O lobista Nilton Monteiro, que ficou conhecido em 2005, época do escândalo do valerioduto tucano em Minas, foi preso nesta quinta-feira (20) pela Polícia Civil mineira. Ele é acusado de forjar documentos que colocam empresários e políticos como credores dele.
Monteiro foi o responsável por divulgar o caso que ficou conhecido como "lista de Furnas". Ele entregou à Polícia Federal, também em 2005, um documento que registrava supostos financiamentos ilegais de campanha eleitoral em 2002 a 156 políticos.
A divulgação dessa lista se deu em meio à investigação do valerioduto tucano, esquema de caixa dois na campanha à reeleição em 1998 do então governador Eduardo Azeredo (PSDB-MG).
Na mesma época em que o escândalo veio à tona, estava em apuração pela Polícia Federal o mensalão do PT. Esses dois casos envolvem o empresário Marcos Valério Fernandes de Souza, que era sócio na agência de publicidade SPMB e suposto operador financeiro dos esquemas.
No caso do valerioduto mineiro, foi Monteiro quem também vazou dados referente ao esquema financeiro da campanha de Azeredo. Uma lista faz descrição de origem e destino de supostos recursos de caixa dois.
FALSOS CREDORES
Segundo o delegado Márcio Simões Nabak, chefe do Deoesp (Delegacia de Operações Especiais) da Polícia Civil de Minas Gerais, Monteiro foi preso por causa de um dos muitos títulos de crédito que ele teria falsificado.
De posse das falsificações dos títulos de crédito, com assinaturas reconhecidas em cartórios, Monteiro ingressava com ação de cobrança na Justiça. Em todas elas, segundo o delegado, o argumento para justificar o crédito era sempre ter prestado consultoria.
Na lista dos falsos credores apresentada pela polícia estão pessoas e empresas como o secretário de Governo de Minas Gerais, Danilo de Castro, cuja dívida Monteiro alega na Justiça ser de R$ 17,8 milhões, o empresário e ex-deputado Vittorio Medioli (R$ 190 milhões), a revista "Veja" (R$ 1,45 milhão), o jornal "Hoje em Dia" (R$ 100 mil) e Andreia Cássia, da Samarco Mineração (R$ 85 milhões).
Aparecem ainda o ex-presidente de Furnas Centrais Elétricas Dimas Fabiano Toledo (duas cobranças que somam R$ 11 milhões) e três pessoas envolvidas no valerioduto mineiro: Azeredo (R$ 650 mil), o ex-ministro Walfrido dos Mares Guia (R$ 50 mil) e o ex-tesoureiro da campanha Cláudio Mourão (R$ 1,1 milhão).
O delegado disse que todas essas pessoas negaram ter alguma relação com Monteiro e que a maioria delas nem sequer o conhecia. Para a polícia, as falsificações são "de qualidade" e isso "induz as pessoas ao erro". "Ele está usando a Justiça, ele é estelionatário", afirmou o delegado.
O título de crédito no valor de R$ 3 milhões que levou à prisão de Monteiro está em nome do advogado Carlos Felipe Amodeo, que morreu de câncer em 2005.
A investigação, segundo a polícia, concluiu que na data da suposta assinatura do documento pelo advogado, Amodeo estava internado em uma UTI no Rio de Janeiro. Foi na véspera da sua morte. A perícia técnica, segundo o delegado, constatou que o documento é falso.
O advogado Alcy Monteiro, do Rio, e uma mulher de Vila Velha (ES), que assinam todos os documentos como testemunhas, são suspeitos de participar das fraudes. A mulher, Maria Maciel de Souza, foi presa hoje pela polícia do ES. O advogado está sendo procurado pela polícia do Rio. A Folha não conseguiu falar com eles ou com seus advogados.
OUTRO LADO
No seu depoimento prestado na manhã de hoje, com a presença do Ministério Público Estadual, segundo o delegado, Monteiro nada declarou. "Ele disse que só vai falar em juízo".
Monteiro estava acompanhado do advogado Raul Cardoso. À Folha, porém, o advogado disse que apenas o acompanhou na oitiva, mas que ainda não sabe se é ele quem vai atuar no caso. O advogado de Monteiro, William Santos, disse que também não sabe se é ele quem ficará com esse novo caso. Monteiro vai responder a inquérito por estelionato, falsificação de documentos e formação de quadrilha.
FOLHA