quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Dilma e Soros, tudo a ver


Houve algum resmungo em certos setores pelo fato de que a presidente Dilma Rousseff se atreveu a "ensinar" os europeus a lidar com a crise, durante sua estada em Bruxelas, na semana passada. Dilma limitou-se a dizer o que me parece óbvio: não se sai da crise com pacotes recessivos de ajuste fiscal. É preciso estimular o crescimento, sem o qual país algum consegue pagar suas dívidas.

Não se trata, pois, de conceitos tirados de algum velho alfarrábio marxista. 

É puro sentido comum. Tanto que, agora, George Soros, o mega-investidor (ou mega-especulador, a seu gosto, leitor) acaba de "ensinar" a mesmíssima coisa, em carta aberta aos dirigentes europeus. Não só Soros, aliás. A carta aberta leva cerca de 1.300 assinaturas de personalidades variadas, de diferente coloração política.

O texto defende um urgente acordo entre os dirigentes europeus em torno de três pontos, o último dos quais é exatamente "desenvolver uma estratégia que conduza ao crescimento e à convergência econômica, porque o problema da dívida não pode se resolver sem crescimento".

Para quem se interessa, cito também os dois outros pontos:

1 - "Estabelecer um Tesouro conjunto que possa captar fundos para a zona euro em seu conjunto e assegurar que os Estados-membros adiram à disciplina fiscal".

2 - "Reforçar a supervisão comum, a regulação e os sistemas de garantia dos depósitos na zona euro".

Simplificando, trata-se de criar um governo econômico comum, não apenas um mercado comum, e, digamos, socializar os papeis da dívida. Implica reduzir os custos da dívida de países como a Grécia por exemplo, mas aumentar o da Alemanha. Implica, portanto, um grau de solidariedade que estava na origem do projeto europeu, mas que foi se esgarçando até chegar ao ponto atual em que é preciso que a líder de um país remoto e em desenvolvimento e um investidor ensinem o óbvio. É triste, mas ainda é tempo de aprender, espero.
Clóvis Rossi
Clóvis Rossi é repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha, ganhador dos prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. Assina coluna às terças, quintas e domingos no caderno Mundo. É autor, entre outras obras, de "Enviado Especial: 25 Anos ao Redor do Mundo e "O Que é Jornalismo".
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