sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Para muitos, a morte do sonho americano nas Torres


Antonio Javier era um garçom mexicano de 22 anos no restaurante Windows of the World, no 106º e 107º andares da Torre Norte do World Trade Center, quando aconteceram os atentados de 11 de setembro de 2001.
Como muitos colegas, Antonio estava nos Estados Unidos ilegamente, parte de um exército oculto de imigrantes que fazem de tudo na economia americana, de colher morangos a podar árvores. Dos 73 funcionários do Windows of the World que morreram naquele dia, 34 eram latinos.
Antonio também integrava outro grupo maior: os cerca de 250 estrangeiros que morreram junto com os mais de 2.500 americanos vitimados naquele dia. Entre eles há um jovem consultor de risco da Malásia que disse aos pais quando tinha 15 anos que um dia ia trabalhar no World Trade Center; uma mulher filipina que mudou para os EUA em busca do sonho americano e ganhou o suficiente para pagar os estudos de parentes em sua terra natal; e um operador cambial brasileiro de 30 anos que deu ao pai, um médico paulista, uma miniatura das torres gêmeas e disse, com orgulho: "É aqui que vou trabalhar".
Para os familiares dessas vítimas, curar a mágoa tem sido especialmente difícil.
Os estrangeiros, incluindo quase uma dúzia de imigrantes ilegais, foram incluídos na ajuda financeira do governo americano do Fundo de Indenização das Vítimas de 11 de Setembro.
Mas muitas famílias não falam inglês, o que dificulta para eles navegar o sistema judicial americano, visitar os locais dos ataques ou até entender o país em que a vida de seus entes queridos acabou num emaranhado de aço derretido e escombros. Alguns não conseguiram visto para homenagear os falecidos nos últimos anos ou não têm dinheiro para viajar com facilidade.
Alguns também enfrentam problemas em casa. Muitos vivem em países cujos vizinhos há muito tempo se tornaram indiferentes ao 11 de setembro, ou são abertamente hostis aos EUA e à maneira como reagiram ao acontecimento. Outras moram em lugares como a Indonésia e o Japão, que viveram ataques ou desastres naturais devastadores nos últimos anos que, para muitos moradores desses países, foram piores que o pesadelo dos EUA — o que deixa as famílias de vítimas do 11 de setembro para chorar suas perdas sem a rede de apoio que é comum nos EUA.
Haruhiro Shiratori, dono de um restaurante no Japão cujo filho único, Atsushi, de 36 anos, morreu trabalhando na corretora Cantor Fitzgerald, disse que lembra que foi mandado embora na entrada do Ministério das Relações Exteriores do Japão quando foi pedir ajuda logo depois dos ataques. Ele disse que ainda é difícil conseguir apoio: quando um grupo de familiares de vítimas começou a planejar uma viagem a Nova York para os dez anos do atentado, disse ele, as companhias aéreas negaram seu pedido de desconto nas passagens ou de promoção para a classe executiva, especialmente para os viajantes mais idosos. Uma delas acabou aceitando analisar a situação depois que Shiratori pediu que um amigo político se envolvesse.
Alguns países vão realizar eventos em larga escala para celebrar o 11 de setembro. No Reino Unido, do qual 67 cidadãos morreram nos ataques, entre os eventos programados há uma missa de uma hora na Catedral St. Paul que deve atrair 2.000 pessoas, e um evento aberto na Abadia de Westminster chamado "Domingo da Conscientização".
A BGC Partners, que já integrou a Cantor Fitzgerald, está realizando um "dia de caridade" em Londres para lembrar os 658 empregados do banco de investimento que perderam suas vidas. Dezenas de celebridades, como o ator Orlando Bloom e o prefeito de Londres, Boris Johnson, devem participar.
Mas em muitos outros lugares o marco está passando com pouca ou nenhuma lembrança.
Cookie Micaller, uma jornalista das Filipinas cuja irmã, Cynthia Wilson, trabalhou como recepcionista para uma empresa de serviços para escritórios no World Trade Center, disse que vai apenas realizar uma prece silenciosa no domingo.
Wilson foi para os EUA em 1986 com o marido e dois filhos em busca de oportunidades. Depois, ela se naturalizou e ganhou o suficiente para pagar os estudos de parentes, incluindo Micaller.
Mas os filipinos têm outras coisas para se preocupar, como a enorme pobreza e insurgentes violentos no sul.
"Não há grupos de famílias das vítimas do 11 de setembro nas Filipinas", disse Micaller. "Sofremos e ficamos de luto sozinhos".
Na Malásia, os pais de Vijayashankar Paramsothy, um consultor da Aon Risk Consultants que morreu no World Trade Center aos 23 anos, estão divididos sobre como lembrar o 11 de setembro. A mãe disse que o marido geralmente gosta de receber as pessoas, incluindo alguns amigos do filho, mas, para ela, é difícil. "Falo mecanicamente, sorrio, dou risada e tudo, mas no fundo há um vazio", disse ela.
Ela diz que sempre se preocupou com Nova York, mas aceitou a vontade do filho, que disse ao pai quando tinha 15 que seu sonho era trabalhar no World Trade Center.
Agora, na casa do casal num subúrbio em Kuala Lumpur, há um memorial para o filho. Suas fotos são exibidas pela casa, inclusive em cima de um piano que ele costumava tocar para a mãe. Há uma moldura com um quebra-cabeça e uma miniatura de navio que ele montou.
A sala continua a mesma que há dez anos, exceto pelas lembranças, como uma bandeira americana gigante com os nomes das vítimas do 11 de setembro e uma placa de metal com aço derretido das torres gêmeas.
"Mantive seu quarto do jeito que era, para o caso de ele voltar. Não quero que ele pense que o esqueci", diz a mãe.
Alguns anos depois dos ataques, Shiratori, cujo filho, Atsushi, trabalhava no 105º andar da Torre Norte do WTC, viajou ao Paquistão para entregar pessoalmente uma carta para Osama Bin Laden, com cópias em inglês, japonês e persa. Ele passou um mês dirigindo pelas montanhas do país.
"Claro que não havia como eu me encontrar com ele — nem a CIA sabia onde ele estava", disse. "Eu queria perguntar diretamente por que ele fez uma coisa como essa. É por isso que fui".
Embora não tenha conseguido as respostas de Bin Laden, ele encontrou uma maneira de canalizar suas frustrações. Usando o dinheiro da indenização para as vítimas e os ativos do próprio Atsushi, Shiratori criou um fundo para ajudar a reconstruir o Afeganistão. Ele já visitou o país oito vezes desde 2004. O fundo já pagou filtros de água, paineis solares e suprimentos para uma escola para meninas que ele ajudou a construir no país. Hoje ele fala árabe melhor que inglês.
Este ano, Shiratori será um dos quase 40 japoneses familiares de vítimas que viajarão a Nova York para marcar os dez anos dos atentados, que mataram 24 japoneses. Será o maior grupo de parentes japoneses de vítimas desde que muitos viajaram juntos no primeiro voo do país para Nova York depois dos ataques, para procurar seus entes queridos nos escombros.
Nos campos de milho e feijão de Santa Inés Ahuatempan, México, enquanto isso, há pouco para lembrar Javier, o garçom do restaurante Windows of the World. Sua cidade natal, no Estado de Puebla, no sul do país, é o tipo de aglomeração rural que há em todo o México, com poucas oportunidades para os jovens, muitos dos quais aproveitam a primeira chance para tentar a sorte nos EUA como trabalhadores sem documentos.
Antonio foi quando terminou o Ensino Médio, aos 17 anos, e se juntou ao irmão mais velho Isidro, em Nova York, que também trabalhava no Windows of the World. Isidro estava do lado de fora do prédio quando o primeiro avião atingiu as torres e deixou seu irmão preso 107 andares acima.
"Entendo por que meus filhos foram embora. Dê uma olhada: a vida aqui é difícil", disse Armando Javier, um produtor rural de 62 anos com chapéu de caubói, rosto curtido e mãos ásperas, enquanto apontava para um pequeno milharal de plantas mirradas.
Nos dois primeiros anos depois do ataque, o governo americano deu visto para a mãe de Antonio Javier, Guadalupe. Mas as duas últimas vezes que ela tentou o visto para visitar o local em que seu filho morreu, ele foi negado.
"Sou velha agora e não quero trabalhar lá", disse ela. "Mas eles ainda não me deixam ir. Então lembro ele aqui, sozinha".
Já o pai não tem planos para relembrar os dez anos. "Por quê? Não vai trazer [Antonio] de volta", disse ele.
Colaboraram Patrick Barta, Gautam Naik e Paulo Prada
WSJ AMERICAS