segunda-feira, 15 de agosto de 2011

O não milagre do Texas

PAUL KRUGMAN


Como já era previsto, Rick Perry, o governador do Texas, anunciou que será candidato à Presidência. E já sabemos qual será o tema de sua campanha: a fé em milagres.

Alguns desses milagres vão envolver coisas sobre as quais você provavelmente lerá na Bíblia. Mas, se Perry conseguir ser escolhido candidato presidencial republicano, é provável que sua campanha seja centrada sobre um tema mais secular: o alegado milagre econômico do Texas, Estado que, segundo se afirma com frequência, teria passado pela Grande Recessão quase ileso, graças às políticas econômicas conservadoras. E Perry vai alegar que poderá restaurar a prosperidade da América, aplicando as mesmas políticas em nível nacional.

O que você precisa saber é que o milagre do Texas é um mito, e, mais amplamente, que a experiência texana não nos oferece lições úteis sobre como restaurar o emprego pleno em nível nacional.

É verdade que o Texas mergulhou na recessão um pouco mais tarde que o resto da América, principalmente porque a economia estadual, ainda forte no setor energético, foi reforçada pelos preços altos do petróleo na primeira metade de 2008. E o Texas também foi poupado do pior da crise habitacional, em parte porque, descobrimos, o Estado tem uma regulamentação surpreendentemente rígida sobre a concessão de crédito imobiliário.

Em junho de 2001 o índice de desemprego no Texas estava em 8,2%. Estava abaixo do desemprego em Estados de bolha colapsada como Califórnia e Flórida, mas um pouco acima do índice de desemprego no Estado de Nova York e significativamente acima do índice do Massachusetts. Vale observar que um em cada quatro texanos não possui seguro-saúde -- a parcela mais alta do país, graças em grande medida à abordagem de atuação mínima do governo adotada no Estado. Enquanto isso, o Massachusetts tem cobertura de saúde quase universal, graças a uma reforma da saúde muito semelhante à Lei do Atendimento Médico Acessível, que supostamente levaria à "perda de empregos".

De onde, então, vem a noção de um milagre texano? Principalmente de uma compreensão equivocada e amplamente difundida dos efeitos econômicos do crescimento populacional.

Isso porque uma coisa é verdade em relação ao Texas: há muitas décadas esse Estado vem tendo crescimento populacional muito superior ao do resto do país; desde 1990, cerca de duas vezes superior. Vários fatos estão à base desse aumento populacional acelerado: um índice de natalidade mais alto, a imigração do México e a migração interna de americanos vindos de outros Estados, que são atraídos ao Texas por seu clima quente e seu baixo custo de vida, em especial os baixos custos de moradia.

E, só para que fique claro, não há nada de errado em um custo de vida baixo. Podemos argumentar, em especial, que as políticas de zoneamento em muitos Estados limitam desnecessariamente a oferta habitacional, e que essa é uma área em que o Texas de fato faz alguma coisa certa.

Mas que relação tem o crescimento populacional com o aumento do emprego? Bem, o alto índice de crescimento populacional se traduz em um índice de crescimento de empregos acima da média por meio de dois canais. Muitas das pessoas que vêm se mudando para o Texas -- aposentados à procura de invernos mais amenos, mexicanos de classe média em busca de uma vida mais segura -- carregam com elas um poder de compra que leva a mais empregos locais. Ao mesmo tempo, o crescimento rápido da força de trabalho texana mantém os salários em nível baixo -- quase 10% dos trabalhadores texanos ganham o salário mínimo ou menos, uma parcela bem superior à média nacional --, e esses salários baixos proporcionam às grandes empresas um incentivo para transferirem sua produção para o Texas.

Assim, em anos bons ou ruins, o Texas tende a ter um crescimento do emprego superior ao do resto da América. Mas o Estado precisa de muitos empregos novos apenas para acompanhar sua população crescente -- e, como mostram essas comparações de desemprego, o crescimento recente do emprego tem sido bem inferior ao que é necessário.

Se esse quadro não se parece muito com o retrato reluzente que os defensores do Texas gostam de traçar, há uma razão: o retrato reluzente é falso.

Mesmo assim, será que o crescimento do emprego no Texas aponta um caminho para o crescimento maior do emprego no país como um todo? Não.

O que o Texas demonstra é que um Estado que oferece mão-de-obra barata e, menos importante, regulamentação fraca pode atrair empregos de outros Estados. Creio que a resposta apropriada a este insight é "então tá bom, grande coisa". A questão é que argumentar, com base nessa experiência, que deprimir salários e desmantelar a regulamentação nos EUA como um todo geraria mais empregos -- e é nisso que se resume a "Perryeconomia" na prática, seja o que for que Perry afirme -- envolve uma falácia de composição: não é possível cada Estado atrair empregos de cada outro Estado.

Na realidade, ao nível nacional, salários mais baixos quase certamente levariam a menos empregos -- porque deixariam os trabalhadores americanos em condições ainda piores para enfrentar o excedente de dívida deixado pela bolha imobiliária, excedente esse que está ao cerne de nosso problema econômico.

Portanto, quando Perry se apresenta como o candidato que sabe gerar empregos, não acredite. A receita dele para a geração de empregos funcionaria, na prática, mais ou menos tão bem quanto sua tentativa de acabar com a seca que devasta o Texas, à base de orações.
Tradução de Clara Allain
THE NEW YORK TIMES/FOLHA

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