terça-feira, 9 de agosto de 2011

Uma redução de juros exige austeridade nos gastos


A última Ata do Comitê de Política Monetária (Copom) nos havia levado a pensar que o Banco Central, por pressões do governo e do setor privado, poderia até ser levado a reduzir a taxa Selic. Os fatos que agravaram a crise mundial reforçam essa hipótese e parecem afastar uma nova alta da Selic na próxima reunião do Copom.
Além disso, é oportuna a ideia de uma redução da taxa de juros num momento em que se está montando uma nova política industrial. De fato, com a aversão ao risco, que se apresenta com nova força agora, podem-se prever maiores dificuldades para obter financiamentos no exterior, enquanto teremos de arcar com um custo maior.
A diminuição do ritmo de crescimento nos países industrializados e na China terá de se traduzir por uma forte queda do preço das commodities - com exceção, talvez, das alimentares -, que nos últimos meses vinham contribuindo para importante sustentação das nossas contas externas. Soma-se a isso a possibilidade de uma redução dos investimentos estrangeiros diretos, que nos ajudaram na manutenção de uma taxa de crescimento razoável.
Aparentemente, uma redução da taxa de juros poderia contribuir para compensar parte das perdas que a evolução da situação mundial deve provocar.
Um economista ortodoxo como Pérsio Arida não teme sugerir essa solução em razão das perspectivas da nova conjuntura internacional. Convém, no entanto, levar em conta as condições que ele aponta para essa redução, ao dizer que ela deve ser realizada por meio da política monetária, e não pela política fiscal.
Parece-nos que poderia se mostrar mais exigente na sua sugestão.
O uso da política monetária, isto é, a redução dos juros, exige que a política fiscal dê sua contribuição para que isso seja feito de modo eficaz. Com efeito, é indispensável que o governo reduza paralelamente seus gastos, que hoje estão contribuindo para manter uma demanda elevada de bens e serviços que nossa fase de desenvolvimento-investimentos não permite. Ao insistir sobre o perigo que haveria no recurso a um aumento do gasto público, ele estava certamente pensando na escolha, para enfrentar o impacto da crise mundial, de uma política de estímulo à produção que incluísse subsídios e taxas de juros artificiais pelo BNDES.
Mas é ilusão pensar que o Brasil sairá imune da crise econômica mundial. Pelo menos, devemos descartar uma política que aumentaria as dificuldades. 
ESTADÃO