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Monday, April 28, 2014

VIOMUNDO # Rodrigo Vianna: Se insistir nos “almoços” com a velha mídia, o PT pode virar a sobremesa

Padilha e o “diálogo” com a imprensa: até onde vão as ilusões petistas?

publicada sábado, 26/04/2014 às 19:33 e atualizada sábado, 26/04/2014 às 19:33

por Rodrigo Vianna, no Escrevinhador, sugestão de Robson Moreno

O PT deveria ter aprendido – com Lula – que esses almoços com representantes da velha mídia não servem pra nada. O então candidato petista foi à sede da “Folha”, em 2002. Lá pelas tantas, o herdeiro do jornal, Otavinho Frias, fez uma insinuação de que Lula não estaria preparado para ser presidente porque não sabia falar inglês. Lula levantou-se e foi embora. O velho Frias (que emprestava carros para torturadores durante a ditadura, mas não era tolo a ponto de confrontar um futuro presidente) saiu andando atrás do candidato, tentando se desculpar pela arrogância do filho.

Lula jamais se vingou dos Frias. Olhou pra frente. Errou? Teve a chance, também, de enterrar a Globo – endividada em 2003. Não avançou nisso. Aliás, presidente eleito, foi para a bancada do “JN” ao lado de Bonner. Alguém imaginaria Brizola, eleito, na bancada do “JN”? Alguns dirão: por isso que Brizola jamais foi presidente. Talvez, tenham razão…

Mas o PT seguiu apanhando e confraternizando-se com a velha mídia. Dilma foi fazer omelete com Ana Maria Braga em 2011. E disse que a questão da Comunicação no Brasil se resolvia com controle remoto.

Haddad, eleito depois de uma campanha em que meios digitais tiveram papel decisivo na capital paulista, mandou dizer pouco antes da posse que Comunicação era um assunto em que não cabia debate sobre políticas públicas. Pôs no cargo de Secretário um jornalista que imagina resolver todos problemas com telefonemas para as redações da “Folha” e “Estadão”. Haddad chegou a dizer que esperava uma “normalização” das relações com a mídia. Foi cozido e fritado por ela.

Padilha começou sua campanha a governador de São Paulo com caravanas pelo interior – transmitidas pela internet. Boa novidade. Mas também adotou a “tática” (!) dos almoços em jornais, pensando em criar (quem sabe) um clima de camaradagem com personagens do quilate dos Mesquita e dos Frias. Recentemente, ouvi de um alto dirigente do PT (foi conversa em off, não posso por isso revelar detalhes) que o partido não abre mão de “dialogar com todos os setores da imprensa” na campanha para o governo de São Paulo.

Sei… Gostaria de saber o que esse petista graúdo acha do “diálogo” estabelecido entre os jornais e Padilha na última semana. Diálogo bastante interessante.

O ex-ministro foi submetido a uma operação de guerra. A tentativa é de abatê-lo em pleno vôo, antes mesmo da campanha começar. Os aliados midiáticos dos tucanos perceberam a fragilidade de Alckmin num momento em que São Paulo está na iminência de ficar sem água por falta de planejamento dos governos do PSDB. No dia em que Padilha iria pra TV falar da seca, os jornais vieram com o ataque coordenado contra o petista.

As manchetes seriam a sobremesa do almoço recente de Padilha com representantes da família Mesquita?

A “Folha”, em sua edição digital, dava grande destaque neste sábado (26/04) para uma certa “opinião de leitor”, que afirmava: “Descoberta da PF é um tiro mortal na candidatura de Padilha”. Vejam, não se trata de análise. Não há informação. É a opinião de um leitor qualquer – que gera manchete no alto da home. Logo abaixo, outra manchete em que PT “nega que possa trocar de candidato”.

Qual diálogo possível? Pra que almoçar ou conversar com essa gente?

O PT segue a legitimar o inimigo. Sim, é disso que se trata. Jornais como “Folha”/”Estadão”/”O Globo” e revistas como a “Veja” são inimigos. São parte do aparato inimigo. Mas, dia sim, dia não, lá estão corajosos ministros petistas a ocupar páginas amarelas, e a se fartar com espaços concedidos pelo inimigo.

Qual nome dar a isso? Oportunismo? Cegueira? Pragmatismo?

Essa prática serve apenas para legitimar aqueles que são hoje a principal ferramenta do campo adversário. Não há meio termo. Ou não deveria haver. Não há ilusão. Ou não deveria haver.

Padilha reagiu até bem na coletiva da última sexta-feira. Mas o PT segue iludido (ou a palavra seria “rendido”) à lógica do “diálogo” com Globos, Folhas e Vejas.

Na verdade, trata-se – talvez – de um sintoma mais grave de rendição…

O partido tem uma base imensa de militantes, setores organizados e movimentos sociais dispostos a um combate aberto. Mas a direção segue na trajetória idêntica à do PS francês ou do PSOE espanhol. É caminho certo para o desastre.

Lula, com a entrevista aos blogueiros, deu a senha de que há outro caminho. Mas a direção petista (com parcas exceções) parece amortecida, rendida.

O que pode salvar o projeto petista e lulista – que apesar de suas limitações (até porque o PT governa em coalizão, e sempre em minoria no Congresso) significou avanços significativos para o país – são essas bases imensas e dispostas ao combate. Gente que nem é filiada ao PT muitas vezes. Mas sabe de que lado está. Essa gente pode pressionar uma direção que parece cada vez menos disposta ao combate.

Andre Vargas, meus caros, foi secretário de Comunicação do PT. Vejam que tipo de prioridade a direção petista dava ao tema. Vargas tentou enganar os incautos com aquele gesto provocativo à frente de Joaquim Barbosa: punho cerrado. Provocação tola, posto que sem correspondência com ações concretas de enfrentamento. Só enganou quem não conhecia os bastidores em que essa geração de “profissionais” petistas se criou.

O social-doleirismo de Vargas é parte desse mesmo quadro de rendição em que se inscrevem as tentativas de “dialogar” com a velha mídia brasileira.

A eleição de 2014 é uma guerra em que não se pode ter ilusões. O outro lado não quer diálogo. Há uma chance (pequena?) de o PT derrotar os tucanos em Minas e São Paulo, e ainda manter o governo federal com Dilma. Por isso, a guerra é tão feia.

Se adotar a tática do “diálogo” com a mídia e os piores inimigos, o PT – em vez de um passo à frente, com vitórias em Estados importantes – pode colher uma derrota definitiva. Os números a apontar liderança folgada de Dilma podem trazer ilusão de uma eleição fácil. Não! Até porque se trava no Brasil apenas parte da guerra – muito maior – pelo futuro do ciclo de governos progressistas na América do Sul.

A velha mídia é sócia dos tucanos num projeto político conservador. O PT – apesar de suas fragilidades e inconsistências crescentes – é a ferramenta disponível para os que lutam por barrar a direita e por aprofundar as reformas sociais no Brasil.

A guerra será aberta e total. Sem ilusões. Sem “diálogo”. Se insistir nos “almoços”, o PT pode virar a sobremesa. Com as cabeças de Dilma/Lula/Padilha/Dirceu e de toda a esquerda servidas na bandeja, e expostas nas manchetes dos jornais e telejornais inimigos nos dias e meses seguintes à eleição.

VIOMUNDO

Thursday, April 17, 2014

‘É um modismo’, diz ativista LGBT sobre o movimento dos ‘g0ys’



O americano G0ys.org é o maior portal sobre a comunidade g0y do mundo
Foto: Reprodução
O americano G0ys.org é o maior portal sobre a comunidade g0y do mundo Reprodução
RIO - Dois homens podem se abraçar, se beijar, se masturbar juntos e até praticar sexo oral eventualmente, mas isso não significa que eles são gays. Assim pensam os g0ys (com um zero no lugar do “a”), um grupo surgido nos Estados Unidos em meados da primeira década dos anos 2000 e que vem expandindo sua filosofia pelo mundo, inclusive com muitos adeptos no Brasil. No Facebook, o grupo “Espaço g0y e afins” tem mais de 640 membros.
O site brasileiro “Heterogoy” deixa muito claro que g0y não é gay e explica que “é um heterossexual mais liberal, que não faz sexo com homens, apenas faz brincadeiras sacanas, desde que nesses contatos não ocorra a penetração”, que os participantes do movimento acreditam ser “degradante”. “O termo g0y serve para designar homens que não praticam sexo anal com outros homens”, ressalta outro trecho do site brasileiro.

O grupo, porém, causa polêmica principalmente entre os integrantes do movimento LGBT. Alguns ativistas, como o antropólogo Luiz Mott, fundador do Grupo Gay da Bahia, acreditam que a criação de novas categorias de gênero acaba tirando o foco da luta pelos direitos dos homossexuais.
- Toda diversidade sexual deve ser respeitada. Porém, num país onde um gay ou travesti é assassinado a cada 21 horas, inventar “trocentas” novas identidades de gênero desestrutura o movimento afirmativo dos homossexuais, que ainda estão lutando pela sobrevivência - afirma Mott. - Acho interessante a exploração da sexualidade, mas prefiro estimular que os g0ys se afirmem como gays.

Para o antropólogo, acreditar que só é gay quem pratica sexo anal é um equívoco.

- A homossexualidade não é sinônimo de cópula anal. Alternativas como sexo oral ou masturbação recíproca fazem parte da prática homoerótica desde a Grécia Antiga - explica Mott, que não acredita na perpetuidade dos g0ys. - É um modismo, como as lesbian chics ou os HSH (homens que dizem fazer sexo com outros homens sem se identificar como homossexuais), sendo que essas microidentidades têm um componente homofóbico, pois preconceituosamente identificam o gay como um estereótipo.

Coordenador especial da Diversidade Sexual da Prefeitura do Rio, Carlos Tufvesson concorda com Mott e se mostra surpreso com a necessidade de "catalogar" os desejos sexuais.

- Me espanta esse excesso de rótulos para a sexualidade. Isso, no fundo, tem raiz em um preconceito que liga o gay à feminilidade. Ou a penetração a algo feminino. Para mim, basta que sejam felizes e que curtam suas fantasias, pois quem não dá vazão aos desejos pode se tornar mais um homofóbico que sai por aí matando gays.

“O g0y não é um enrustido”

As regras são bastante claras para definir o pensamento desse grupo. Há alguns mandamentos simples: g0ys não namoram nem se casam com outros g0ys, “têm no máximo uma amizade íntima”, que definem como um “bromance” (contração das palavras em inglês brother - irmão - e romance). 

Eles só se casam com mulheres e não podem se envolver com a comunidade LGBT, além de não permitir qualquer associação com “imagens e clichês do mundo gay”.

- Um g0y é uma pessoa que antes vivia no armário e hoje pode expressar-se de uma forma livre e autêntica, mostrando que não é um enrustido, mas sim um hétero homoafetivo, consciente dos seus limites. É um elo entre héteros e homos - define Claudio LaPaz, autor do blog “Somos G0ys”.

Os sites sobre o movimento ainda trazem algumas referências históricas. O “Heterogoy” conta que o “bromance” mais famoso da história está registrado na Bíblia, no antigo testamento. “Trata-se de David e Jônatas, que, apesar de machões heterossexuais, beijavam-se e choravam juntos, e a profunda amizade, a união e o amor entre os dois era tão intensos que, mesmo naquela época, foram reconhecidos pela sociedade como sendo superiores ao amor que os dois tinham pelas mulheres”. O site americano G0ys.org ainda diz que a relação afetiva natural entre os homens foi corrompida pelo movimento gay, que pratica o sexo anal. Esse comportamento não é tolerado pelos g0ys.

Um dos maiores divulgadores do movimento no Brasil, Master Fratman, que prefere não revelar o verdadeiro nome, tem um discurso bem mais tolerante do que o de alguns sites sobre a fraternidade.

- Uma frase que resume o perfil de um g0y é: um hétero fora da prisão. O comportamento heterossexual se mantêm, porém abrem-se horizontes para a homoafetivadade. Mas não há homofobia - garante Master Fratman. - Não faz o menor sentido chamar um homoafetivo de homofóbico. Queremos justamente quebrar essa luta milenar entre héteros e homos.


Existem também alguns grupos de g0ys homossexuais, que só se relacionam com outros homens sob a condição de nunca realizarem sexo com penetração. Segundo os sites que explicam o conceito, os g0ys homossexuais não se identificam com a comunidade gay nem se comportam “publicamente como sendo um deles”, ignorando a diversidade de comportamentos dos homossexuais. Apesar de afirmarem que não são homofóbicos, os sites que falam sobre o movimento valorizam o “homem másculo” e usam expressões como “viadões” e “bichas pintosas” para se referir à comunidade gay.

“Você já viu a abordagem da mídia sobre a comunidade gay e você não se identifica com aquela imagem e considera muitas das práticas repulsivas. A verdade é que você é um cara que realmente ama a masculinidade e aprecia esses traços em outros homens, enquanto, simultaneamente, considera ações que afeminam os homens nojentas e de mau gosto”, exemplifica o maior portal sobre o assunto, o G0ys.org.

Espaço aberto para g0ys

Chamado de primeiro empreendimento g0y do Brasil, o Rancho Hedônia, na verdade, "um espaço aberto para a diversidade", segundo o dono do estabelecimento, Fabio Franco, e recebe também héteros liberais e g0ys. Só pessoas cadastradas podem entrar no clube, que fica em São José de Ribamar, no Maranhão. Lá rolam festas em que se praticam o nudismo, o voyeurismo e o suingue.

- Recebemos pessoas de todas as diversidades, mas o lugar acabou fazendo sucesso entre a comunidade g0y, justamente porque eles se sentem confortáveis aqui. Não há julgamentos, e as pessoas podem exercer sua sexualidade como bem entenderem. É um lugar de encontro - diz Franco. - Nos últimos meses, a procura do rancho por g0ys tem aumentado bastante.


O GLOBO