segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Atropelamento destruiu minha família, diz filho e irmão de vítimas


Ana Cláudia Barros
Ainda tentando assimilar a tragédia que destruiu sua família, o engenheiro elétrico e palestrante Rafael Baltresca, 31 anos, busca forças para se dedicar a uma nova motivação na vida: lutar pela punição do responsável pelas mortes de sua mãe e irmã. Miriam Baltresca, 56, e Bruna Baltresca, 28, foram atropeladas na noite de sábado (17) na Marginal Pinheiros, quando saíam do cinema, no Shopping Villa-Lobos, na Zona Oeste de São Paulo, e seguiam até o carro, estacionado numa rua ao lado.
Um Golf, conduzido pelo auxiliar de bibliotecário Marcos Alexandre Martins, 33, atingiu violentamente as duas. De acordo com o boletim de ocorrência, o motorista, que se negou a fazer o teste do bafômetro, apresentava "sinais de embriaguez" e dirigia em alta velocidade. Ele foi preso em flagrante e indiciado por homicídio doloso, quando há intenção de matar.
Em entrevista a Terra Magazine, o engenheiro fala sobre o impacto que teve ao receber a notícia e conta que pretende fazer do caso um alerta sobre a combinação álcool e direção, que vitima cada vez mais pessoas no trânsito.
- Quando confirmei o que havia acontecido, fui tomado por um sentimento que nunca tive antes. Fiquei desorientado. Não sabia o que fazer. Dei chutes, soquei a parede. Estava alucinado, alucinado, alucinado. Nós três éramos muito unidos. Um apoiava o outro. Éramos uma família muito, muito unida e uma pessoa desuniu esta família num ato completamente irresponsável. Justiça tem que ser feita. É óbvio que fatalidades podem acontecer. Agora, quando você bebe, quando você sai em alta velocidade, já está prevendo que algo pode ocorrer.
Apesar de garantir que não guarda raiva pelo autor do atropelamento, Baltresca adianta que já tem um advogado criminal em vista para fortalecer a acusação. Ele afirma que vai lutar "até o fim".
- Ele (o motorista) precisa responder por seus atos. Tem que responder pelas consequências. E as consequências foram muito grandes. Ele acabou de destruir uma família de três pessoas. Ele acabou de tirar o sonho de uma pessoa de 28 anos e de uma jovem senhora. Ele começou, não começou? Agora tem que ir até o fim - diz, nitidamente abalado.
Ao falar sobre os planos feitos pela irmã - interrompidos pela tragédia -, emociona-se ainda mais:
- Ela havia acabado de deixar o Tribunal Regional do Trabalho porque se sentia pressionada, não gostava, não era uma coisa que a fazia feliz. E, por conta de ter uma estabilidade muito grande no emprego público, ela teve dúvidas se deveria sair ou não. Depois de tomar a decisão de sair, de pedir exoneração, ficou super feliz. Ela se sentia livre para fazer o que quisesse. Estava fazendo planos para viajar pelo mundo. Queria conhecer a África, aprender inglês. Já estava indo atrás de cursos no exterior. Recentemente, falou para mim que pretendia procurar algum trabalho voluntário. Disse que queria ajudar gente. Acho que talvez ajude muita gente agora. Talvez, o que aconteceu possa servir como uma forma de aprendizado, fazer com que muitas coisas sejam repensadas no Brasil.
Adeus
Cerca de cem pessoas participaram do sepultamento de Miriam e Bruna, no Cemitério do Araçá, na Zona Oeste, numa cerimônia com a presença de familiares e amigos. Emocionado, Rafael Baltresca discursou em homenagem à mãe e à irmã.
- Acho que há nisso tudo uma lição. Dizem que a história de que álcool não combina com direção é um clichê. Mas levaram minhas duas queridas porque não seguiram o clichê.
Sob aplausos e ao som de canções religiosas, as vítimas foram sepultadas. Antes do encerramento, Baltresca pediu aos presentes que cantassem Fada, da dupla Victor e Léo - uma das músicas preferidas da mãe - e Eu quero apenas, de Roberto Carlos.
- Eu acho que minha mãe e minha irmã conseguiram deixar um milhão de amigos - disse, pouco antes de dar o último adeus.
TERRA MAGAZINE