domingo, 2 de outubro de 2011

Milhares marcham em Portugal contra plano de austeridade


Dezenas de milhares de pessoas marcharam em Lisboa e no Porto neste sábado para protestar contra medidas de austeridade impostas sob os termos de um pacote de resgate do FMI (Fundo Monetário Internacional) e da União Europeia.

São os primeiros protestos de peso desde que um governo de centro-direita assumiu o poder em Portugal, em junho.

O maior sindicato, o CGTP, que organizou as manifestações, pediu por mais protestos e uma ação trabalhista na semana de 20 a 27 de outubro "contra a pobreza e a injustiça e contra a agressão do Fundo Monetário Internacional".

O líder do CGTP, Manuel Carvalho da Silva, disse que 130 mil pessoas participaram da marcha em Lisboa, onde os manifestantes lotaram a Avenida Liberdade. A polícia não quis dar uma estimativa do tamanho da multidão.

O imposto sobre as contas de energia e gás aumentou para 23% no sábado, ante 6%, para ajudar a conter o déficit orçamentário.

Portugal tenta evitar o destino da Grécia, onde uma crise da dívida deixou o país à beira da bancarrota.

Ao contrário da Grécia e de outros países europeus que vêm sendo cenários de protestos violentos contra medidas de austeridade, as manifestações em Portugal costumam ser pacíficas, e a de hoje não foi exceção.

Da Silva não chegou a pedir uma greve geral como a que o país testemunhou em novembro passado.


MAIS IMPOSTOS

Sob os termos do pacote de resgate de 78 bilhões de euros (US$ 104 bilhões), Portugal precisa aumentar os impostos, cortar os gastos, aplicar reformas estruturais, principalmente no mercado de trabalho, e privatizar propriedades estatais para reduzir o déficit orçamentário.

Estima-se que as medidas provocarão uma recessão profunda neste e no próximo ano, e um aumento no desemprego do atual nível de mais de 12%, que já é o maior em três décadas.

"Quando analisamos os primeiros 100 dias do novo governo, é uma desgraça. A direita e a extrema direita não têm solução para os problemas do país, nenhum desenvolvimento econômico", disse Carvalho da Silva aos manifestantes.

"Quando eles atacam nossos direitos, quando a pobreza e a injustiça estão crescendo, então nossa luta tem que ser generalizada, tem que ser a luta de todos".

A coalizão do governo de centro-direita assumiu em junho, apoiada por uma sólida maioria parlamentar depois do colapso da administração socialista. O novo governo prometeu atender a qualquer custo as metas impostas para o déficit de orçamento do pacote.

Os sindicatos reagiram à tentativa inicial de austeridade no ano passado com uma greve geral, mas desde então recorreram a greves setoriais menores.

Analistas dizem que os conflitos sociais podem se intensificar a medida em que os impostos mais altos surgirem e conforme avançam as privatizações em empresas como a operadora de energia REN e a companhia aérea TAP.

FOLHA

Francesa sequestrada no Quênia foi levada à Somália, dizem autoridades


Os somalis que sequestraram no sábado uma turista francesa de 66 anos em um resort de luxo no Quênia a levaram à Somália, disseram autoridades quenianas neste domingo, enquanto as buscas policiais na fronteira entre os países continuavam.

"Ela está na Somália, posso confirmar isso", disse Stephen Ikua, chefe da administração do arquipélago Lamu, onde estava a turista Marie Dedieu.

A mulher foi sequestrada na madrugada deste sábado num resort no litoral do país. A francesa, uma idosa que usa cadeira de rodas para se locomover, foi atacada por pelo menos dez homens armados, que a levaram de seu bangalô para um pequeno barco.

O queniano Ole Moiyio, que estava com Marie Manrd no momento do sequestro, foi golpeado pelos piratas para evitar que resistisse à ação. "Imploramos para não levá-la, dissemos que daríamos dinheiro, mas se negaram [a aceitá-lo]" disse.

Ikua afirmou que há suspeitas de que os sequestradores sejam membros da milícia que controla parte da Somália Al Shebab, supostamente ligada à rede terrorista Al Qaeda. Os shebabs detêm também uma agenda dos serviços de inteligência do governo francês.

Há menos de um mês, uma britânica foi sequestrada na mesma região e teve o marido assassinado enquanto estavam em um hotel de luxo localizado a 50 km da ilha de Lamu.

FOLHA

Cameron defende permanência do Reino Unido na União Europeia


O primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron, afirmou neste domingo que o Reino Unido deve continuar fazendo parte da UE (União Europa) e que a "prioridade urgente" de seu governo é solucionar a crise da zona do euro e revitalizar as economias continentais.

Em declarações à emissora "BBC" concedidas no início do congresso do Partido Conservador, iniciado neste domingo e realizado em Manchester (norte da Inglaterra) durante cinco dias, Cameron declarou ser contrário à saída do país da UE.

"Não acreditamos que deva haver um plebiscito sobre a permanência ou não do país. Não quero que o Reino Unido abandone a UE. Penso que é a resposta errada para o Reino Unido", disse.

As observações do primeiro-ministro respondem a um momento no qual aumenta entre os deputados a necessidade de debater a atual posição britânica na Europa diante da crise da dívida.

"O que a maioria dos cidadãos quer neste país não é deixar a União Europeia, mas reformá-la para garantir que o equilíbrio de poderes entre um país como o Reino Unido e a Europa é melhor", afirmou.

Cameron ressaltou que a "prioridade urgente" é resolver a situação da zona do euro. "A prioridade do governo atualmente é solucionar os problemas na zona do euro, fazer com que as economias europeias voltem a crescer".

Para isso, considerou necessário "adotar medidas nas próximas semanas para reforçar os bancos europeus e construir as defesas que a zona do euro necessita". "Precisamos desse mercado único. Somos um país de comércio e é vital para nosso futuro econômico".

Está previsto que a comissão parlamentar de negócios da Câmara dos Comuns acerte uma data antes do Natal para desenvolver um debate sobre a realização de um plebiscito sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia.

EFE/FOLHA

'Made in China' causa rebuliço na internet


A combinação de preços baixos e variedade dos bens "Made in China", maior parceiro comercial do Brasil, transformou a importação direta da Ásia em um grande negócio na internet, em geral sem pagamento de impostos, informa reportagem de Maeli Prado para a Folha.

Sites como o Compre da China, MP Tudo e MPWay, entre outros, trazem produtos por até um décimo dos preços cobrados pelos celulares originais da Apple ou pelas camisas de futebol fabricadas pela Nike.

Os preços normalmente não incluem as taxas alfandegárias, e essas páginas avisam o consumidor, quase sempre em letras miúdas, que o dinheiro não será reembolsado caso o produto seja barrado pela Receita Federal.

Atualmente, a regra para importações é que mercadorias de até US$ 50 são isentas de imposto, desde que o remetente e o destinatário sejam pessoas físicas.

Acima desse valor, ou se remetente e destinatário forem empresas, é aplicada a alíquota de 60% sobre o valor do bem mais o valor do frete.

Especialistas advertem que os valores reduzidos e a variedade de produtos escondem uma armadilha. Hoje, há milhares de relatos, em sites de defesa do consumidor, de clientes que nunca receberam encomendas já pagas. Ou que receberam eletroeletrônicos que não funcionam.

"O consumidor precisa estar atento quando compra mercadorias oriundas de outros países, principalmente quando não está claro qual é a empresa importadora", afirma Paulo Roberto Binicheski, da 2ª Promotoria de Justiça de Defesa do Consumidor do Ministério Público do Distrito Federal.

Advogados de sites de vendas afirmam que as queixas são uma parcela pequena das vendas.

FOLHA

Dilma recua e muda concessão de rodovia


O governo federal modificou o modelo de privatização de rodovias executado pela presidente Dilma Rousseff quando ela era ministra da Casa Civil, em 2007, informa reportagem de José Ernesto Credendio, Dimmi Amora e Renato Machado para a Folha.

A então ministra conduziu a privatização de sete lotes de estradas --a chamada 2ª fase da desestatização.

O modelo Dilma, explorado fartamente na campanha eleitoral de 2010, conseguiu obter contratos com baixos preços de pedágio e cronogramas curtos na entrega de grandes obras.

Mas a fórmula não deu certo e resultou em sucessivos atrasos nas obras obrigatórias, protestos de usuários e ações do Ministério Público Federal contra a demora na melhoria das estradas.

A mudança veio neste mês, quando a ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) lançou a concessão dos 475,9 km da BR-101 que cortam o Espírito Santo.

Ao contrário dos editais anteriores, o da BR-101/ES elimina grandes obras nos primeiros anos de concessão. A concessionária terá até 23 anos para entregar a duplicação de 418 km da estrada.

Até 2022, precisam ficar prontos somente 207 km de duplicação. Um trecho de 35 km só precisa estar concluído por volta de 2035.

FOLHA

Dinheiro mal gerido


Ao reconhecer que a área de saúde enfrenta um "problema sério de gestão", a presidente Dilma Rousseff apontou para uma das mais graves deficiências da administração pública brasileira, sobretudo a federal, e que não se restringe ao setor por ela mencionado. No caso do governo federal, a má qualidade de gestão se estende a praticamente todas as áreas, e uma de suas consequências mais visíveis e danosas para o contribuinte e para os cidadãos em geral é o atraso crônico dos programas de investimentos em melhoria e expansão dos serviços públicos. A sociedade paga impostos escorchantes, mas a contrapartida do governo, que é a oferta de serviços, vem com muita lentidão, quando vem, e com qualidade inferior à esperada.
Referindo-se especificamente à saúde, Dilma não se queixou da falta de dinheiro. "A gente tem recursos e o uso desses recursos tem de ser melhorado", disse a presidente à TV Record. "Nós vamos melhorar a gestão da saúde nesse país e, quando ficar claro para a população que ela precisa de mais coisa, ela mesma vai se encarregar de pedir", prometeu, fazendo referência indireta à recriação de um imposto específico para a área de saúde. "Temos de provar, o governo federal, estaduais, municipais, que podemos gerir bem a saúde e, a partir daí, começar a conversar claro com a população".
Se isso for feito, será possível constatar que, se bem aplicados, os recursos públicos atuais são mais do que suficientes para melhorar os serviços de saúde, sem cortar investimentos em outras áreas e sem a necessidade de um novo imposto.
Dinheiro existe, mas os investimentos em outras áreas não estão sendo feitos na velocidade necessária, pois, por problemas de gestão, os projetos demoram para sair do papel. Apontado há meses por instituições não governamentais e pela imprensa, o atraso na execução dos programas de investimentos começa a preocupar o próprio governo, como mostrou o Estado (29/9).
Característica do governo Lula, a dificuldade de gastar está se transformando em marca da administração petista, pois também o governo Dilma vem executando muito lentamente seus programas de investimentos. O ritmo é tão lento que até o secretário do Tesouro, Arno Augustin, teve de admitir isso em recente entrevista ao Estado.
O problema mais notório é o do Ministério dos Transportes, o mais afetado pela "faxina" nas áreas atingidas por denúncias de irregularidades. Essa é a pasta responsável pelo maior volume de investimentos federais, e a troca do ministro e da diretoria do Dnit paralisou muitas obras.
Mas Ministérios não alcançados pela "faxina" também apresentam resultados apenas sofríveis quanto à aplicação das verbas destinadas a investimentos. Embora atingido em março pelo corte de R$ 5,1 bilhões de sua dotação original de R$ 12,6 bilhões para este ano, o programa Minha Casa, Minha Vida ainda dispõe de um volume expressivo de dinheiro. Mas praticamente nada saiu do papel em 2011, por causa de entraves legais. Do ponto de vista contábil, o programa já pagou cerca de R$ 4 bilhões em 2011, mas são recursos incluídos na conta "restos a pagar", de compromissos assumidos em exercícios anteriores. Obras novas quase não há.
O Minha Casa, Minha Vida é parte do novo Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC 2, e resume a execução desse programa no governo Dilma. Embora o atual governo tenha desembolsado R$ 16,7 bilhões para o PAC, mais de 80% desse valor se refere a compromissos herdados do governo anterior.
Há sérios atrasos nas obras da Copa do Mundo - que, no que se refere aos estádios, recebem a atenção dos dirigentes do futebol. Mas as obras de mobilidade urbana, que serão o principal legado da Copa para o brasileiro comum, só receberam 1,1% dos investimentos previstos.
Ainda que tardio, pois surge nove meses depois do início de seu governo, o reconhecimento do problema pela presidente Dilma Rousseff é um passo essencial para buscar soluções. O País espera, de fato, que o governo seja capaz de realizar os investimentos que programou, no ritmo que programou.
ESTADÃO

Incertezas

Fernando Henrique Cardoso - Sociólogo, foi Presidente da República


Para quem já sofreu as consequências de várias crises financeiras internacionais, não chega a ser surpreendente o que acontece nos países mais desenvolvidos da Europa, contagiados pela crise financeira que tem origem nos menos desenvolvidos da região.
No passado recente, bancos centrais e ministros de finanças dos primeiros procuravam mostrar que não havia como equiparar a situação de seu país com a tragédia que ocorrera noutro. As situações fiscais não seriam as mesmas, a proporção da dívida com relação ao PIB não era tão grande assim, num caso a dívida interna estava nas mãos de agentes financeiros internacionais e se denominavam em dólares, noutros, ao contrário, eram os poupadores nacionais que emprestavam aos governos locais em moeda do país, etc. Mas, quase sempre, havia uma variável crítica: o mutável estado de confiança dos agentes do mercado financeiro internacional. Quando se instalava a desconfiança quanto à solidez das contas fiscais e/ou externas de um determinado grupo de países de alguma maneira correlacionados, os argumentos sobre as diferenças perdiam força. E viravam pó se surgisse o fantasma do default - da moratória, como se dizia.
O receituário do FMI tampouco era atento às diferenças. Exigia sempre mais do mesmo, às vezes não sem alguma razão: ajuste fiscal, reforma patrimonial do Estado, etc. Mas fazia ouvidos moucos à demanda por maior regulação do mercado financeiro internacional. Era o que pedíamos à comunidade internacional os que dirigimos os países naquela época de aflições.
Reclamávamos maior regulação internacional para conter a especulação contra as moedas nacionais, ou seja, a criação de fundos de socorro maiores e de mais fácil acesso, o fortalecimento da base financeira do FMI e o aperfeiçoamento de suas práticas. Era preciso maior rapidez no atendimento aos países com crise de liquidez e menos "condicionalidades", ou seja, as imposições restritivas à política econômica e fiscal dos países devedores, pois se o ajuste fiscal passasse de certo ponto impediria a retomada de crescimento econômico. Para financiar os novos fundos alguns de nós relançamos a ideia de uma Taxa Tobin, apesar dos reclamos contínuos dos especialistas quanto aos efeitos desse tipo de imposto.
Alguns países emergentes tiveram melhores condições para negociar com o FMI, como foi o caso do Brasil, que havia realizado o Plano Real por sua conta e risco, sem o aval do Fundo. Com o Plano Real modificamos drasticamente as bases da política fiscal, saneando as finanças da União e as dos Estados, impusemos regras severas ao sistema financeiro, seguindo as recomendações de Basileia para controlar a "alavancagem", isto é, os empréstimos sem uma base adequada de capital próprio nos bancos. Ao mesmo tempo não descuidamos de, ao privatizar, ampliar a concorrência e manter ativos os instrumentos públicos de crédito no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e no Banco do Brasil, tornando-os aptos a reestruturar empresas nacionais ou localizadas no País. Ao lado disso, desde 1994 até hoje os diferentes governos sustentaram um aumento constante do salário mínimo real e, a partir de 2000, foi possível criar uma rede de proteção social, da qual as Bolsas Família, iniciadas com nomes diferentes, se tornaram símbolo de inclusão social, diminuindo a pobreza e reduzindo um pouco as desigualdades.
Pela primeira vez os países mais desenvolvidos sentem as consequências da falta de regulação do sistema financeiro. Olhando agora o que ocorre na economia global, deparamo-nos com uma situação incerta. A regulação financeira proposta nas reuniões do G-20 encontra dificuldades para se efetivar, dada a diversidade de interesses nacionais. Cada banco central opera como melhor lhe parece. O Fed inunda os EUA e o mundo com dólares e faz operações típicas de bancos comerciais sem se preocupar com a ortodoxia. Os responsáveis pelos desmandos financeiros não são punidos, recebem bônus (ao contrário do que ocorreu com o programa brasileiro de saneamento do sistema financeiro, que puniu os banqueiros) e o desemprego não cede porque não há consumo nem investimento. O Banco Central Europeu e o FMI exigem dos países em bancarrota virtual sacrifícios fiscais que impossibilitam a retomada do crescimento e, portanto, a volta à normalidade. As taxas de juros mantêm-se próximas de zero, sem previsão de mudança, e as economias não reagem. Na Europa cada país faz a política fiscal que deseja, não há mecanismos de unificação. O desemprego e o mal-estar político minam esses países e a ameaça de default é sua parceira constante.
Desse quadro escapam as economias emergentes, China à frente de todas. Até quando? É óbvio que uma recessão prolongada ou uma grande contração, como diz Kenneth Rogoff, transmitirá às economias emergentes seus maus fluidos pelo conduto do comércio internacional. É preciso, antes que isso ocorra e o desastre seja maior, que haja um entendimento global. Este deveria partir do reconhecimento de que as dívidas de alguns dos países europeus são impagáveis. Com o nome de reestruturação ou outro qualquer, à la Brady, é preciso aliviar já a situação da Grécia, de Portugal e, eventualmente, da Espanha e da Itália. Suas dívidas internas e externas e a penúria de seus bancos cheios de títulos de qualidade desconhecida não lhes dão alternativas de retomada do crescimento sem uma redução substancial dos valores de seus passivos.
Não haverá condições político-morais para proceder a tais reestruturações sem, ao mesmo tempo, distribuir melhor o custo da "socialização das perdas". O grito de Warren Buffet, seguido por milionários de outros países, mostra o descalabro do Tea Party ao querer impor mais ônus aos mais pobres, com responsabilidade zero na crise. Por fim, ou o euro se derrete pela falta de unificação fiscal, ou esta se faz, ou a União Europeia se encolhe, autorizando alguns de seus membros a desvalorizar e usar outra vez uma moeda nacional.
Nada disso pode ser feito sem lideranças políticas fortes, dispostas a redistribuir o poder global e reorganizar suas bases decisórias. Terão força para tanto? Eis o enigma.
ESTADÃO

‘PSDB precisa assumir-se como partido de centro-direita’, diz pesquisadora de Harvard


No momento em que o senador Aloysio Nunes Ferreira (SP) expõe publicamente, via Twitter, a carência de um rumo claro para o seu PSDB, a professora americana Frances Hagopian, uma estudiosa dos partidos brasileiros, se arrisca a oferecer um norte aos tucanos: ocupar o espaço da centro-direita no espectro ideológico.
Hagopian não está sozinha. "Ela disse a verdade", endossou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ao ser informado pelo Estado da entrevista concedida pela americana.
"Acredito que eles (os tucanos) podem se destacar nesse espaço de centro-direita, se tiverem coragem para fazer isso", afirma a professora da Universidade Harvard. "Precisam mostrar o que fizeram, ser fiéis a si mesmos", completa ela, referindo-se às transformações capitaneadas pelo PSDB na gestão FHC (1995-2002)
A receita, no entanto, não é nova, avisa ela. "Na Inglaterra, Tony Blair levou os trabalhistas para o centro e deixou os conservadores sem chão. No Chile, a Concertación criou uma ampla agenda que confundiu os partidos".
Em São Paulo, onde participou com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso de um debate no Centro Ruth Cardoso, ela falou ao Estado semana passada: "Por toda parte há muita insatisfação com a política, mas isso é parte do jogo. As coisas ficaram assim por causa da rapidez da globalização. Não temos um governo mundial, mas temos uma economia mundial, em que as soluções nacionais são lentas e ineficazes".
Há uma grande insatisfação, no Brasil, com os partidos e os políticos. O governo tem uma aliança de 14 partidos, manda demais, domina o Legislativo...
É a mesma queixa que se faz no Chile, em países da Europa, até nos Estados Unidos. Lá a Casa Branca envia uma reforma da saúde, ou leis para o meio ambiente, e elas ficam 18 meses, até mais, encalhadas. Isso de fato complica a democracia, pois os governos acabam não dando respostas a questões urgentes da sociedade. Mas acho que, no geral, a democracia amadureceu por aqui, está melhor do que há 20 anos. Os partidos, pelo menos os grandes, se fortaleceram. Refiro-me a dois ou três, os âncoras, com grandes bancadas e com presidenciáveis.
ESTADÃO

Arrecadação cresce e deve levar carga tributária a recorde de 36,5% do PIB


A carga tributária - relação entre arrecadação de impostos e a produção econômica - deve fechar o ano em 36,5% do Produto Interno Bruto (PIB), calculam os economistas José Roberto Afonso e Marcia Monteiro Matos no estudo "Termômetro Tributário Brasileiro", concluído esta semana. Trata-se de um recorde. Pela mesma base de cálculos, quando a economia e a arrecadação cresceram muito, a carga ficou em 35,16% em 2010. Em 2009, havia sido de 34,68% do PIB.
O recorde parece contraditório com o atual momento de esfriamento da economia, quando muitas empresas diminuem a produção, os ganhos e a arrecadação de impostos. E vai na contramão do discurso governamental, de cortar impostos para elevar a competitividade das empresas e reduzir a alta carga de tributos que pesa sobre os consumidores.
A alta da carga tributária pode ser explicada em grande parte por um crescimento excepcional dos ganhos de dez segmentos que respondem, este ano, por 72% do aumento da receita de arrecadação federal de impostos. O grupo inclui comércio atacadista e varejista, fabricação de veículos, construção de edifícios e telecomunicações.
No topo da lista, está o setor financeiro (bancos, seguradoras e entidades de previdência privada), que, sozinho, explicou 27,5% do ganho total de receita. O segundo setor que mais contribuiu, o de extração mineral, chegou a recolher na primeira metade deste ano o dobro do que fez no início do ano passado, mostra o levantamento. Juntos, os dez setores cresceram 26%, contra 8% nos demais segmentos.
"Este desempenho tão díspar da arrecadação federal refletiria uma economia dual: um lado cresce em ritmo chinês, outro cresce em padrão latino tradicional", diz o trabalho. Excetuando-se o grupo dos "dez mais", a grande maioria dos contribuintes teve crescimento de receita em torno de metade da expansão geral.
"O que está puxando a carga tributária em 2011 é a receita federal clássica. Mas não é uma coisa homogênea, igualmente distribuída na economia", diz Afonso, especialista em finanças e economista do BNDES. O "termômetro tributário" foi elaborado com base em estatísticas de arrecadação, até agosto, divulgadas pela Receita, pela Previdência e pelo Confaz, e no acompanhamento do PIB pelo Banco Central.
O resultado se aproxima do que está sendo calculado pelo Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT), que aponta para uma relação entre arrecadação e PIB de 36,04%. "Estamos caminhando para um recorde, sem dúvida", diz Gilberto Luiz do Amaral, coordenador de estudos do IBPT.
Ele lembra que, apesar de o peso das pessoas físicas representar apenas 25% do recolhimento de tributos, é sobre o consumidor que recai o maior ônus da carga tributária. "As empresas são arrecadadoras, mas repassam os custos ao consumidor", comenta.
Marca histórica. O IBPT calcula, para a Associação Comercial de São Paulo, o Impostômetro, acompanhamento diário de quanto o brasileiro paga de impostos. Desde meados do mês passado, o valor ultrapassa a marca histórica de R$ 1 trilhão no ano. O instituto utiliza o mesmo princípio do "termômetro tributário", que considera royalties, juros de mora e dívida ativa como tributos.
A diferença de metodologia entre os cálculos oficiais e medições paralelas provocam disparidades. Afonso ressalta que, mais importante do que a dimensão da carga tributária, é a evolução retratada. E esta caminha de forma bem semelhante, qualquer que seja o procedimento adotado.
ESTADÃO

600 mil africanos, asiáticos e latinos ainda lutam para se integrar a São Paulo


Yamamoto, Matarazzo, Murad, Jafet, Fernandes, Simões. São sobrenomes tão arraigados na cultura de São Paulo que se tornaram imprescindíveis na história da cidade, responsáveis por fazer surgir bairros inteiros ao barulho dos teares, das bigornas, das máquinas, das sanfonas noturnas. Apesar de todas as dificuldades - da diferença da língua ao preconceito dos outros moradores -, eles não só tiveram influência no desenvolvimento da região como também ajudaram a moldar a alma do paulistano, a figura que se revela hoje no sotaque, nos traços, nos costumes ou até na pizza de domingo.
Atualmente, quase 129 anos depois do italiano Gaetano Pezzi ter sido o primeiro imigrante cujo desembarque foi registrado em São Paulo, em 17 de janeiro de 1882, são outros sobrenomes que tentam se integrar à metrópole, repetindo a epopeia de italianos, espanhóis, libaneses, japoneses e portugueses que se instalaram por aqui. São os Hong, Kim, Yan, Villar, Ogunme; quase 600 mil imigrantes asiáticos, africanos e latinos que desembarcaram na capital nos últimos 20 anos e ainda lutam para fazer parte de São Paulo.
"A situação hoje repete exatamente o mesmo fenômeno do século 19, quando os imigrantes chegaram pela primeira vez por aqui", diz a professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP Maria Ruth Amaral de Sampaio, que estuda o tema. "Do mesmo jeito que os italianos eram chamados de carcamanos, de ladrões, hoje também há um preconceito com os novos imigrantes, uma falta de integração que ainda não foi superada. Até os coreanos, que estão aqui na terceira geração, casam apenas entre si, o que demonstra ainda essa falta de integração".
Perfil. São Paulo ainda está aprendendo a lidar com uma presença maior desses grupos na cidade. Nas últimas semanas, o Estado conversou com representantes dos três grupos para entender como esses novos imigrantes estão aos poucos mudando a face da metrópole. São chineses que não falam português, mas mesmo assim estão comprando diversas lojas de ferramentas na Rua Florêncio de Abreu, no centro, e apartamentos a partir de R$ 600 mil em bairros como Anália Franco e Tatuapé, na zona leste. Bolivianos já são proprietários de confecções no Brás e Pari. Nigerianos e angolanos, apesar do preconceito com a colônia, ostentam orgulhosamente títulos de médicos, dentistas e farmacêuticos.
Há ainda os pais coreanos que abrem mão de suas economias para colocar os filhos na Escola Polilogos, na Rua Sólon, no Bom Retiro, cujo maior objetivo é aprovar alunos na USP. Ou mesmo jovens coreanos que, com o dinheiro ganho nas lojas de roupas, estão seguindo o exemplo dos imigrantes judeus e se mudando para Higienópolis.
ESTADÃO

luishipolito@outlook.com

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