MACEIÓ - A falta de água nos caminhões do Corpo de Bombeiros Militar para apagar um incêndio - sem vítimas - em um pavilhão de artesanato, na praia de Pajuçara, na capital alagoana, no sábado, acabou na prisão de um major. Carlos Buriti foi detido porque, durante o incêndio, criticou, na imprensa, a falta de estrutura do Corpo de Bombeiros. O pedido de prisão gerou uma onda de protestos na internet contra o governador Teotônio Vilela Filho (PSDB). Pressionado, o comando dos Bombeiros soltou o major um dia depois.
- Há 16 anos venho sendo feito de palhaço. Todos sabem que faltam viaturas e equipamentos e somos nós que escutamos as reclamações da população como as de hoje. É preciso que todos saibam que a tropa é dedicada e faz o impossível para prestar o serviço ao alagoano - disse o major, no sábado, em meio às vaias e lágrimas dos comerciantes.
O governador e o secretário de Defesa Social, coronel Dário César, estavam em Minas Gerais, participando de um encontro do PSDB. Por volta de uma e meia da manhã, do domingo, o secretário usou o microblog Twitter. Era a reação do Governo:
- As organizações militares são fundadas na hierarquia e disciplina através dos séculos. Qualquer tentativa de sua inobservância tem que ser reprimida!, disse.
Horas depois, foi a vez do major usar o microblog para comunicar sua prisão:
- Decência, personalidade, capacidade! Repressão é termo usado na ditadura! Cumpro determinação e me encontro preso junto com meu filho no QCG. No quartel QCG PRESO! PRESO! Falei algo demais? Devo mentir? Tô conversando aqui com meu filho! - disse o major Buriti.
- Ele colocou assuntos da corporação em público, sem autorização - disse a assessoria da Secretaria de Defesa Social. A falta rende processo disciplinar e está no regulamento do Código Policial Militar.
Entidades da sociedade civil, advogados e políticos reagiram à prisão e enviaram mensagens de solidariedade ao major, pela internet.
O presidente da Associação dos Oficiais Militares de Alagoas, major Wellington Fragoso, criticou a prisão:
- Ele apenas disse a verdade e foi punido por isso. Falta estrutura no Corpo de Bombeiros, como viaturas e equipamentos. É preciso mais investimentos por parte do governo, não apenas ficar dependendo da taxa de incêndio e de verbas federais, disse Fragoso.
Nas primeiras horas da manhã desta segunda-feira, o comandante do Corpo de Bombeiros, Neitônio Freitas, cedeu a pressão e revogou a prisão do subordinado:
- O Comandante Geral do Corpo de Bombeiros Militar de Alagoas, coronel Neitônio Freitas, acaba de proceder a liberação do major BM Carlos Buriti, da medida disciplinar administrativa, imputada no domingo, dia 3, após declarações sobre a operação de combate a incêndio realizada no Pavilhão do Artesanato, na Pajuçara, tratando de assuntos internos da Corporação. A Corregedoria Geral da instituição já instaurou procedimento disciplinar para a devida apuração e esclarecimento dos fatos - diz a nota distribuída à imprensa.
Em entrevista a rádios locais nesta segunda-feira, o comandante reconheceu que o efetivo trabalha com a metade das viaturas e que falta máscaras e capacetes:
- As declarações foram um atentando ao esforço da corporação e do Governo. Ele extrapolou - disse.
Carlos Buriti deixou a cela do quartel chorando. Ele agradeceu a solidariedade. O major já havia sido preso em abril de 2005 por distribuir aos veículos de comunicação mensagem eletrônica reclamando da falta de estrutura da corporação. O pedido de prisão foi feito pelo então governador, Ronaldo Lessa (PDT).
O Comando disse que o major é um dos melhores e mais bem preparados oficiais da corporação.
Desde o ano passado, o Corpo de Bombeiros de Alagoas enfrenta problemas internos. Em julho, eles foram acusados de desviar donativos das vítimas das enchentes em Alagoas. No final do ano passado, um galpão com 20 toneladas de doações foi queimado de forma criminosa, segundo o Ministério Público, que determinou a abertura de uma ação por improbidade administrativa contra o comandante, que pode perder a farda.
Apesar da falta de estrutura, admitida pela corporação, a direção dos Bombeiros gastou mais dinheiro com o pagamento em diárias para os oficiais e nenhum centavo, este ano, para a compra de material. O Corpo de Bombeiros alagoano recebeu R$ 785.779,93 e gastou R$ 372.350,18 em diárias. O Globo