domingo, 18 de setembro de 2011

O reconhecimento da Palestina


A anunciada iniciativa palestina de pedir à ONU reconhecimento pleno e filiação é tida pelos céticos como fútil ou temerária. Fútil, em primeiro lugar, porque os Estados Unidos já anunciaram que vetarão a proposta no Conselho de Segurança, por onde terá de passar. O máximo a que os palestinos poderiam aspirar é ser acolhidos na instituição como Estado não membro, em vez de meros observadores, o que depende do voto de 129 dos seus 193 integrantes, na Assembleia-Geral que começa na próxima semana. Esse eventual desfecho, segue o raciocínio, será apenas simbólico: nada mudará nos territórios palestinos que Israel ocupa há 44 anos nem na queda de braço entre a Autoridade Palestina (AP) do presidente Mahmoud Abbas e o governo do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu.
Afinal, se este peitou os EUA, único aliado incondicional do Estado judeu, recusando-se a prorrogar o congelamento temporário dos assentamentos na Cisjordânia, como demandava o presidente Barack Obama para desemperrar as negociações de paz na região, não será mais um ato da ONU contrário a Israel que abalará a sua intransigência. Já os que consideram o passo palestino uma temeridade, quando não uma provocação, argumentam que, em represália, o Capitólio poderá cortar a ajuda americana de US$ 500 milhões anuais à Autoridade Palestina, o que representa 1/4 do seu orçamento. E Israel poderá deixar de arrecadar impostos para a AP, além de taxar a importação de produtos dos territórios, levando ao colapso a economia local. Isso, sem falar no recrudescimento das violações dos direitos elementares de sua população.
Pena que esses críticos não ofereçam nenhuma alternativa para restabelecer o processo de paz que Netanyahu sabotou no ano passado porque conduziria à criação de um Estado palestino viável dentro das fronteiras da Cisjordânia anteriores à guerra de 1967, com trocas de territórios entre as partes e o reconhecimento do direito de Israel de viver em paz e segurança. É a posição defendida pela ONU, os EUA, a União Europeia, a Rússia e a China. Em outubro do ano passado, Netanyahu declarou que as fronteiras de 1967 são "indefensáveis". Desde então, fez duas exigências reveladoras da aversão da direita israelense a um efetivo Estado palestino: manutenção de tropas no compartilhado Vale do Jordão e aceitação de Israel como "Estado judeu", embora 20% de sua população seja árabe.
Israel nunca teve e talvez nunca venha a ter entre os palestinos um "parceiro para a paz" como Mahmoud Abbas. Mas Netanyahu nunca lhe deu nada para ao menos mitigar o legítimo sentimento de revolta e desespero de seu povo, enquanto não cessa de invocar que o Hamas, que controla a Faixa de Gaza - e verbera a "docilidade" da OLP chefiada por Abbas -, continua a pregar a destruição de Israel. O que o governo Netanyahu não vê é que desmoralizar o seu interlocutor tem o mesmo efeito que distribuir nos territórios ocupados fichas de inscrição no movimento extremista sustentado pelo Irã e abominado pelo Egito (mesmo depois da queda do regime filoisraelense de Hosni Mubarak) e pela Arábia Saudita.
Em 2002, por iniciativa saudita, a Liga Árabe aprovou a fórmula dos dois Estados com base nas fronteiras de 1967 como ponto de partida para o fim do conflito israelense-palestino - e a "normalização" das relações entre Israel e os seus vizinhos. Israel fingiu que não ouviu. Agora que Abbas se prepara para pedir que uma Palestina implantada nesse mesmo território seja reconhecida como Estado pela ONU, Israel retruca que isso será um obstáculo à paz. Queria o quê? Que Abbas continuasse impassível diante do colapso, induzido por Netanyahu, das negociações que Obama tentou patrocinar? Que ignorasse os ventos da primavera árabe?
O governo israelense age como se o mundo não se movesse e o repúdio às suas políticas não se intensificasse, com a perenização do status quo nos territórios ocupados. Longe de ser fútil ou temerário, o reconhecimento do Estado da Palestina na ONU pode romper um impasse intolerável - e dar a Israel a oportunidade de abrir os olhos. 
ESTADÃO

Dilma Rousseff é capa da revista 'Newsweek'


A presidente Dilma Rousseff é capa da próxima edição da revista 'Newsweek' internacional e da edição nacional americana. É a primeira vez que há destaque em mais edições da publicação para uma capa sobre o Brasil. A revista deve chegar às bancas nesta semana.
Com o título 'Don't mess with Dilma' (em tradução literal 'Não mexa com a Dilma'), a reportagem principal aborda o governo, a história política e também a vida pessoal da presidente.
A revista cita detalhadamente o crescimento econômico do Brasil e a participação de Dilma nesse processo de mudanças, iniciado com a gestão Lula. O assunto é endossado pela frase do presidente dos EUA, Barack Obama, quando esteve no Rio de Janeiro em março deste ano, dizendo que o Brasil era o país do futuro. Dilma será a primeira mulher a abrir uma Assembleia Geral da ONU, fato descrito como positivo e influente.
Na matéria, a presidente afirma saber do potencial brasileiro e pergunta ao repórter da 'Newsweek' se ele sabe qual é a diferença entre o Brasil e o resto do mundo. A própria Dilma responde dizendo que, em nosso País, os instrumentos de controle políticos existentes são fortes o bastante para combater um crescimento mais lento ou até a estagnação da economia mundial - diferente de outros países. Segundo Dilma, o Brasil pode cortar as taxas de juros porque fez um empréstimo cauteloso e tem um Banco Central rígido.
Na entrevista, Dilma confessa que, quando criança, queria ser bailarina ou bombeira. Para ela, uma menina querer ser presidente é um sinal de progresso. Dima também fala sobre sua passagem pela prisão, época em que fazia parte de um grupo revolucionário político, e que, por conta disso, aprendeu a ter esperança e paciência.
A presidente Dilma Rousseff vai receber o prêmio Woodrow Wilson Public Service Award, na próxima terça-feira, 20, em jantar no Hotel Pierre, em Nova York. A premiação também já foi concedida a Lula, em 2009.
ESTADÃO 

Policial morre em acidente na Imigrantes


Um acidente envolvendo um carro e uma moto na rodovia Imigrantes deixou um policial morto na manhã deste domingo. O acidente aconteceu na altura do km 30 da Imigrantres.

Segundo informações da Ecovias, concessionária que administra o Sistema Anchiete-Imigrantes, o acidente aconteceu por volta das 6h, quando o motorista do carro perdeu o controle da direção e bateu na traseira da moto arremessando o motociclista, que era um policial militar.

O PM não resistiu à queda e morreu no local. Por volta das 8h30, o corpo ainda estava no local aguardando perícia. As duas faixas da esquerda estavam interditadas. O trânsito está fluindo normalmente sem lentidão.

FOLHA

Nicolas Cage diz que homem pelado invadiu sua casa


Nicolas Cage, 47, revelou uma situação inusitada pela qual passou.
Segundo contou a jornalistas no Festival de Toronto, ele teve sua casa invadida por um homem pelado.
"Eram duas da manhã", contou. "Estava morando no Condado de Orange naquela época e estava dormindo com a minha mulher".
"Meu filho, que tinha dois anos na época, estava em outro quarto".
"Abri meus olhos e lá estava um homem pelado usando a minha jaqueta de couro e tomando um picolé na frente da minha cama", riu.
O ator estava no festival promovendo seu novo filme, "Trespass", em que contracena com Nicole Kidman.
FOLHA

Anhanguera compra Uniban por R$ 510 milhões


A Anhanguera Educacional, maior grupo privado de educação superior da América Latina, fechou na sexta-feira à noite a compra da Uniban, por R$ 510 milhões, segundo fontes de mercado. Trata-se da maior aquisição da história do setor no País. A operação deve ser comunicada ao mercado amanhã.
Com os 55 mil alunos da Uniban, a Anhanguera ultrapassa a marca de 400 mil alunos, tornando-se o segundo maior grupo de ensino superior do mundo, atrás apenas da americana Apollo Group, dona da Universidade de Phoenix. A marca de 400 mil alunos estava prevista para ser alcançada no fim de 2012.
A nova instituição terá cerca de 10 mil professores. Controlada pelo Pátria Investimentos, a Anhanguera está comprando a operação de educação da Uniban por R$ 380 milhões e mais 13 imóveis do grupo por R$ 130 milhões. A Uniban tem 13 câmpus, sendo nove em São Paulo, dois no Paraná e dois em Santa Catarina. Imóveis que pertenciam à Uniban mas não eram usados para fins educacionais não foram incluídos no negócio.
"A compra foi divulgada oficialmente no sábado somente para os diretores, coordenadores de curso e coordenadores de câmpus, mas o boato já corre na instituição há mais de um mês", afirmou um funcionário da Uniban que não quis se identificar, acrescentando que havia um clima de apreensão entre professores e staff administrativo.
Ciclo. A compra da Uniban encerra o segundo ciclo de aquisições da Anhanguera, que reforçou seu caixa em dezembro de 2010 com uma emissão de R$ 844 milhões em ações. Nos últimos nove meses, a empresa adquiriu instituições de ensino que atendem 100 mil alunos.
O número inclui a aquisição, em abril deste ano, da Faculdade Anchieta e da Faculdade de Tecnologia Anchieta, de São Bernardo, por R$ 74,8 milhões. No ciclo anterior de aquisições, a empresa havia levado dois anos e meio para comprar instituições com 150 mil alunos.
Agora, a prioridade da Anhanguera é consolidar as operações compradas. Os câmpus da Anhanguera, com a última aquisição, passam a ter capacidade para 700 mil alunos. O grupo tem como objetivo alcançar, entre 2014 e 2015, a marca de 1 milhão de alunos, incluindo os atendidos por sistema de educação a distância.
Isso elevaria a participação da empresa no mercado de educação superior brasileiro de 8% para 15% em alunos atendidos. A compra da Uniban faz da Anhanguera líder na Grande São Paulo, com 110 mil alunos.
Mudança. A Uniban adotará os modelos acadêmicos da Anhanguera, será incorporada nos programas de ensino a distância e oferecerá aos alunos mais acesso a financiamento, segundo fontes do mercado.
Apesar de a Anhanguera estar optando pelo crescimento orgânico depois dessa aquisição, o mercado brasileiro de educação superior deve continuar a se consolidar.
O potencial de expansão do mercado é alto, por causa desse movimento de consolidação, das tecnologias de educação a distância e da expansão do crédito estudantil. Nos Estados Unidos, 80% dos alunos universitários têm acesso a crédito, enquanto no Brasil essa fatia ainda está em 5%. 
ESTADÃO

IPI maior para carros importados é protecionismo, admite governo


O governo Dilma admite que o aumento do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) para carros importados é uma medida "protecionista" no curto prazo, mas no médio prazo acredita que ela gerará novos investimentos, inovação tecnológica e mais empregos no país.

A decisão, festejada pelas montadoras instaladas no país e criticada pelos importadores, foi tomada em caráter emergencial e excepcional segundo um assessor presidencial, seguindo a política de preservar o mercado doméstico brasileiro.

De acordo com o assessor, o governo optou por proteger a indústria brasileira em vez de manter as vantagens para a classe média comprar carros importados, vendas que se aceleraram neste ano devido ao dólar desvalorizado.

Técnicos do governo, que falaram à Folha sob condição de anonimato, afirmaram ainda que o Brasil não pode ter receio de ser taxado de protecionista porque diversos países - a China é o maior exemplo - estão fazendo o mesmo.

FOLHA

Folha lança site para receber informações de fontes anônimas


A Folha lança neste domingo o programa Folhaleaks, um canal na Folha.com (folha.com/folhaleaks) para receber informações e documentos que possam merecer uma investigação jornalística.

Trata-se de uma ferramenta que permitirá ao leitor enviar sugestões, informações e documentos inéditos capazes de gerar reportagens investigativas elaboradas pela equipe do jornal.

O internauta poderá fazer isso de forma anônima - o jornal preservará o anonimato das fontes que não queiram se identificar, procedimento autorizado pela Constituição brasileira quando necessário para garantir o direito à informação.

"O Folhaleaks foi criado para ampliar o acesso da sociedade a informações relevantes, estreitando ainda mais a relação dos leitores com a produção de reportagens de interesse público", afirma Sérgio Dávila, editor-executivo da Folha.

DOCUMENTOS

Poderão ser enviados para o portal textos e arquivos (vídeo, foto, áudio). As informações e documentos passarão por uma triagem. Não serão publicadas informações que não tenham sido checadas e confirmadas pela equipe de repórteres do jornal.

Depois da seleção das sugestões e da identificação dos temas de maior relevância, os participantes poderão ser procurados pelos jornalistas para detalhar e aprofundar os dados, se manifestarem interesse em ser contatados posteriormente.

O jornal confirmará o recebimento das informações por meio de um número de identificação de cada sugestão.

A Folha, no entanto, não se obriga a informar o andamento e a conclusão de suas avaliações, nem se publicará ou não reportagem a partir dos dados.

A participação é espontânea. O jornal não remunera suas fontes de informação.

FOLHA

Europa ganha tempo


A Europa conseguiu ganhar mais tempo e evitar mais uma vez um desfecho calamitoso. Este é o saldo de mais uma semana de luta contra a crise que começou na Grécia. Governos e dirigentes de bancos centrais conseguiram também aliviar a tensão crescente no sistema bancário, afastando o temor de uma nova quebradeira no terceiro aniversário - 15 de setembro - da falência do Lehmann Brothers. O alívio em relação às dívidas soberanas e ao sistema financeiro pode estender-se por alguns dias, talvez semanas, com alguma sorte. Mas ninguém sabe quando virá a próxima onda de pânico nem se poderá ser mais forte e mais danosa que as anteriores.
A chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente francês, Nicolas Sarkozy, conseguiram do primeiro-ministro grego, George Papandreou, mais uma promessa de arrumar as contas públicas de seu país e de executar o programa de reformas negociado com a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu (BCE) e o Fundo Monetário Internacional (FMI). Mas bastará a execução desse programa para se evitar o calote? Há quem duvide, mas, apesar disso, a conversa dos três governantes na quarta-feira foi recebida como um bom sinal nos mercados financeiros.
Têm-se acumulado outros dados positivos. Os governos de Portugal e da Irlanda venceram as primeiras dificuldades políticas e avançam na execução de seus planos de ajuste. O FMI já avaliou favoravelmente o desempenho dos dois países. Programas de austeridade foram aprovados na Itália e na França e o governo espanhol tem-se mostrado comprometido com a pauta de reformas.
A agitação nos mercados tem sido atribuída, no entanto, não só à inquietação diante da situação grega e do endividamento público de alguns dos principais países da zona do euro, como a Itália. A especulação tem derrubado o valor de ações de grandes bancos detentores de papéis gregos e de outros países com alto endividamento público. As pressões concentraram-se nos bancos italianos durante algum tempo e se voltaram depois para os franceses. Dois destes foram rebaixados pela agência Moody"s.
Mas os bancos enfrentam problemas também fora das bolsas de valores. Têm faltado financiamentos no mercado interbancário. Não só os investidores do mercado de ações mantêm os bancos sob suspeita. Há sinais de desconfiança também entre as instituições financeiras. O BCE conseguiu atenuar as dificuldades durante algum tempo, fornecendo ajuda a vários bancos. Mas a situação piorou nos últimos dias, quando começaram a escassear os financiamentos em dólares.
Cinco grandes bancos centrais uniram-se para cuidar do problema - o Federal Reserve (Fed), dos Estados Unidos, o BCE e os bancos da Inglaterra, da Suíça e do Japão. Juntaram-se para dar liquidez em dólar ao mercado financeiro e evitar um desastre parecido com o de 2008. Também naquela ocasião as autoridades monetárias das grandes economias conseguiram articular-se, mas só depois dos primeiros abalos.
Todas essas ações, no entanto, são insuficientes para repor os países desenvolvidos no caminho do crescimento firme e sustentado. Os Estados Unidos dependem, para começar, da aprovação do novo plano de reativação econômica apresentado ao Congresso pelo presidente Barack Obama. Na Europa, o desafio é especialmente complexo por causa das dívidas soberanas - o caso grego é, de longe, o mais grave, mas não é único - e da dificuldade de articulação das políticas. Os problemas financeiros podem ser graves, mas as soluções têm sido dificultadas principalmente por fatores políticos.
Nos Estados Unidos, a feroz disputa entre os partidos, mais de um ano antes da próxima eleição presidencial, impede ou atrasa a adoção de medidas eficientes para a criação de empregos e para um ajuste fiscal seguro a médio prazo. Na zona do euro, a crise expôs claramente a necessidade de uma articulação mais ampla - e mandatória - entre as políticas orçamentárias. Não basta um banco central comum para o bom funcionamento de uma união monetária. A coordenação fiscal é também necessária, mas como manter na linha 17 governos, se a sua cooperação depender apenas de promessas? 
ESTADÃO

11/9/2001, recordações e reflexões


Celso Lafer - O Estado de S.Paulo
"A fecundidade do inesperado excede em muito a prudência do estadista". Essa observação de Proudhon, realçada por Hannah Arendt, foi a que me ocorreu em 11 de setembro de 2001. Naquela ocasião estava em São Paulo participando, na Fiesp, de um seminário internacional sobre a agenda econômica externa do Brasil, à qual vinha atribuindo grande relevo desde minha posse no Itamaraty em janeiro daquele ano.
No meio de entrevista coletiva de imprensa sobre o assunto, meu colaborador Fernando de Mello Barreto sinalizou que eu precisava interrompê-la, posto que algo muito grave estava acontecendo. Suspendi a entrevista e em sala ao lado, com Fernando e o então presidente da Fiesp, Horácio Lafer Piva, vi pela televisão as surpreendentes cenas dos dois aviões perfurando e destruindo, em sequência, as torres gêmeas do World Trade Center.
Telefonei para Brasília para falar com o presidente Fernando Henrique Cardoso. Trocamos ideias e impressões sobre o ineditismo dos acontecimentos, que nada tinham que ver com as projeções mais generalizadas a respeito da dinâmica do sistema internacional. Estas apontavam para um mundo mais cooperativo sob a égide da primazia norte-americana, por obra, na década de 1990, da desagregação da União Soviética e do fim da guerra fria.
Naquele momento me dei conta de que os antecedentes diplomáticos não me ajudariam na formulação da posição do Brasil, em razão do incomum dos acontecimentos. Estes, com efeito, internalizavam com violência, pela primeira vez no território continental norte-americano, as tensões do mundo. Fui, assim, organizando e subsequentemente desenvolvendo a minha análise a partir de três vertentes complementares: a jurídica, a política e a estratégica.
Como professor de Direito, atento aos princípios que regem as relações internacionais do Brasil estipulados no artigo 4º da Constituição Federal, o meu ponto de partida foi o inciso VII, que afirma o "repúdio ao terrorismo". Desse modo, as imediatas manifestações de solidariedade aos EUA, que nortearam a posição brasileira, em sintonia com a esmagadora maioria dos países, tiveram o respaldo jurídico de um inequívoco preceito constitucional. Essa foi a base do que veio a ser a ação diplomática brasileira nas instâncias internacionais e regionais.
No entendimento político do que estava ocorrendo, inspirei-me na análise de Hannah Arendt sobre a violência. Aponta ela que a violência não cria poder, mas o destrói, e seu alcance destrutivo no mundo contemporâneo se viu multiplicado pelos instrumentos da tecnologia. Desse modo, poucos podem impor a muitos o medo da violência indiscriminada. A ação da violência terrorista que atingiu os EUA no 11 de setembro de 2001 teve o simbolismo de mostrar a vulnerabilidade de duas grandes fontes do poder americano: a econômica, com a derrubada do World Trade Center, e a militar, com o atentado ao Pentágono. E teve a dimensão muito concreta do número de vítimas civis - norte-americanos e de várias nacionalidades -, que excederam as do ataque a Pearl Harbor, que levou à entrada dos EUA na 2ª Guerra Mundial.
Do ponto de vista estratégico, o 11 de Setembro afetou o senso de segurança e de invulnerabilidade dos EUA. Assim, foi recolocado em novos termos o tema da paz e o desafio da segurança no próprio centro do poder mundial, e não só no seu contexto externo. No trato dessa questão recorri ao livro de Raymond Aron Penser la Guerre. Nele o autor esclarece que a guerra é um camaleão: assume sempre novas formas numa sociedade planetária heterogênea. Por isso mesmo requer analisar 1) a pluralidade das armas e os conflitos de valores; 2) o potencial de mobilidade, facilitado pelos recursos que a técnica propicia; e 3) o alcance de uma latente internacional de violência pura - exaltada por Fanon no seu livro, de 1961, Le Damnés de la Terre -, a qual move os propósitos de redenção dos revoltados de todo o mundo.
Nesta linha, avaliei que num mundo globalizado a ação terrorista se vê facilitada pela possibilidade de atuar por meio de redes. Estas permitem transpor fronteiras e territórios, prescindem de estruturas hierárquicas e dão espaço para o segredo das operações clandestinas, que, por sua vez, tendem a escapar do controle dos serviços de inteligência dos Estados e ensejam a magnificação dos riscos difusos da violência indiscriminada.
Ponderei que, dadas as características da presença do Brasil no mundo, era pouco provável que viéssemos a ser vítimas de um ataque terrorista da mesma natureza, no qual estavam envolvidos, com a especificidade das motivações da Al-Qaeda, Osama bin Laden e o Taleban. Ainda assim, cabia ao governo, numa gestão de riscos, a precaução, de que foram exemplos medidas de segurança em relação ao espaço aéreo brasileiro e aos nossos aeroportos, redobrados esforços na coleta de informações pertinentes e cuidados adicionais na vigilância policial da Embaixada e dos Consulados dos EUA no Brasil. Ao Itamaraty incumbia dar apoio consular aos brasileiros que se encontravam nas cidades norte-americanas atingidas pelos atentados terroristas.
O mundo mudou foi o título do meu artigo de 16/9/2001 para este jornal sobre o 11 de Setembro. Passados dez anos, creio que foi mesmo o ponto de partida de uma alteração da ordem mundial. Para isso contribuíram a perda de foco dos EUA na complexidade das coisas e os equívocos unilateralistas da "guerra global ao terrorismo", declarada pelo presidente George W. Bush. Nos seus desdobramentos, isso foi minando a primazia norte-americana e vem ensejando a presente multipolaridade política e econômica do sistema internacional. Este carece, no entanto, de uma apropriada governança e, em camoniano "tempo de tormenta e vento esquivo", continua permeado por tensões de hegemonia e pelas forças centrífugas da sublevação dos particularismos.
PROFESSOR TITULAR DA FACULDA-DE DE DIREITO DA USP, MEMBRO DA ACADEMIA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS E DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS, FOI MINISTRO DAS RELAÇÕES EXTERIORES NO GOVERNO FHC 
ESTADÃO

Crack agora se alastra pelo interior nordestino


Ele começou com álcool há dez anos, quando tinha 17. Depois, viciou-se em maconha. Há cinco anos, quando chegou aos 23, mergulhou de cabeça na pedra de cocaína, o crack. Hoje, aos 28, é um dos 43 internos em uma chácara de recuperação de dependentes químicos no interior do Nordeste. Diz que está limpo, sente-se bem depois de quatro meses sem drogas, e lamenta o inferno vivido no crack ao lembrar que só conseguiu parar quando viu a mãe dentro de um carro de polícia.
Etelvi Nascimento Silva nunca esteve em São Paulo, a metrópole que convive com o crack ao ar livre. Da cracolândia, só ouviu falar. Etelvi fumou a primeira pedra de cocaína no sertão pernambucano, em Floresta, cidade de 30 mil habitantes, a 430 km do Recife, onde nasceu.
Hoje, embora o governo federal ainda pesquise o tamanho do estrago do crack no fundão do País - via Fiocruz -, na sertaneja Floresta de Etelvi e nas vizinhas Petrolândia (32 mil habitantes), Belém do São Francisco (20 mil) e Itacuruba (10 mil), a droga avança. E essa região dentro do "polígono da seca" está prestes a trocar a alcunha de "polígono da maconha" por "polígono do crack".
Rota. "O crack hoje faz parte do cotidiano do sertão", afirma o capitão Marcondes Ferraz, da PM pernambucana, um dos chefes do combate ao tráfico de drogas na região de Petrolina (cerca de 300 mil habitantes). O militar explica que o 5.º Batalhão de Petrolina, no qual chefia uma companhia, é hoje o segundo no ranking das apreensões de drogas no Estado. Perde somente para a delegacia especializada da área (Denarc), do Recife. Petrolina está às margens do Rio São Francisco, ao lado da baiana Juazeiro (200 mil habitantes). É uma próspera região agrícola.
As duas cidades ficam à beira da BR-407, que liga Sul-Sudeste à BR-116, os Estados de Piauí e Maranhão pela BR-316, e o Ceará pela BR-020. Esse conjunto de estradas forma a malha rodoviária que funciona como rota de tráfico para a cocaína que passa pelos centros distribuidores, como São Paulo.
Sob a jurisdição do capitão Marcondes estão ainda Dormentes (16 mil habitantes) e Afrânio (18 mil habitantes), nas quais também há registros da presença do crack. "E onde há drogas, há armas", acrescenta o policial. Nas operações antidrogas do primeiro semestre, o 5.º Batalhão apreendeu 112 armas curtas, 102 longas e 61 brancas (faca).
Um investigador de polícia, que trabalha em área ainda mais isolada, em pleno "polígono da maconha", onde fica o município de Floresta, diz que o uso do crack nas comunidades pequenas não ocorre como em São Paulo, onde os dependentes vagam em turmas, consumindo a droga nas ruas. Na cracolândia do sertão, a cocaína em pedacinhos se espalhou pelos pontos de venda, as "bocas de fumo", e, como os saquinhos de pó, é consumida dentro de casa.
Entreposto. O policial conta que encontrou em Floresta, a cidade de Etelvi, uma pedra de 120 gramas de crack enterrada em um quintal. "Eles desenterram, quebram para vender os pedaços, depois voltam a enterrar o que sobra dentro de sacos plásticos", explicou o investigador. "Se não houver uma ação mais efetiva e rápida do Estado, logo vamos ver por aqui o que ocorre em São Paulo".
Conferindo as planilhas da PF, ele conta: nos últimos 12 meses foram apreendidos 47 kg de cocaína, 1.081 de maconha pronta para consumo, 281 mil mudas da planta, mais de 8 kg de sementes e 606 gramas de crack. "O que é registrado como crack, é pedra de cocaína. Mas pode haver também a pedra registrada só como cocaína", diz ele, que defende normatização para os registros.
O delegado, no entanto, se diz otimista com os resultados da presença da PF na caatinga. "Apreendemos dias atrás um carregamento de 100 quilos de maconha que vinha do Paraguai dentro da armação metálica da carroceria de um carro", contou. "É sinal de sucesso das operações de erradicação das plantações, que repetimos a cada três meses".
No Instituto de Criminalística de Salgueiro, a perita Yeda Sá Araújo passa boa parte do tempo analisando amostras de drogas. Foram 356 exames de comprovação química neste ano. Os laudos se acumulam na pequena e abafada sala. "Aqui aparece de tudo. Maconha, cocaína e crack, e muito armamento".
Para além do constante trabalho da polícia, a chaga do vício rápido da pedra no interior nordestino pode ser constatada na observação da clínica de recuperação existente em Juazeiro. Ali já supera as internações por alcoolismo. De acordo com o presidente da Comunidade Evangélica para Recuperação de Viciados (Ceprev), Robson Vieira Pereira, 70% dos internos na instituição estão em tratamento da dependência do crack. São os colegas de Etelvi, gente até de outros Estados que chega a Juazeiro em busca de uma saída da pedra.
Na semana passada, sob temperatura de 38°C, às 14h, um grupo de homens se reunia à sombra de uma construção sem paredes. Ouviam uma palestra pontuada de pregações de fé religiosa contra as drogas e em defesa da vida. "Os dependentes do crack recorrem ao Ceprev em maior quantidade", diz Ferreira, ressaltando que "é a velocidade do vício e o efeito danoso da droga na saúde dos usuários e de suas famílias que os levam a buscar ajuda rapidamente".
Vício e roubo. Assim ocorreu com Eté, o rapaz de Floresta, assim chamado pelas irmãs e pela mãe. "Aqui já se pode ver eles fumando na rua (sic)", conta Olindina Maria da Silva, mãe de Etelvi, em entrevista na casa da família, em um bairro simples, na semana passada. Lembrando dos dias difíceis que passou, Olindina diz que lutou para tirá-lo do mau caminho. "Ele aqui vivia, dava uma volta e de repente chegava doido da cabeça. Então, quer dizer, não ia buscar em Belém, Petrolândia. Era aqui na cidade mesmo que encontrava".
Foi no dia em que ela estava no carro da polícia, com o filho preso por roubar um celular para pagar a droga, que os dois tiveram um diálogo duro para ambos. "Ele me disse: "Mãe, me ajude. Não sou eu, mãe; me ajude"", recorda Olindina, emocionada, ao lado de uma filha e de netos, na varanda da pequena casa.
"Ele começou na cachaça e na maconha", recorda Olindina. Há uns quatro anos, entrou no crack. "Eu disse a ele: "Ô, meu filho, eu já passei por tanta coisa. Vou passar por essa agora, meu filho?"" O rapaz, então, respondeu: "Mãe, tenha fé em Jesus. O que a senhora passou, não passa mais. Deus é mais".
Firme diante de mais uma promessa do filho de largar a pedra, Olindina batalhou os R$ 300 necessários para o pagamento da taxa mensal de internação no Ceprev, para onde Eté foi mandado. Ela afirma que acredita na recuperação do rapaz. Mas não quer o filho de volta a Floresta tão cedo. Teme por ele. "A gente só não pode dizer a casa, ou é ali que vende, ou acolá. Ninguém é doido de entregar ninguém. Porque o senhor sabe: entregou agora, mais tarde já tá é lá duro, enterrado. É desse jeito".
ESTADÃO

luishipolito@outlook.com

Carregando...