Enquanto se aprontava para o trabalho na terça-feira, Fredy Kaplan, um ativista dos direitos homossexuais que tem 1,80 metro de altura e pesa 72 quilos, olhou para seu companheiro, que tem 1,83 metro e pesa 113 quilos, e anunciou a decisão: "Você vai ser a noiva".
Kaplan, que vive no East Village, em Nova York, havia passado a manhã no computador, preenchendo os formulários de solicitação online de uma licença para casamento, porque a terça-feira foi o primeiro dia em que o governo municipal de Nova York permitiu que casais homossexuais dessem início aos procedimentos para casar. Mas ele encontrou um obstáculo inesperado. Os formulários online que o município oferece só apresentavam as opções "noivo" e "noiva". Kaplan, 50, vice-presidente da organização Stonewall Democrats, e Anthony Cipriano, 43, com quem ele vive há seis anos, ficaram confusos mas também acharam graça.
O casamento homossexual se tornará legal no Estado de Nova York em 24 de julho e, para as pessoas que estão tentando antecipar as formalidades burocráticas, há muita confusão a enfrentar. Não apenas os funcionários dos governos locais estão tendo de correr para atualizar formulários como surgiram outras complicações. O dia 24 de julho é um domingo, o que significa que as repartições municipais costumeiramente não trabalham, e por isso não está claro que os casais homossexuais poderão obter suas licenças para casamento naquele dia. E a lei estadual requer que casais aguardem 24 horas antes de formalizar o matrimônio, mas na cidade de Nova York as autoridades prometeram que juízes de paz estariam de plantão para conceder dispensas a essa norma, permitindo que os casais se casem já no primeiro dia de vigência da nova lei.
Na terça-feira, a confusão quanto aos formulários online para solicitação de licenças de casamento servia de alguma forma como lembrete de que a burocracia pode demorar a acompanhar a História, mesmo na era da Internet.
O prefeito Michael Bloomberg, conversando com jornalistas em um evento em Brooklyn, disse que a cidade estava se preparando para um influxo de casais homossexuais em busca de casamentos. Os sites do Departamento Nupcial da prefeitura e o site oficial de turismo de Nova York, o nycgo.com, ofereciam dicas para os casais gays em suas home pages, e pela noite da terça-feira a burocracia municipal já havia postado formulários atualizados de solicitação de licenças para casamento, com o casal identificado como "noivo/noiva/cônjuge A" e "noivo/noiva/cônjuge B".
"Nós alteramos tudo isso, a fim de refletir a aprovação de uma lei cujo momento certamente chegou", disse Bloomberg, que instou os legisladores do Estado a aprovar o casamento gay.
"Esta é uma cidade que recebe bem a todos".
Na manhã da terça-feira, diversos casais homossexuais tiveram experiências frustrantes com o sistema de solicitação online de licenças para casamento. Na terça-feira, a prefeitura recebeu 20% mais solicitações do que costuma em um dia típico desse período do ano. A linha telefônica de assistência da prefeitura recebeu 60 telefonemas sobre solicitações de licenças para casamento homossexual, até o começo da noite. E no Twitter, um usuário que usa o nome nycpkp fotografou o formulário com espaço para nome de "noivo" e "noiva" e se queixou de que "estamos sendo submetidos a feminização forçada pelo sistema de licenças para casamentos em Nova York!".
Alfred Gonzalez, professor que vive em Chelsea, disse que ele e Tom Allsup, com quem vive há 17 anos, queriam ser um dos primeiros casais a solicitar a licença para casamento, na terça-feira. Mas quando esbarraram no problema da identificação de noivo e noiva, decidiram esperar. Os dois criticaram a maneira pela qual a prefeitura está conduzindo o processo.
"A questão é a igualdade do casamento, mas não sinto igualdade", disse Gonzalez. "Não parece tão difícil fazer as coisas da maneira certa".
Os poucos casais homossexuais que visitaram diretamente a repartição de registro matrimonial de Nova York, que funciona sob o controle do Legislativo municipal, encontraram obstáculos parecidos, na terça-feira.
Sandra Rodriguez-Diaz, 43, e Miriam Soriano, 51, chegaram com uma cópia impressa do formulário online que não haviam conseguido decifrar.
"Primeiro Passo", o texto dizia. "Informações do Noivo".
Um funcionário do registro as informou que o casal, que vive em Battery Park City e tem uma filha de 14 anos, poderia preencher o formulário em sua forma desatualizada, se quisesse, designando uma das duas como noivo - e corrigir o documento mais tarde.
"Quer dizer que tenho de ser o noivo?", disse Rodriguez-Diaz. "É meio sem graça".
Nimon Sinanovic, 35, e Jamar Robinson, 31, do Bronx, faltaram ao trabalho para ir ao departamento, que fica na região sul de Manhattan. Achavam que conseguiriam receber a licença já na terça-feira, mas um funcionário da prefeitura os desencorajou de preencher o pedido, disseram.
"Creio que teremos de esperar um pouco mais", disse Sinanovic.
Ross Levi, diretor executivo da Empire State Pride Agenda, uma conhecida organização de defesa dos direitos dos homossexuais, afirmou que a confusão não era inesperada. "Com certeza haverá tropeços burocráticos aqui e acolá", disse.
O Estado, que controla os pedidos de licença de casamento em outros municípios que não Nova York, também está correndo para atualizar seus formulários de solicitação de licença, acrescentando "cônjuge" como terceira opção, a exemplo do que fez a cidade.
Enquanto isso, muitos empresários de Nova York não precisaram de tempo para se ajustar ao novo mundo dos casamentos gays. Antes da abertura do departamento de registro matrimonial, às 8h30min, havia alguns fotógrafos e celebradores de matrimônios esperando na entrada.
Porque o número de casais gays que foi ao local era pequeno - o município havia informado que só aceitaria solicitações online de licença para casamento -, Kevin Bain, que se descreve como oficiante de matrimônios, decidiu que iria para a entrada da capela.
"Senha C808, favor comparecer ao guichê 8", anunciava uma voz pelo sistema de altofalantes, enquanto Bain perguntava aos casais, alguns dos quais tinham horário na capela em poucos minutos, se já haviam contratado oficiante para a cerimônia.
"Para mim está tudo bem", ele disse, procurando um cartão de visita no bolso. "Já estou reservando cerimônias para 2012".
THE NEW YORK TIMES/FOLHA