos americanos quebraram e só sobreviveram após a ajuda estatal (se bem que as ações de Bank of America e Citigroup já caíram 55% e 42% nos últimos seis meses).
Mas, naquele momento, o arsenal estatal era muito maior do que é hoje, e havia juro para cortar. A carga da dívida pública também não era tão grande nos EUA. E não se falava de problemas de solvência pelos quatro cantos da Europa.
Hoje, após os resgates na periferia europeia (Portugal, Irlanda e Grécia), a crise de endividamento se aproxima do centro, de Itália e Espanha, terceira e quarta economias na região.
O quadro ao lado mostra o tamanho do problema, com vencimentos de dívidas dos cinco países problemáticos atingindo picos em 2012 e 2013.
Ainda não se sabe quem vai financiá-los, especialmente em um cenário de baixo crescimento e arrecadação de impostos.
O pano de fundo disso tudo é o mesmo de 2008. Mas agora ele está mais feio, sujo e pesado.
É o velho mantra dessa crise: aos bancos e famílias no mundo rico que se endividaram como nunca até 2007, juntaram-se agora os governos, com os resgates a partir de 2008.
Os mercados veem isso como uma indigestão de dívidas, que limitará o crescimento global por muitos anos.
Sua reação, lógica, é a pior possível: destruir muito do que restou da riqueza de quem tem ações nas bolsas.
Fernando Canzian é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006 e é autor do livro "Desastre Global - Um ano na pior crise desde 1929". Escreve às segundas-feiras na Folha.com.
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