quinta-feira, 19 de julho de 2012

Analfabetos na universidade


Sempre se soube que um dos principais entraves ao crescimento do Brasil é o gargalo educacional. Novas pesquisas, porém, revelam que o problema é muito mais grave do que se supunha. A mais recente, elaborada pelo Instituto Paulo Montenegro e pela ONG Ação Educativa, mostrou que 38% dos estudantes do ensino superior no País simplesmente "não dominam habilidades básicas de leitura e escrita".
O Indicador de Analfabetismo Funcional, que resulta desse trabalho, não mede capacidades complexas. Ele é obtido a partir de perguntas relacionadas ao cotidiano dos estudantes, como o cálculo do desconto em uma compra ou o trajeto de um ônibus. Mesmo assim, 38% dos pesquisados não atingiram o nível considerado "pleno" de alfabetização, isto é, não conseguem entender o que leem nem fazer associações com as informações que recebem.
Para os autores da pesquisa, resumida pelo Estado (16/7), os resultados indicam que o notável aumento da escolarização verificado nas últimas décadas ainda não se traduz em desempenho minimamente satisfatório em habilidades básicas, como ler e escrever, e isso num ambiente em que essas etapas do aprendizado já deveriam ter sido plenamente superadas, isto é, nas universidades.
A "popularização" do ensino superior, com a abertura indiscriminada de faculdades ávidas por explorar um público de baixa escolaridade - que não consegue ingresso nas universidades de prestígio, mas sabe que o diploma é uma espécie de "passaporte" para melhorar o salário -, é vista como um dos fatores principais do fenômeno. Essas escolas, concluem os especialistas, se adaptaram confortavelmente a um mercado consolidado, e só reagirão diante da exigência sistemática por melhor qualidade, que deve vir do governo e dos próprios alunos.
No entanto, o tempo para a reversão desse quadro é curto. O sentido de urgência se dá diante do desafio de colocar o Brasil entre os países mais competitivos do mundo, ante o encolhimento dos mercados por conta da crise. A situação de semianalfabetismo nos campi brasileiros - que contraria o discurso populista da presidente Dilma Rousseff segundo o qual seu governo, como o anterior, cuida mais dos jovens do que do PIB - talvez seja o indicador mais importante para medir o tamanho do fosso que nos separa do mundo desenvolvido.
Em primeiro lugar, a indigência intelectual compromete os projetos de aperfeiçoamento profissional, por mais bem-intencionados que sejam. Não se pode esperar que egressos de faculdades sem nenhuma qualificação possam acompanhar as mudanças tecnológicas e científicas cujo desenvolvimento é precisamente o que determina a diferença entre países ricos e pobres. A China, por exemplo, já entendeu que sua passagem de "emergente" para "desenvolvida" não pode prescindir da qualificação de seus trabalhadores, como mostrou José Pastore, em artigo no Estado (16/7).
Os chineses, diz Pastore, têm investido pesadamente no ensino superior, cujas matrículas foram multiplicadas por seis nos últimos dez anos. Agora, quase 20% dos jovens em idade universitária estão no ensino superior na China, enquanto no Brasil não passam de 10%. Ademais, a China demonstra há décadas um vivo interesse em enviar estudantes ao exterior, para uma preciosa troca de informações que encurta o caminho do país na direção do domínio técnico essencial a seu desenvolvimento. Só em 2008, diz Pastore, os chineses mandaram 180 mil estudantes para as melhores universidades do mundo, volume que se mantém ano a ano. O Brasil apenas iniciou o Programa Ciência Sem Fronteira, que pretende enviar 110 mil estudantes nos próximos anos.
O impacto do investimento chinês em educação aparece no cenário segundo o qual quase metade do extraordinário crescimento econômico do país resulta desse esforço de qualificação. Assim, se o Brasil tem alguma pretensão de competir com o gigante chinês, ou mesmo com países emergentes menos pujantes, o primeiro passo talvez seja admitir que é inaceitável entregar diplomas universitários a quem seria reconhecido como analfabeto em qualquer lugar do mundo civilizado.
ESTADÃO

Parlamento espanhol aprova medidas de austeridade e milhares protestam


MADRI - O Parlamento espanhol aprovou nesta quinta-feira cortes de 65 bilhões de euros a serem implementados no decorrer dos próximos dois anos e meio. Pouco depois da aprovação, milhares de pessoas tomaram as ruas de Madri e de dezenas de outras cidades em protesto contra o pacote.
O programa de austeridade aprovado pelos legisladores prevê cortes nos salários dos funcionários públicos e a elevação do imposto sobre valor agregado, entre diversas outras medidas. Trata-se do maior corte no orçamento desde o restabelecimento da democracia na Espanha, no fim da década de 1970.
Dos 312 votos contabilizados, 180 deputados votaram a favor, 131 contra. Houve uma abstenção. O primeiro-ministro Mariano Rajoy contou somente com os votos de seu Partido Popular, que dispõe de maioria no Parlamento, para aprovar as impopulares medidas de austeridade, informa o jornal El País.
Protestos contra os cortes de despesas governamentais têm ocorrido quase diariamente na Espanha. Segundo a agência de notícias Reuters, o Parlamento espanhol está praticamente cercado por manifestantes há pelo menos uma semana.
Hoje, milhares de pessoas saíram às ruas de Madri em protesto contra as medidas de austeridade aprovadas mais cedo pelo governo. Organizações sindicais convocaram manifestações em mais de 80 cidades espanholas, reunindo trabalhadores e artistas para ruidosos protestos contra o governo. As informações são da Dow Jones e da Associated Press.
ESTADÃO

Economia brasileira continua ‘bipolar’, diz ‘Financial Times’


A economia brasileira continua “bipolar”, segundo uma reportagem do Financial Times. Recentemente vinha se difundindo a ideia de que o País anda com um pé no freio e outro no acelerador. Por um lado o consumo aumentava, com ajuda de estímulos pontuais do governo, e por outro os investimentos e a indústria não acompanhavam.
Nas últimas semanas, essa visão foi questionada, sendo substituída, na opinião de alguns analistas, pela de que agora os dois pés estão no freio.
Agora, o Financial Times observa outro tipo de ambivalência no País. Por um lado, o otimismo dos empresários está em queda – desceu de segundo maior do mundo, no primeiro trimestre, para oitavo, no segundo.
Por outro, o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), órgão do governo, informa que, na média, os brasileiros (aqui não só os empresários) estavam mais otimistas em junho deste ano do que em maio e também do que em junho do ano passado.
A reportagem pergunta “por que os empresários brasileiros ficaram subitamente deprimidos enquanto o cidadão médio, nas ruas, continua tão alegre?” A resposta vem em seguida: “Com a taxa de desemprego ainda em recorde de baixa, custos de empréstimo caindo e cortes de impostos em alguns produtos preferidos, a crescente classe média brasileira ainda está para sentir o impacto da desaceleração econômica.
‘Overdose de cafeína’
Em outra matéria, o site do Financial Times apresentou um ponto de vista bem diferente. Disse que a queda no preço das commodities minerais está levando a economia brasileira a uma “overdose de cafeína” (no original, “overcaffeinated economy”).
A análise foi publicada no blog BeyondBrics na forma de um vídeo, apresentado pelo jornalista Henry Mance, chefe de pesquisa da revista Brazil Confidential, um periódico em inglês sobre o País, lançado em fevereiro do ano passado com o exemplar ao preço de mais de US$ 100.
Mance acredita que existe uma bolha de crédito no Brasil, o que pode atingir a economia e levar as commodities agrícolas a ganharem importância relativa no mercado nacional.
ESTADÃO

Relatório de 1972 aponta morte de desaparecidos políticos

RIO - Um relatório do Centro de Informações do Exército (CIE), órgão de repressão da ditadura militar (1964-1985) extinto há duas décadas, comprova que o governo brasileiro sabia oficialmente 30 anos atrás da morte do desaparecido político Ruy Carlos Vieira Berbert, cujas fotos já morto foram achadas pelo jornal O Estado de S. Paulo no Arquivo Nacional. Berbert é um dos 12 integrantes da luta armada - um dos outros é Virgílio Gomes da Silva, comandante do sequestro do embaixador dos EUA Charles Elbrick em 1969, também oficialmente desaparecido - dados como mortos no documento do CIE "Terroristas da ALN com cursos em Cuba (Situação em 21jun72)" guardado no Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro(Aperj).


Segundo o texto, o homem cujas fotos depois de morto foram divulgadas no sábado, 7 de julho, integrou na ilha, sob o codinome Joaquim, uma das turmas de treinamento de guerrilha da ALN (Ação Libertadora Nacional), organização fundada pelo ex-deputado pelo PCB Carlos Marighela. As fotografias mostram o cadáver de Berbert em Natividade, hoje no Estado de Tocantins. Depois da publicação da reportagem, a Comissão da Verdade, criada para investigar crimes contra direitos humanos ocorridos de 1946 a 1988, decidiu reabrir as investigações sobre o paradeiro dos restos mortais do guerrilheiro. Foi a primeira iniciativa desse tipo tomada pelo órgão, que começou a trabalhar em maio.
O documento do CIE é parte do acervo do antigo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) carioca guardado no Aperj. O texto aponta que oito dos 12 mortos eram do "III Exército da ALN", nome dado a uma das turmas do curso de guerrilha - são citadas quatro. O detalhamento do relatório - com codinome de cada guerrilheiro na ilha, nomes de quase todos, período do treino (maio a dezembro de 1970, no caso do III Ex), turma (são citadas quatro), situação (morto, foragido, preso ou banido) e até cursos específicos que só alguns frequentaram (explosivos, enfermagem)- levantou suspeitas entre ex-ativistas. Para alguns sobreviventes da organização, havia um agente infiltrado, presumivelmente da Agência Central de Inteligência dos EUA (CIA, na sigla em inglês) em Cuba, delatando-os.
O III Ex da ALN teve características especiais. Seus integrantes formaram o "Grupo dos 28", que rachou com a organização e formou o Molipo (Movimento de Libertação Popular), dizimado ao tentar se instalar no Brasil. Aparentemente, uma parte considerável de seus integrantes era monitorada desde o desembarque no Brasil, pela repressão, que os sequestrava e eliminava. Um dos sobreviventes do III Ex que conseguiram escapar vivos é o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu - segundo o CIE, seu codinome na ilha era Daniel. Ele se radicou clandestinamente no interior do Paraná nos anos 70, sob nome falso e após operação plástica que lhe alterou o rosto.
Além de Berbert, estavam mortos em 21 de junho de 1972, de acordo com o relatório do CIE, os seguintes ex-alunos do III Ex: Arno Preiss, Flavio de Carvalho Molina, Francisco José de Oliveira, Frederico Eduardo Mayr, Gastone Lúcia de Carvalho Beltrão, José Roberto Arantes de Almeida e Lauriberto José Reyes . Do II Ex, treinado de julho de 1968 a meados de 1969, há três integrantes do curso de guerrilha apontados como mortos no relatório: Alex de Paula Xavier Pereira, Márcio Leite Toledo e Yuri Xavier Pereira.
Virgílio Gomes da Silva foi do "I Exército da ALN", treinado de setembro de 1967 a julho de 1968. Em Cuba, seu codinome era Carlos, mas no Brasil era Jonas. Foi chefe do chamado GTA (Grupo Tático Armado) da ALN em São Paulo. Segundo relatos, foi morto ao reagir a uma sessão de tortura.
Desaparecido. O documento do CIE também confirma a captura de Bonarges de Souza Massa, outro ex-integrante do III Exército da ALN sob o codinome Felipe. Integrante da lista de desaparecidos políticos, Massa consta no documento como "preso". Sua morte foi reconhecida pela Comissão de Mortos e Desaparecidos.
ESTADÃO

luishipolito@outlook.com

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