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Monday, February 15, 2016

Entenda porque Erdogan, o "Sultão do Caos", está em desespero

Pepe Escobar
Site RT


Imaginem noites insones no palácio do ‘sultão’ Erdogan em Ankara. Imagine-o lívido, ao saber que o Exército Árabe Sírio, apoiado pela aviação russa, iniciou uma Batalha por Aleppo, preventiva – através da região de Bayirbucak – fechando o principal corredor pelo qual Ankara fornece armas aos terroristas e estrada de ir e vir de jihadistas. Quem controlar esse corredor controlará o resultado final da guerra na Síria.

Entrementes, em Genebra, a oposição síria acionada por controle remoto no chamado “Alto Comitê de Negociações”, mostrou e remostrou, desenhado, que nunca quiseram, para começar, encontrar-se com a delegação de Damasco – para quaisquer conversações “próximas” ou distantes, mesmo depois que Washington e Moscou mal e mal concordaram quanto a uma transição de dois anos, que levaria a uma Síria teoricamente secular e não sectária.

O front saudita queria, nada menos, que Ahrar al-Sham, Jaysh al-Islam e toda a Frente al-Nusra, codinome al-Qaeda na Síria e colaboradores, todos à mesa, em Genebra. E foi assim que a farsa de Genebra, mais depressa do que você pronuncia “Estrada para Aleppo”, foi exposta pelo que é: farsa.

E quanto à OTAN, podem esquecer.

MENTOR DE BIN LADEN

O famosíssimo cérebro da inteligência saudita, príncipe Turki, ex-mentor de um tal Osama bin Laden, esteve em Paris para uma ofensiva de ‘relações públicas’, com objetivo de jogar sobre Bashar al-Assad a culpa de toda a tragédia síria.

O cerne da ‘oposição’ síria foi sempre constituído de guerreiros de poltrona cooptados pela CIA durante anos, bem como os irmãos/vassalos/otários da Fraternidade CIA-Muçulmana. Muitos desses personagens preferem as alegrias de Paris à vida dura que os espera em solo sírio. Agora a ‘oposição’ é, basicamente, um amontoado de senhores da guerra que, ao preço de umas garrafas d’água, fazem o que a Casa de Saud lhes diz que façam – sem nenhuma consideração ao que digam os engravatados ex-ministros do Partido Ba’ath, selecionados a dedo para serem a cara da oposição aos olhos da mídia-empresa ocidental que engole qualquer coisa.

Enquanto isso, os “4+1” – Rússia, Síria, Irã, Iraque, plus o Hezbollah – estão agora colecionando vitórias em matéria de fatos em campo. A novidade determinante: não haverá ‘mudança de regime’ em Damasco. Mas ninguém ainda levou a notícia aos turcos e sauditas.

ERDOGAN SE DESESPERA

O ‘sultão’ Erdogan braceja num mar de desespero. Continua a amputar todas as graves questões em jogo, tentando que caibam dentro da guerra particular dele contra o PYD – a organização guarda-chuva dos curdos sírios – e o YPG (Unidades de Proteção do Povo, braço militar dos curdos sírios). Erdogan e o primeiro-ministro Davutoglu queriam o PYD/YPG não só banido de Genebra, mas, isso sim, esmagados em campo, porque para eles. os PYD/YPG, são “terroristas” aliados do PKK.

Mas… e o que fará o ‘sultão’ Erdogan? Desafiar os jatos de combate Sukhoi Su-35Ss – que já chegam matando de medo todos os “Dr. Fantásticos” da OTAN? A Força Aérea turca ordenando “alerta laranja” em suas bases pode, no máximo, meter medo num proverbial cão errante que passe por ali. O mesmo se aplica ao decorativo secretário-geral da OTAN, Jens Stoltenberg, implorando que a Rússia “aja com responsabilidade e total respeito ao espaço aéreo”.

MOSCOU NO ATAQUE

Moscou vai à caça dos turcomenos sem dó, e ao mesmo tempo garante apoio aéreo ao PYD a oeste do Eufrates. É quando acerta o coração de copas do ‘Sultão’; afinal, Erdogan ameaçou incontáveis vezes que qualquer avanço do PYD/YPG a oeste do Eufrates infringiria linha vermelha absoluta.

Uma OTAN já gaga de medo não apoiará a loucura de uma guerra de Erdogan contra a Rússia – por mais que neoconservadores dos EUA e Grã-Bretanha anseiem por esse apoio. As decisões da OTAN têm de ser tomadas por unanimidade, e a última coisa que Alemanha e França querem é mais uma guerra no sudoeste asiático. A OTAN pode dispor dos velhos mísseis Patriot na Anatólia sul e os velhos AWACs para apoiar a força aérea da Turquia. Mas é só.

Pegue aí a mudança de regime que mais lhe apraza. O Estado Islâmico (ISIS/ISIL/Daesh), enquanto isso, continua a aproveitar-se de sua rodovia jihadista privada através dos 98 quilômetros da fronteira turco/síria, especialmente em Jarablus e Al Rai, através de Gaziantep e Kilis, na Turquia.

Aproveitando a dica de Israel, Ankara está construindo um muro – 3,6 m de altura, 2,5 m de largura – cobrindo o trecho entre Elbeyli e Kilis, essencialmente para finalidades de propaganda, porque a Rodovia Jihadista continua aberta para todas as finalidades práticas, embora as Forças Armadas Turcas vez ou outra prendam algum atravessador (sempre libertado em seguida). Aqui estamos falando de contrabando monstro, contrabandistas ‘regulares’ e soldados. Cerca de US$ 300 trocam de mãos todas as noites por cabeça que atravessa a fronteira para a Síria, e qualquer oficial turco pode ganhar ali coisa como US$ 2.500 só para olhar para o outro lado por alguns minutos.

“GUERRA DO TERROR”

A verdadeira pergunta é por que Gaziantep não está sob toque de recolher imposto por Ancara, com milhares de Forças Especiais Turcas por ali lutando, na verdade, bem ali, uma “guerra ao terror”, como Bush simulava. Por quê? Porque Ancara e as autoridades locais não podem dar nem alguma mínima bola para o negócio ali: a verdadeira prioridade é a guerra de Erdogan contra os curdos.

Isso nos leva ao poder de alavancagem que o ‘Sultão’ possa a ter nesse momento. De Bruxelas a Berlin, até mentes confiáveis já estão em pânico ante o risco de a União Europeia estar, isso sim, presa como refém da “prioridade” curda de Erdogan – com Ancara fazendo praticamente nada para combater o tráfico massivo de migrantes refugiados.

Quando Davutoglu esteve recentemente em Berlim, não apenas nada prometeu: ele reafirmou a ameaça de Erdogan, de “aniquilar” os curdos sírios. É o que explica o desespero da chanceler Angela Merkel da Alemanha. Como é possível que a suposta mais poderosa líder política de toda a Europa tenha caído num ardil nu e cru de extorsão? O ‘sultão’ quer montanhas de dinheiro, imensas concessões e até um empurrão para ser admitido na União Europeia. É isso, ou ele não fechará a torneira daquela obscura inundação de refugiados.

Não admira que a máquina da mudança de regime esteja em total frenesi. Em Ancara? Não. Em Berlim.

(artigo enviado pelo jornalista Sergio Caldieri)

Tribuna da Internet