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Wednesday, October 29, 2014

CIDADE BIZ # Ficção das campanhas sai da TV sem prevenir eleitor para a ressaca do crescimento anêmico

Desemprego baixo com crescimento fraco tem levado muitos a duvidar de problemas na economia. O marketing da reeleição fartou de usar a contradição

Antonio Machado
 
A eleição chega ao fim. Animada e disputada como poucos esperavam, dado o desinteresse inicial do eleitor e a baixa estima em relação aos políticos. A ficção televisiva das campanhas, especialmente de Dilma Rousseff, contrafez as percepções, mas não mudou a realidade, que é difícil na economia e, sem reversão das causas que fizeram o crescimento econômico desinflar, vai estender-se a tudo mais.

 A mudança do quadro de crescimento baixo e inflação alta implica a concordância quanto ao diagnóstico, e ele não é unânime. Setores do governo em fim de mandato o atribuem, sinceramente, ao desalento da economia global, não obstante as duas potências que definem o ritmo da atividade no mundo não estejam fracas, muito ao contrário: EUA têm um viés ascendente notável, entre expansão econômica e avanços tecnológicos, e a China ainda cresce à base de 7% ao ano.

 A economia perdeu o viço por razões internas e estruturais. De um lado, por mais de duas décadas de omissão pública e empresarial em relação aos fatores que explicam o dinamismo industrial (custos de produção competitivos, câmbio depreciado, juro baixo, produtividade do emprego alta etc.); de outro, pela gestão e governança públicas de baixa qualidade. 

Tais fatores debilitaram a economia aos poucos, mas poucos perceberam.

 A pujança das commodities turvou as visões.

 É fato que quando a China crescia a dois dígitos e a sua indústria saiu para o mercado internacional, as commodities foram ao paraíso, coincidindo com o primeiro governo Lula. Os preços de tudo o que é bem primário, de minério de ferro a grão de soja, quebraram todos os recordes. A China arrastou, em sua ascensão, um vasto bloco dos países emergentes produtores de commodities. Isso é passado.

 Ao rever o modelo de crescimento para promover o consumo interno, a China manteve intacto o ímpeto exportador – o que significou uma grande contração de nossos mercados de manufaturados, em especial, na América do Sul -, mas baixou a demanda por commodities. Sem essa alavancagem, com a manufatura sem competitividade e cada vez mais importadora, a economia brasileira perdeu tração. Não é a retomada global que a fará se reerguer. Nem Dilma nem Aécio Neves deram uma palavra sobre tal desafio - um entre tantas urgências a resolver.

Diferenças só de ênfase

 O que fazer para turbinar o crescimento num mundo em que insumos e bens agrícolas voltam a ser cotados sem pressão de demanda?
 Segundo a racionalidade de Dilma, investindo em infraestrutura e acelerando as concessões ao capital privado. No programa de Aécio, ocupa papel relevante o saneamento orçamentário, no qual o gasto social e com o funcionalismo leva algo como 90% das receitas fiscais, e a volta da inflação à meta anual (4,5%).

 Tais concepções vão estar no programa do próximo governo. A diferença entre elas é basicamente de ênfase.

 Dilma gastou a língua de tanto dizer que não fará ajuste que ponha em risco o emprego e a renda, ainda que seja esse o desfecho, se a preliminar da estabilidade der sopa para o mercado cambial fazer o trabalho sujo na marra. Os governos avessos ao molho ortodoxo estão batidos, como Venezuela e Argentina, da vereda “bolivariana”. Ainda que do mesmo grupo, Bolívia e Equador são mais sólidos. Por quê?

Arenga dos desafinados

 Onde há, como prática, uma gestão fiscal que desobrigue o Tesouro Nacional de se endividar além do nível de prudência definido pelo superávit primário (a economia do orçamento para pagar o serviço da dívida pública), o governo pilota o mercado financeiro e cambial. É o que diferencia Equador e Bolívia dos aliados no bate-bumbo contra os EUA, e até do Brasil, coluna do meio na arenga dos desafinados.

 O efeito China e commodities também distinguem o Brasil dos países emergentes. A maioria usou a renda das commodities para modernizar a infraestrutura e melhorar o bem-estar dos mais pobres. No Brasil, o reforço das contas externas serviu, inicialmente, para refazer as reservas de divisas, a mais antiga de nossas vulnerabilidades. E em seguida também encerrou a constrição fiscal que vinha desde 1994.

Sem vez para marqueteiro

 O governo atendeu defasagens salariais e de gente na área pública, tornou regra os aumentos reais do salário mínimo e universalizou os programas sociais, outra das chagas antigas, graças à renda do que não está mais disponível. Mas pouca ou nenhuma atenção foi dada ao setor produtivo, sobretudo a indústria de transformação, que vinha de outro viés (ainda crescente): a produção globalizada.

 Se a produção local ficou cara, o câmbio apreciado deliberadamente para segurar a inflação serviu para baixar custo com importações e legar outra sequela: a indústria passou de superavitária até 2006 a deficitária (mais de US$ 100 bilhões em 2013). É isso que empacou o crescimento, cuja falta esmaga o Tesouro. Sem solução, vai implicar ajustes salgados que marqueteiro nenhum saberá como “desconstruir”.

O progressismo retórico

 Desemprego baixo, com crescimento e investimento fraco, tem levado muitos a duvidar de problemas na economia. O marketing da reeleição fartou de usar a contradição. Ela é só aparente. Nossa demografia é cadente e já aponta déficit de mão-de-obra depois de 2020. Mais: as políticas sociais tiram parte da população do mercado de trabalho e o maior acesso à escola adia a busca de emprego pelos mais jovens.

 Tal quadro é bom. Não pode é iludir. A distensão social, sobretudo com alta real de salário, tem se dado com produtividade em queda, o que reduz a taxa de lucro, cuja função é remunerar capital, bancar investimento (com retenção do lucro) e firmar convicções otimistas.

 O desdobramento desse viés, camuflado com subsídios e desonerações para compensar o capital (à custa de concentrar renda, na contramão da retórica progressista), é preocupante. E nem está em discussão.

CIDADE BIZ