segunda-feira, 2 de julho de 2012

Passados 10 anos, Argentina revive crise


Inflação, ressurgimento da pobreza e do desemprego, incertezas sobre o futuro. A Argentina está novamente perante um cenário de crise - a sétima desde 1975. Desta vez, inclui um impopular controle do dólar, além dos temores de eventuais desvalorizações da moeda e confiscos bancários.
"Cristina Kirchner não quer dialogar com a oposição nem ouvir conselhos dos próprios peronistas. É quase um 'autismo' administrativo que está levando o país à crise", diz ao Estado um ex-ministro kirchnerista. Depois, faz uma nuance: "Este não é um precipício, tal como o de (Fernando) De la Rúa em 2001, mas é um baita barranco".
A presidente está entre a espada e a parede, afirmam os economistas. Os empresários pedem que o governo desvalorize a moeda para recuperar a competitividade da economia. No entanto, embora esteja desesperada para aumentar o superávit comercial e contar com dólares para pagar a dívida pública, Cristina resiste à liberação do peso, já que isso implicaria em intensificar a escalada da inflação.
Os especialistas afirmam que a Casa Rosada improvisa as medidas econômicas, elaboradas por economistas novatos de "La Cámpora", denominação da juventude kirchnerista. Mario Brodersohn, ex-secretário da Fazenda do governo de Raúl Alfonsín, sustenta que "a desorientação e a paralisia dominam a gestão econômica".
Segundo o Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), a conta corrente da balança de pagamentos da Argentina teve déficit de US$ 552 milhões no primeiro trimestre. O déficit fiscal argentino, que em 2011 foi de US$ 6,8 bilhões, pode chegar a US$ 11 bilhões este ano. A dívida externa cresceu dos US$ 130 bilhões de 2011 para US$ 141,8 bilhões em março.
Dados do Banco Central indicam que saíram da Argentina US$ 21,5 bilhões em 2011, 90% a mais que 2010. Para tentar controlar a inflação e a fuga de divisas, a presidente aplica um férreo - e inédito - controle sobre o dólar desde novembro passado. O controle intensificou a desconfiança dos argentinos sobre os rumos do governo Kirchner.
As medidas, segundo pesquisa da consultoria Management & Fit, foram condenadas por 59,8% dos entrevistados. O "corralito verde" só contou com o respaldo de 13,6%. O resto não tem opinião formada ou declara-se "nem a favor nem contra".
As restrições estão colapsando as importações (que já estavam limitadas por uma série de barreiras comerciais) e as operações financeiras entre filiais e matrizes de multinacionais no exterior. De quebra, o controle sobre a moeda americana desatou o ressurgimento de um mercado paralelo do dólar, algo que não ocorria desde 1991.
O controle sobre a "moeda do império" - tal como os militantes kirchneristas denominam o dólar - é criticado pelos próprios eleitores de Cristina. Do total de pessoas que condenam o "corralito verde", 36,2% votaram pela reeleição da presidente em outubro.
Sem alternativas, o governo Kirchner realiza desde o ano passado uma persistente e lenta desvalorização da moeda. Dos 4 pesos de junho de 2011, o dólar está em 4,50 pesos atualmente. A ideia é implementar uma desvalorização controlada, para evitar o descontrole da inflação.
Os argentinos adultos ainda recordam com amargura que as desvalorizações do peso em 1988 e 1989, além de desatar a hiperinflação no fim do governo de Raúl Alfonsín, geraram inaudita inflação em dólares.
O economista Ricardo Delgado, diretor da consultoria Analytica, acredita que a Argentina não sofrerá uma maxidesvalorização. "O governo não quer desvalorizações bruscas." Segundo ele, "uma nova desvalorização implicaria na perda de capital político para o governo, pois dissolveria os salários".
Desvalorização. O ex-secretário de Comércio Raúl Ochoa concorda. "Nem maxi, nem de tamanho médio, mas o que veremos é uma crescente, persistente e sutil desvalorização da moeda. Desvalorizar, na Argentina, é uma coisa muito traumática".
Ele destaca que a Argentina não enfrenta problemas para o pagamento da divisa pública. "A curto prazo, o governo resolveu essa questão recorrendo ao caixa da Previdência, reestatizada há poucos anos. O problema externo não é esse, mas sim, o fato de que não virão investimentos suficientes para a Argentina".
Diversos setores da economia argentina apresentam sinais de esfriamento acelerado. Esse é o caso da indústria automobilística, menina dos olhos do governo Kirchner.
Segundo a Associação de Fabricantes de Automóveis da Argentina (Adefa), o setor registrou queda de 24,4% na produção em maio em comparação com o mesmo mês de 2011. As vendas para o mercado interno caíram 15%, enquanto as exportações (principalmente para o Brasil) desabaram 45%.
A produção industrial caiu 4,6% em maio em comparação com o mesmo mês do ano passado, conforme o Indec. Os analistas afirmam que a queda, em grande parte, é efeito das restrições às importações aplicadas pelo governo.
Vários economistas independentes afirmam que o país pode mergulhar na recessão nos próximos meses. Ochoa sustenta que, no segundo semestre, a Argentina deve ter crescimento nulo ou levemente negativo. "Se a colheita vier abaixo do previsto, pode ficar mais complicado, entre outros fatores. Além disso, a Argentina dependerá muito do andamento da economia brasileira".
"A economia crescerá 3% neste ano. Mas é preciso levar em conta que o cenário mundial é mutável. Por isso, é possível que o PIB argentino caia um pouco mais. No entanto, não vejo recessão", afirma Delgado.
O próprio governo Kirchner, que em janeiro ufanava-se de estar "blindado" contra a crise mundial, agora admite a existência de problemas.
"Com certeza não cresceremos com os índices que estávamos tendo", disse a presidente Cristina Kirchner para um grupo de influentes empresários americanos no Conselho das Américas em Nova York há duas semanas. Esta foi a primeira vez que ela admitiu um horizonte de problemas, cenário que os economistas independentes alertam há vários anos.
Popularidade. As declarações de Cristina Kirchner em Nova York coincidem com uma queda drástica de sua popularidade. A presidente - que foi reeleita com 54,11% dos votos em outubro do ano passado - ostentava 64,1% de aprovação em dezembro. Nos primeiros dias de junho, essa proporção caiu para apenas 38,9%, segundo pesquisa da consultoria Management & Fit.
ESTADÃO

Peña Nieto será o novo presidente do México, diz órgão eleitoral

O candidato do PRI (Partido Revolucionário Institucional), Enrique Peña Nieto, venceu a eleição presidencial realizada neste domingo (1º) no México com mais de 37% dos votos, de acordo com contagem preliminar feita pela autoridade eleitoral.


O candidato do esquerdista PRD, Andrés Manuel López Obrador, obteve ao menos 30% dos votos, seguido da governista Josefina Vázquez (PAN), com ao menos 25%.

Se confirmada a vitória do PRI, voltará à Presidência o partido que governou o México por 71 anos (1929-2000) e foi chamado de "ditadura perfeita" pelo escritor peruano Mario Vargas Llosa.

O descontentamento de parte da população com a perspectiva de que a sigla - uma espécie de versão mexicana do politburo soviético, com passado de fraudes eleitorais - voltasse ao poder ficou claro quando Peña Nieto votou em Atlacomulco, sua cidade natal. Dezenas de jovens contrários a sua candidatura vaiavam e gritavam.

Nascido no período pós-Revolução de 1910, o PRI tem inspiração no fascismo italiano e um discurso nacionalista e estatizante. Agora, vende-se como um partido renovado, que traz à sua frente um líder jovem e midiático.

Peña Nieto, 45, é advogado e foi governador do Estado do México. Com cara de galã, é casado com a atriz Angélica Rivera. Viúvo do primeiro casamento, tem cinco filhos.

"A ascensão de Peña Nieto e o retorno do PRI ao poder estão relacionados à decepção dos mexicanos com um projeto que não soube acabar com a desigualdade nem ofereceu solução para a questão do narcotráfico", disse o sociólogo John Ackerman.

O atual presidente, Felipe Calderón, é responsabilizado por não ter diminuído as diferenças sociais de um país que possui o homem mais rico do mundo, Carlos Slim, e o traficante mais procurado, "Chapo" Guzmán, líder do cartel de Sinaloa.

A política de Calderón de enfrentamento bélico ao narcotráfico aumentou o enfrentamento entre os cartéis. A consequência é um saldo de mais de 50 mil mortos.

"Podemos esperar um governo ainda mais autoritário, que adotará linha-dura com o tráfico, mas que não vai tocar na questão da legalização das drogas", diz Ackerman.

A solução apresentada por Peña Nieto é unificar as polícias estaduais e aumentar o orçamento para armá-las.

Seus opositores o acusam de ser produto de uma campanha da Televisa, maior conglomerado do México.

Também é apontado como responsável pelo Massacre de Atenco, quando ordenou a repressão de um protesto de trabalhadores, que resultou em duas mortes e no estupro de mais de 20 mulheres.

O dia de votação - que renovará também o Congresso - foi tranquilo.

FOLHA DE S. PAULO

luishipolito@outlook.com

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