domingo, 8 de janeiro de 2012

Estiagem afeta 460 mil pessoas no Rio Grande do Sul


Boletim da Defesa Civil do Rio Grande do Sul mostra que subiu de 102 para 106 o número de municípios do Estado que decretaram situação de emergência ou calamidade em decorrência da estiagem que atinge a região. O governo estima que 460 mil pessoas já foram afetadas pelos efeitos da seca.

Além do Rio Grande do Sul, a estiagem atinge também Santa Catarina e o Paraná. A escassez de chuvas já preocupa os governos estaduais e deverá afetar a produção agrícola local. Até o momento, 63 municípios catarinenses decretaram situação de emergência, e a Defesa Civil estima que 407 mil pessoas tenham sido afetadas pelo problema.

No Paraná, nenhuma cidade está oficialmente em estado de emergência, mas a Defesa Civil do Estado contabiliza nove municípios com problemas pela falta de chuvas: Barracão, Bom Jesus do Sul, Capanema, Capitão Leônidas Marques, Nova Esperança do Sudoeste, Pinhal de São Bento, Pranchita, Rio Bonito do Iguaçu e Santo Antônio do Sudoeste. Estima-se que 76 mil moradores desses locais tenham sido afetados pela estiagem.

AGÊNCIA BRASIL/FOLHA

EUA expulsam cônsul geral da Venezuela em Miami


A cônsul da Venezuela em Miami (EUA), Livia Acosta Noguera, foi declarada "persona non grata" pelo governo norte-americano e deverá abandonar o país antes da próxima terça-feira, informou neste domingo um porta-voz do Departamento de Estado.

A embaixada da Venezuela em Washington recebeu a notificação oficial na sexta-feira e a cônsul "deve sair dos Estados Unidos antes do dia 10 de janeiro", disse o porta-voz para a América Latina do Departamento de Estado, William Ostick, que destacou que não pode dar detalhes específicos sobre os motivos da decisão.

"O Departamento de Estado informou à embaixada da República Bolivariana da Venezuela no dia 6 de janeiro que, de acordo com o artigo 23 da Convenção de Relações Consulares de Viena, Livia Acosta Noguera, cônsul geral venezuelana em Miami, foi declarada 'persona non grata'", afirmou Ostick.

Este artigo da Convenção de Viena estipula as condições pelas quais o Estado receptor de pessoal consular pode comunicar "o tempo todo ao Estado que envia que um funcionário consular é 'persona non grata', ou que qualquer outro membro do pessoal já não é aceitável".

O ponto quatro deste artigo indica, além disso, que o Estado receptor "não estará obrigado a expor ao Estado que envia (o funcionário) os motivos de sua decisão".

No último mês de dezembro, a rede de televisão "Univisión" transmitiu o documentário "A ameaça iraniana" sobre um suposto plano em 2006 para atacar os sistemas de várias usinas nucleares nos EUA, além da Casa Branca, do FBI (polícia federal americana) e da CIA (agência de inteligência americana).

Alguns dos entrevistados disseram que as embaixadas de Irã, Cuba e Venezuela também teriam participado.

Após a transmissão do documentário, o presidente da organização de Venezuelanos Perseguidos Políticos no Exílio (Veppex), José Antonio Colina, se pronunciou a favor de investigar a cônsul, que ocupava o cargo desde março de 2001.

Veppex enviou uma carta no último dia 12 de dezembro à Secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, pedindo que retirasse o consentimento a Livia e outro funcionário do consulado, Egard José Alexander Belandria, por supostamente pertencer ao Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (Sebin).

"Não se pode utilizar a imunidade diplomática para conspirar em território estrangeiro contra a segurança do país", disse Colina em entrevista na ocasião, quando considerou que havia um antecedente "importante" porque "no passado ela violou as leis federais ao pedir fotocópia dos documentos migratórios dos venezuelanos".

Os legisladores republicanos da Flórida, Ileana Ros-Lehtinen, Mario Díaz Balart e David Rivera, e o democrata de Nova Jersey, Albio Sires, também solicitaram a Hillary que averiguasse as acusações contra a diplomata venezuelana e, caso fossem comprovadas, pedisse sua saída imediata do país.

"Caso forem comprovadas, estas ações demonstram a disposição de Livia em minar os interesses dos EUA, e a ameaça potencial à nossa segurança nacional que representam suas atividades", disseram em carta remetida a Hillary.

A cônsul protagonizou em julho passado uma polêmica depois que duas mães venezuelanas, uma delas com filhas doentes, denunciaram "discriminação política" do consulado ao impedir que administrassem suas remessas familiares por terem asilo nos EUA.

EFE/FOLHA

Universidade de Dublagem vê número de alunos aumentar em São Paulo


A tal da "versão brasileira, Herbert Richers" faz escola.

De olho na classe C, a TV paga avança sobre um velho conhecido dos canais abertos: o conteúdo dublado.

Esse fenômeno nos leva a uma simpática casa na Vila Madalena, zona oeste de São Paulo. Lá, alunos escutam atentos a um professor - e ele ouve vozes em sua cabeça.

A falação, na verdade, vem de múltiplos personagens dublados por dois irmãos que idealizaram, em 2009, a Universidade de Dublagem.

O vasto arco vocal de Wendel Bezerra, 36, abrasileirou de Bob Esponja a Edward, vampiro-galã de "Crepúsculo". Ulisses Bezerra, 42, já falou por Charlie Brown, o menino de "Snoopy", e Shun, dono da armadura rosa em "Cavaleiros do Zodíaco".

Mas a dupla vem de uma geração mais antiga, na qual as manhas do ofício eram repassadas nas salas de dublagem, do veterano ao novato.

Tempos em que craques como Marcelo Gastaldi (voz de Chaves) "não queriam passar três horas repetindo a mesma cena e ensinavam logo os truques", diz Ulisses.

Essa tradição se perdeu. Agora, a tecnologia permite que dubladores gravem separadamente sua parte. O produto final é montado depois.

Como a passagem de bastão já não acontece, os irmãos Bezerra decidiram criar a escola. Até porque demanda é o que não falta. Os canais de filmes que mais dão audiência são justamente os que aposentaram a legenda, como Telecine Pipoca e TNT.

Pesquisa do Data Popular feita em 2011 mostra que 58% da classe média gosta de filmes estrangeiros e que 76% desses espectadores preferem programas dublados.

Para Ulisses, tem muito "intelectualoide" falando mal da prática. "Você pega Jô Soares, que fala 322 línguas, e ele diz: "Não gosto de dublagem", ironiza.

Ele escuda seu ofício com um argumento curioso. Tome o filme "Advogado do Diabo" como exemplo. "Se você começa a ler legenda, não vê nada do que Al Pacino faz na tela. Perde a atuação dele".

VERSÃO BRASILEIRA

Em São Paulo, são cerca de 200 profissionais, que precisam ter registro de ator e ganham média de R$ 80 por hora - a praxe é ser freelancer.

A Universidade de Dublagem oferece cursos de 50 horas por R$ 2.500. O perfil dos alunos é variado. Tem cantor, estudante, e contador, gente de oito a 80 anos.

Aspirantes como Suzete Piloto, 48, aprendem aquecimento vocal, dicção e sincronia da voz com os movimentos do personagem, sem esquecer da interpretação. Nada fácil, por ser algo bem distinto "de atuar com o corpo", como no teatro, diz ela.

Para Ulisses, é importante aumentar a qualidade de um serviço que, se sucateado, vira alvo fácil de chacota.

O histórico brasileiro é cheio dessas derrapadas. Um exemplo: alheia à histeria dos fãs, a distribuidora de "Amanhecer" decidiu trocar as vozes já consagradas nos outros filmes da saga "Crepúsculo".
Yes, nós temos... dublagem.

FOLHA

"Melancolia" é eleito melhor filme por críticos dos EUA


A Associação de Críticos de Cinema dos Estados Unidos elegeu "Melancolia", de Lars von Trier, o melhor filme do ano.

A protagonista do longa, Kirsten Dunst, também foi eleita melhor atriz. Na categoria ator, ficou em primeiro Brad Pitt, por sua performance no filme "O Homem que Mudou o Jogo" e "Árvore da Vida".

A atriz Jessica Chastain, nome em ascensão em Hollywood, foi considerada a melhor atriz coadjuvante nos filmes "Árvore da Vida", "O Abrigo" e "Histórias Cruzadas". Já Albert Brooks foi o melhor ator coadjuvante por "Drive".

Terrence Malick levou o prêmio de direção por "Árvore da Vida".

Veja abaixo a lista completa.

Ator

1. Brad Pitt ("O Homem que Mudou o Jogo", "Árvore da Vida")
2. Gary Oldman ("O Espião que Sabia Demais")
3. Jean Dujardin ("The Artist")

Atriz

1. Kirsten Dunst ("Melancolia")
2. Yun Jung-hee ("Poetry")
3. Meryl Streep ("A Dama de Ferro")
Ator coadjuvante
1. Albert Brooks ("Drive")
2. Christopher Plummer ("Beginners")
3. Patton Oswalt ("Jovens Adultos")
Atriz coadjuvante
1. Jessica Chastain ("Árvore da Vida", "O Abrigo", "Histórias Cruzadas")
2. Jeannie Berlin ("Margaret")
3. Shailene Woodley ("Os Descendentes")

Filme

1. "Melancolia" (Lars von Trier)
2. "Árvore da Vida" (Terrence Malick)
3. "A Separation" (Asghar Farhadi)

Diretor

1. Terrence Malick ("Árvore da Vida")
2. Martin Scorsese ("A Invenção de Hugo Cabret")
3. Lars von Trier ("Melancolia")

Não-ficção

1. "Cave of Forgotten Dreams" (Werner Herzog)
2. "The Interrupters" (Steve James)
3. "Into the Abyss" (Werner Herzog)

Roteiro

1. "A Separation" (Asghar Farhadi)
2. "O Homem que Mudou o Jogo" (Steven Zaillian, Aaron Sorkin)
3. "Meia-Noite em Paris" (Woody Allen)

Filme estrangeiro

1. "A Separation" (Asghar Farhadi)
2. "Mysteries of Lisbon" (Raoul Ruiz)
3. "O Porto" (Aki Kaurismäki)

Fotografia

1. "Árvore da Vida" (Emmanuel Lubezki)
2. "Melancolia" (Manuel Alberto Claro)
3. "A Invenção de Hugo Cabret" (Robert Richardson)

FOLHA

Corte de orçamento ameaça produção de "Akira"


Os estúdios Warner Bros. estão dando um tempo na produção do filme "Akira".

De acordo com o site "Hollywood Reporter", os escritórios responsáveis pela produção do longa, uma adaptação americanizada do clássico mangá japonês, que estavam localizados em Vancouver, no Canadá, foram fechados. "Todos estão sendo mandados para casa", contou uma fonte ao site.

Os produtores Jennifer Kiloran Davisson e Andrew Lazar vão se reunir com o diretor Jaume Collet-Serra nas próximas duas semanas para conversar e, se os problemas não forem resolvidos, o projeto pode acabar sendo engavetado novamente.

Collet-Serra já havia diminuído pela metade o orçamento do filme, que antes seria dirigido por Albert Hughes. Agora, ele estava trabalhando com um orçamento de US$ 90 milhões.

No entanto, o estúdio acha que o orçamento é muito alto para o projeto, e que, portanto, deveria ser diminuído para US$ 60 ou US$ 70 milhões.

FOLHA

Sucesso como Crô, Marcelo Serrado é contra beijo gay em novela


O ator Marcelo Serrado, sucesso em "Fina Estampa" como o personagem Crô, diz ser contra beijo gay em novela.

"Isso é algo que tem que ir quebrando aos poucos. Não quero que minha filha [Catarina, 7] esteja em casa vendo beijo gay às nove da noite [na TV]. Que passe às 23h30." Diz, no entanto, que é a favor da união estável entre pessoas do mesmo sexo. "Isso é fundamental. Acho um absurdo quando vejo cenas de homofobia".

Para Serrado, o sucesso do personagem se deve muito ao fato de não levantar bandeiras --característica que o ator, como telespectador, acha "chato" de assistir nas tramas. "Ele é um gay solar. É um folhetim", diz.

FOLHA

Fabricantes de automóveis preparam lançamentos 2012/2013



Carretas abarrotadas do novo Peugeot 308 cruzaram o país na semana passada. Em São José dos Campos (97 km a nordeste de São Paulo), a Chevrolet acelera a produção da picape Colorado, sucessora da S-10, que chega às lojas no próximo mês. A Ford apresentou o novo EcoSport.



Este ano mal começou e os fabricantes já estão em 2013. A fartura confirma o bom momento do setor. Se as previsões apuradas pela Folha se confirmarem, um novo modelo (ou versão) será lançado a cada três dias, em média. Serão mais de cem novidades ao longo de 2012.

A primeira entre as nacionais foi revelada na quarta-feira passada: o novo EcoSport. A Ford do Brasil relutou, mas teve de aceitar o cronograma de apresentação do carro proposto pela matriz.

Ele foi exibido simultaneamente em Brasília e no Salão de Nova Déli, Índia, mas as vendas só devem começar entre maio e junho, com chance de antecipação para abril.

A fábrica de Camaçari (BA) já reduziu em 30% a produção do EcoSport atual. Nas lojas, o jipinho é comercializado com bônus da montadora. Enquanto isso, o Renault Duster abre vantagem na primeira colocação do segmento.

Mas o novo EcoSport promete. Terá botão de partida que dispensa a chave no contato, acabamento caprichado (ponto fraco do atual) e motores atualizados -1.6 Sigma, 2.0 Duratec e uma terceira opção, mantida em segredo.

O desenho ficou moderno e agradável, com vincos que lembram músculos, linha de cintura elevada e janelas estreitas. A grade se configurou um tanto exagerada, mas condizente com a proposta. É o primeiro Ford nacional a seguir o estilo Kinetic 2, nova linguagem visual da marca.



Por falar em beleza, a Citroën prepara o lançamento do DS3, seu hatch compacto esportivo que vai brigar com BMW Mini e Audi A1.

O novo francês chegará às lojas até o fim do primeiro semestre. A marca prepara também a nova geração do C3. Em desenvolvimento, a versão brasileira deverá estar no salão de São Paulo, em outubro.

Há muito mais a caminho. O Chery S-18 1.3, primeiro chinês "flex", chegará às lojas nesta semana, a R$ 31.990. Até março, o novo Fiat Siena fará sua estreia.


Entre os fabricantes nacionais, destaque para a Chevrolet. Além da picape Colorado, a marca prepara outros lançamentos de peso, como o Sonic (previsto para maio), o Cruze hatch (abril), o Cobalt 1.8 automático (segundo trimestre), a nova Blazer (fim do ano) e os projetos PM5 e PM7 (Meriva e Zafira), cuja data de apresentação não foi revelada.



A GM também promete lançar o novo Malibu. O carro brigará com a segunda geração do Ford Fusion, que será apresentada nesta semana no Salão de Detroit e chegará ao Brasil no segundo semestre.

FOLHA

Crise corta cem mil no setor financeiro e ameaça emergentes


Crise nos mercados é sempre seguida de demissões. Dessa vez, o encolhimento deverá custar pelo menos cem mil vagas nos bancos e corretoras globais, podendo respingar em países distantes do epicentro da turbulência, como o Brasil.

Os grandes bancos anunciaram, desde o início de 2011, que terão de demitir 91 mil no mundo. Mas os números devem ser maiores.

Só nos EUA, foram cortados 56.191 de janeiro a novembro - 162% mais que em 2010, segundo a consultoria Challenger, Gray & Christmas. O setor financeiro foi o segundo que mais demitiu, atrás só do governamental.

No Brasil, as filiais de bancos estrangeiros terão de demitir se tiverem de reduzir (ou se desfazer de) áreas de negócios para se enquadrarem às exigências regulatórias.

Para Luis Santacreu, analista da Austin Ratings, as mais ameaçadas até agora são as corretoras brasileiras por conta da crise na Bolsa.

A corretora britânica Icap demitiu em outubro 56 dos 200 funcionários no Brasil. Os britânicos previam "pagar" em dois anos e meio os investimentos feitos para entrar no país, mas a crise atrasou o cronograma e implicou um "redimensionamento".

Segundo o sindicato dos bancários, o Itaú cortou 4.000 no final do ano.

 "Os cortes não têm nada a ver com a crise, mas com a fusão com o Unibanco", disse Daniel Reis, diretor do sindicato e funcionário do Itaú.

O Itaú não confirma as 4.000 demissões, mas admite que fez ajustes devido a uma remodelagem de negócios. Diz ainda que reaproveitou 2.000 funcionários.

"Em 2008, os cortes foram rápidos. Depois, a situação melhorou e tiveram de recontratar. Demitir, contratar e treinar têm custo. Houve um aprendizado", diz Santacreu.

O HSBC cortará 30 mil, mas diz que o país será poupado por ser estratégico. O banco tem 9% do fluxo financeiro entre o Brasil e a China.
O Goldman Sachs quer fortalecer a unidade brasileira, que contava com 30 pessoas em 2007 e tem 300 hoje.

O Citi, que pode afastar até 4.500 pessoas, também quer reforçar a operação no país.

O francês BNP Paribas diz que o Brasil faz parte do esforço para sua reestruturação global, já concluída e que envolveu demissões. A previsão é de 1.400 cortes no mundo.

Na França, o Société negocia as demissões com os sindicatos. No Brasil a estrutura é pequena, mas todas as contratações foram suspensas.

FOLHA

Henry Engler, o ex-guerrilheiro uruguaio que revolucionou a pesquisa de Alzheimer


Para demarcar os limites de sua imaginação, Henry Engler traça um círculo que abriga e controla seus pensamentos.

Foi assim na prisão, onde ele desenvolveu a técnica intuitivamente, para tentar manter-se são; na vida cotidiana, como na recente briga de trânsito em que terminou agredido; e no trabalho de pesquisa médica, que o fez chegar perto do Prêmio Nobel de Medicina, por desenvolver um dos estudos mais importantes em sua área nos últimos cem anos.

Ex-preso político da ditadura uruguaia por 13 anos, 11 dos quais numa solitária, sofrendo alucinações e diagnosticado com psicose delirante crônica, Engler apresentou em 2002, na Conferência Mundial sobre o Alzheimer, em Estocolmo, um trabalho que revolucionou os estudos do cérebro.

Ele detectou, pela primeira vez, a proteína amiloide, associada ao Alzheimer, em um homem vivo, passo mais importante no estudo da doença desde que o psiquiatra alemão Alois Alzheimer (1864-1915) detectou o mal, em 1906, na cabeça de um morto.

"Claro que houve influência da prisão na minha investigação, ela me deu disciplina e muita paciência", disse Engler à Folha em sua sala de diretor do Cudim (Centro Uruguaio de Imagenologia Molecular), criado por ele em Montevidéu em 2008. "Para o pesquisador, o mais importante não é a inteligência, mas sim a paciência, em primeiro lugar, e depois a intuição. Tanto na prisão como na minha pesquisa, tomei um caminho intuitivo".

PRISÃO

Ex-dirigente Tupamaro, a maior organização da esquerda armada do Uruguai entre os anos 1960 e 70, Engler foi um dos nove reféns da ditadura instaurada em 1973. Os militares prenderam nove dirigentes e ameaçaram executá-los caso a organização retomasse as ações armadas. Além de Engler, o atual presidente uruguaio, José Pepe Mujica, e o líder e fundador dos Tupamaros, Raúl Sendic, estavam no grupo.

Nascido em Paisandú em 1946, Engler era estudante de medicina e um dos dirigentes da organização. Participou de ações armadas e foi acusado pelos militares de ser um dos co-autores do assassinato de Dan Anthony Mitrione, agente da CIA executado no Uruguai em 1970. Ele nega.

Foi preso em 1972, aos 24 anos. No ano seguinte, acabou trancafiado em uma solitária onde viveria os próximos 11 anos.

"Tinha muito problema com as vozes. Nunca vi coisas inexistentes, mas eu tinha uma toalha que se transformava em tapete mágico, cheia de sinais", conta. "Era insuportável ouvir as vozes, era muito agressivo, sentia fisicamente choques elétricos que paravam meu coração, que me seguiam torturando. Sofri isso durante anos".

Uma das piores alucinações foi a constatação de que a CIA tinha instalado um dispositivo em seu cérebro. Ao pensar nos companheiros da luta armada, automaticamente o dispositivo da agência de inteligência norte-americana captava a identidade dos colegas, que "caíam" (eram presos) em seguida. Para ele era a morte.

"Foi tudo intuitivo. Para controlar meus pensamentos, tratava de fazer um ponto na parede da cela e olhava fixamente para ele", conta. "Em pouco mais de um mês, via o que passava na minha cabeça, imagens que iam se formando. Até que fiz um círculo, e sempre tratava de manter essas imagens e pensamentos dentro do círculo. Seguia escutando vozes, mas agora eu podia controlar minha cabeça".

LIBERDADE

As alucinações só terminaram em 1984, quando deixou a solitária. Ganhou a liberdade no ano seguinte, já com leve melhora psicológica. Eram tempos de redemocratização no Uruguai.

O círculo mudou a maneira de Henry Engler pensar. Aos 65 anos, ele diz ter desenvolvido uma capacidade de não reagir imediatamente a nada. Engler é calmo, ouve o interlocutor com muita atenção e não perde a piada.

"Trato de ver o que se passa em meu pensamento e o que está passando no do outro. Controlar os pensamentos muda a forma como o cérebro trabalha, você perde a rapidez de reagir irracionalmente. Sempre está vendo o que está pensando, isso é correto, isso não é. A prisão me ajudou a desenvolver parte disso, não podia logicamente pensar no que ia acontecer comigo. Nos momentos de perigo, quando pensava que ia ser morto, precisava muito da intuição. O cérebro vai aprendendo a funcionar de uma maneira mais efetiva, que não é lógica".

Na prisão, abandonou o materialismo histórico dos tempos de militância e passou a crer em Deus - segundo diz, para sobreviver.

Primeiro pensou em Che Guevara. "Che podia suportar tudo, mas comecei a pensar em uma pessoa que poderia suportar mais, e era Jesus. Comecei a pensar que era bom parecer com Jesus. 'Perdoai, Senhor, eles não sabem o que fazem'. Isso despertou minha admiração. Estive muito alterado mentalmente, e tive uma identificação com Messias, mas depois me dei conta que não seria nenhum Messias, já tinha encontrado Deus".

Ao sair da prisão, Engler se mudou para a Suécia, país que recebeu muitos exilados latino-americanos. Decidiu retomar os estudos de medicina, mas a Universidade de Uppsala não aceitou os antigos registros do Uruguai. 

Recomeçou o curso em 1988, aos 42 anos. Por causa da idade, que ele considerava avançada para atuar como cirurgião, optou por seguir a carreira de pesquisador.

"Comecei a trabalhar na universidade, onde havia cientistas de primeira linha. O método não era muito conhecido, mas tive a sorte de entender que era importante para o futuro. A carreira de pesquisador é longa, é como o trabalho para desenvolver o olfato dos cães que procuram drogas: você começa a farejar para encontrar a solução dos problemas".

ALZHEIMER

Em 1997, já integrado à equipe de investigação de Uppsala, Henry Engler participou de pesquisas com cientistas da Universidade de Pittsburgh, na Pensilvânia.

Nos Estados Unidos, os pesquisadores conseguiram criar uma substância que era usada em animais. Os estudos com o composto "PiB", como os suecos o nomearam, foram bem-sucedidos. Monitorada até chegar ao cérebro, a substância tornou possível detectar a proteína amiloide, associada à doença de Alzheimer.

Na Suécia, a Universidade de Uppsala desenvolveu um avançado exame de imagem, e Engler e seus colegas testaram o "PiB" em homens. 

"Colocamos uma pequena quantidade de radioatividade nessa substância, a injetamos no corpo humano e a monitoramos até o cérebro. Com as câmeras especiais, foi possível detectar a reação da amiloide, substância do cérebro que produz a doença e vai matando os neurônios".

O teste foi feito com cinco pessoas saudáveis e nove doentes. Deu certo. Era a primeira vez na história que a medicina conseguia mostrar a presença do Alzheimer no cérebro de pessoas vivas.

ACERTO DE CONTAS

Dividindo o tempo atualmente entre a Suécia e o Uruguai, Engler voltou ao seu país para um pequeno acerto de contas. Em 2008, fez um acordo com o governo para a criação do Cudim, erguido em frente ao mítico estádio Centenário. O centro médico é uma organização que atua em regime privado, mas que depende do Estado.

"Damos assistência a toda a população do Uruguai, sem cobrar nada, porque o Estado nos deu essa oportunidade", afirma.

No Cudim, há uma parceria com as Universidades de Montevidéu e de Uppsala. Os exames são para diagnósticos de câncer (todos os tipos), além de neurologia. O diagnóstico do Alzheimer deve começar a ser feito em breve. "Senti uma obrigação de ajudar, de voltar, o Uruguai estava muito distante nessa área. Senti muita gratidão pelas pessoas que lutaram pelo fim da ditadura e pela minha geração".

Engler também dirige o recém-criado Clube Latino de Imaginologia Molecular, cujo objetivo é integrar toda a rede médica da região, e torce para que seu estudo ajude a encontrar uma cura para o Alzheimer, cujos tratamentos, até o momento, são todos paliativos.

"Continuo sendo um revolucionário, agora lutando contra as doenças. O socialismo não é um fim, nunca vamos poder experimentá-lo totalmente", diz.

E teoriza: "O cérebro está formado por dois componentes essenciais, egoísmo e solidariedade. O egoísmo é necessário para o indivíduo sobreviver. A solidariedade, para a sobrevivência da espécie. Sempre há uma luta entre o egoísmo e a solidariedade. E sempre vai existir muito egoísmo, senão o cérebro deixaria de ser cérebro. O homem precisa controlar seus pensamentos para não deixar o egoísmo prevalecer".

FOLHA

Irã começa a enriquecer urânio em local bem protegido, diz jornal


O Irã iniciou um programa de enriquecimento de urânio em um novo edifício, bem protegido de eventuais ataques aéreos, segundo informações de um dos principais jornais locais do país, o "Kayhan", deste domingo.

O veículo de comunicação, que é próximo de clérigos do Irã no poder, disse que Teerã começou a injetar gás de urânio em centrífugas sofisticadas em uma instalação em Fordo, perto da cidade sagrada de Qom.

Se confirmada a informação, a decisão pode aumentar as tensões entre a República Islâmica e países do Ocidente em relação às ambições nucleares iranianas. O Irã é acusado de tentar produzir armas nucleares, mas Teerã nega.

O Irã disse há meses que está se preparando para realizar o enriquecimento de urânio de Fordo, um local protegido dentro de uma montanha perto da cidade de Qom, no Irã central.

A inauguração do programa poderia bloquear novas negociações com as grandes potências no sentido de resolver a disputa nuclear por vias diplomáticas. O Irã tem sugerido conversar sobre seu programa nuclear com os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU e a Alemanha, mas o diálogo estão paralisados há um ano.

"O Kayhan recebeu relatórios ontem que mostram que o Irã começou a enriquecer urânio na instalação Fordo em meio a ameaças de inimigos estrangeiros", disse o jornal em uma reportagem de capa.

Um dos donos do Kayhan é um representante do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei. O próprio chefe do setor nuclear iraniano, Fereidoun Abbasi, afirmou no sábado que o país "em breve" começaria o enriquecimento em Fordo.

No final de dezembro, várias autoridades iranianas, em particular o chefe dos negociadores para a questão nuclear, Said Jalili, e o chanceler Ali Akbar Salehi, afirmaram que o Irã estava disposto a retomar as negociações com o grupo 5+1, composto por Estados Unidos, Reino Unido, Rússia, França, China e Alemanha.

PROGRAMA

O Irã tem uma instalação de enriquecimento de urânio em Natanz, no centro do país, onde cerca de 8.000 centrífugas estão em funcionamento. 

Teerã começou enriquecimento no local em abril de 2006.

As centrífugas de Fordo, porém, são supostamente mais eficientes, e o local melhor protegido contra ataques aéreos. Construído ao lado de um complexo militar, Fordo foi mantido em segredo e só foi reconhecido pelo Irã depois que foi identificado por agências de inteligência ocidentais, em setembro de 2009.

O enriquecimento de urânio está no cerne da disputa do Irã com o Ocidente. A tecnologia pode ser usada para produzir combustível nuclear, mas também material para bombas atômicas.

Os Estados Unidos e seus aliados temem que a capacidade do Irã de fazer seu próprio combustível nuclear acabará por levar a armas atômicas, porque a tecnologia oferece um caminho possível para isso.

O Irã diz que a pesquisa tem objetivos energéticos, e se recusa a interromper suas atividades de enriquecimento de urânio. As autoridades afirmam que precisam do programa para produzir combustível para reatores nucleares e para o uso em tratamentos de pacientes com câncer.

SANÇÕES

EUA, Reino Unido, Canadá e países da UE (União Europeia) defendem a semanas aumentar as sanções econômicas contra o Irã por conta de um relatório da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) que sugere que o país tenta dotar-se de armas nucleares. Um embargo ao petróleo iraniano ainda é debatido.

Críticos das sanções dizem que as medidas não conseguirão impedir o desenvolvimento nuclear do Irã e significaria fazer o jogo de um governo que usa sua hostilidade contra Washington como motivo de orgulho.

Teerã defende que seu trabalho nuclear é inteiramente pacífico e disse que o relatório era baseado em informações falsas da inteligência ocidental.

No dia 24 de dezembro, o Irã começou dez dias de exercícios navais em Ormuz. O exercício militar, chamado de "Velayat-e 90", acontece enquanto a tensão entre o Ocidente e Irã vem aumentando, devido ao programa nuclear do país islâmico.

FOLHA

luishipolito@outlook.com

Carregando...