sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

O que significa a vitória de Trump para o Oriente Médio?

Em matéria de política exterior no geral, e sobre o Oriente Médio em particular, Donald Trump, logo depois de eleito o novo presidente dos Estados Unidos, se destacará como um dos homens mais imprevisíveis a ocupar esta posição desde que seu país começou a empregar uma política imperial ultramarina, em finais do século 19.

Durante a campanha eleitoral, Trump se contradisse permanentemente e mudou de posição ou de tom sobre numerosas questões. Se, contudo, é julgado por certos temas chave que repetiu diversas vezes durante o último ano, o que segue é o que se pode adivinhar nestes momentos sobre a forma como sua presidência afetará o Oriente Médio.

O povo sírio será o primeiro a sofrer as consequências desta eleição. As portas dos Estados Unidos serão fechadas para as pessoas refugiadas que queiram tentar se instalar por lá, com exceção, quiçá, dos cristãos na medida que a agitação de Trump contra as pessoas refugiadas sírias está centrada no tema da islamofobia.

Na busca de pôr um fim ao fluxo de refugiados e refugiadas provenientes da Síria, Trump planejou a criação de uma “zona de segurança” nas fronteiras do país, nas quais as pessoas sírias desterradas seriam concentradas em vez de autorizadas a ir para o estrangeiro como refugiadas. Presumiu fazer os Estados do Golfo pagarem por esta operação da mesma forma que pretende fazer com que o México pague o muro que tem intenção de construir na fronteira entre este e o seu país.

Logo, Trump inaugurará uma nova política de amizade e de colaboração com o presidente russo Vladimir Putin, fundada em um acordo com os interesses russos. No Oriente Médio, isto envolve um reconhecimento do papel da Rússia na Síria como positivo, a apoiar o regime de Bashar Al-Assad como representante do mal menor.

Logicamente, implica que os Estados Unidos exijam de seus aliados tradicionais na região que deixem de apoiar a oposição armada síria. Washington apoiará com Moscou um “governo de coalizão” sírio que compreenda membros conciliadores da “oposição”. Isto poderá abrir o caminho a uma colaboração dos Estados Unidos com o regime de Assad em nome da “guerra contra o terror”.

Prosseguindo uma política favorecedora dos “homens fortes” no poder, que compartilha com Putin, Trump tentará melhorar as relações que Washington mantém tanto com o presidente egípcio Abdel Fattah el-Sissi como com o presidente turco Recep Tayyip Erdogan.

Poderia tentar reparar os “pratos quebrados” dos dois homens e persuadi-los de que unam seus esforços contra um “terrorismo” que aceitará a definição de cada presidente, segundo o que considere como terrorismo em seu próprio país.

Na medida em que Trump está disposto a se enfrentar com o Irã e revogar o acordo sobre o tema nuclear negociado pela administração Obama, poderia inclusive tentar seduzir a Arábia Saudita para que se some ao que poderia aparecer como o triângulo sunita de Ancara, Cairo e Riad - apoiado por Washington.

É aí onde reside a principal contradição da visão de Trump para o Oriente Médio (enquanto sua posição hostil a China é a principal incoerência de sua visão global): superar esta visão implica arrastar tanto Moscou como o regime Assad a uma ruptura com Teerã.

Por fim, outro “homem forte” da região cujas relações com Washington melhorarão muito com uma presidência de Trump é Benjamin Netanyahu. Outra vítima direta da eleição de Trump será, portanto, o povo palestino, na medida em que Netanyahu terá as mãos mais livres para “tratar” com eles do que qualquer outro primeiro-ministro israelense desde Ariel Sharon, após os atentados de 11 de setembro de 2001.

Correio da Cidadania

domingo, 20 de novembro de 2016

Racismo no Brasil choca relatora da OEA sobre direitos das mulheres e afrodescendentes

Luciana Araújo – Responsável pela fiscalização do cumprimento das leis e tratados internacionais que regulam os direitos de mulheres e negros nos países integrantes da Organização dos Estados Americanos (OEA), a jamaicana Margarette Macaulay chegou a questionar se o Brasil seria efetivamente uma democracia, diante do nível das violações cometidas contra nacionais, ou permitidas pelas instituições brasileiras por omissão, e que foram relatadas a ela em audiência pública.

Foi encerrada no último dia 30 de setembro a missão oficial da comissária da Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) da Organização dos Estados Americanos (OEA) sobre os Direitos das Mulheres e das Pessoas Afrodescendentes, Margarette May Macaulay. A relatora atua com direitos humanos desde 1966 e já foi juíza da CIDH antes de assumir as relatorias atuais. Mesmo assim, na audiência pública promovida pelo Geledés – Instituto da Mulher Negra em São Paulo, a relatora ficou com os olhos marejados ao menos três vezes durante as duas horas e meia de relatos, em que doze mulheres contaram suas múltiplas experiências de violência institucional e violações de direitos.

Eram em sua maioria vítimas do Estado cujas vidas foram marcadas pelo racismo institucional que lhes tirou os filhos, assassinados por policiais militares. Mas havia também mulheres que romperam o ciclo da violência doméstica, mulheres em situação de rua, vítimas de violência sexual, lésbicas e trans que enfrentam cotidianamente a intersecção das discriminações de raça, gênero e classe social.

Geledés – Instituto da Mulher Negra, Criola e a Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB) realizaram a rodada de audiências públicas com a relatora da OEA para apresentar os dados do Dossiê A Situação dos Direitos Humanos das Mulheres Negras no Brasil: Violências e violações, lançado em agosto. A ação ocorreu em parceria com o Instituto de Raça, Igualdade e Direitos Humanos.

“O mais importante era que ela pudesse visualizar as pessoas que estão por trás dos números apresentados no Dossiê. Essa violência que tem cor, classe, pessoas, dores, sonhos interrompidos”, ressalta Nilza Iraci, coordenadora do Geledés e da AMNB.

A estratégia deu certo: a relatora Margarette Macaulay declarou que foi “muito importante olhar no olho, porque isso dá mais força aos dados e relatos que recebemos”. O Dossiê já havia sido apresentado na OEA em agosto.

Ódio heteronormativo

Lésbica, negra e pobre, Luana Barbosa dos Reis foi espancada por PMs na frente do filho de 14 anos até sofrer politraumatismo craniano, fraturas nas pernas e braços e perder a visão. Luana morreu depois de cinco dias em coma. “Eles ainda forçaram a cabeça do meu sobrinho contra o vidro da viatura para obrigá-lo a ver a mãe apanhando lá dentro”, relatou Roseli, ao relatar as violências cometidas pelos policiais contra a irmã.

As residências de Luana – onde vivem sua mãe, irmã e o filho – e da namorada dela também foram invadidas sem mandado por policiais que afirmavam procurar indícios de envolvimento com o narcotráfico. A jovem foi deixada somente de cueca e top durante o tempo que permaneceu na delegacia, e ainda foi acusada de “agredir” e “desacatar” os policiais que a abordaram, por ter se recusado a ser revistada por homens. “Se ela tivesse sobrevivido, ia ter que responder. Eles obrigaram ela a assinar o termo circunstanciado, apesar de constar lá que ela nega”, protestou Roseli.

Mesmo diante deste quadro o juiz Luiz Augusto Freire Teotônio, da 1ª Vara do Júri de Ribeirão Preto, negou o pedido de prisão temporária dos autores sob a alegação de que não teria havido dolo. O caso foi remetido à Justiça Militar.

O assassinato de Luana consta do Dossiê entregue à relatora da OEA, onde há um capítulo sobre as violações e violências promovidas pelo ódio heteronormativo. “As imagens que revelamos no Dossiê são muito fortes, evidenciam que para os autores não basta o discurso do ódio, é preciso mutilar as vítimas”, explica Nilza Iraci.

Em seu testemunho, a transexual Neon Cunha sintetizou o que a crueldade verificada nos crimes contra mulheres transexuais e travestis revela sobre a sociedade brasileira. “Somos um país que precisou, em 2015, aprovar uma lei de feminicídio. Este é um país misógino, que odeia a mulher, odeia a mulher negra e odeia, acima da mulher negra, a mulher trans. Meu maior crime hoje é que ousei ser mulher”, denunciou.

Neon lembrou que em 1987 a Prefeitura de São Paulo promoveu com a Polícia Civil a operação Tarântula para “limpar as ruas” de travestis e transexuais. A história da Operação Tarântula é contada no premiado documentário “Temporada de Caça”, produzido em 1988 por Rita Moreira.

“Era o extermínio da população de mulheres trans, travestis e transexuais e de homossexuais masculinos”. Ela destacou que hoje, embora de forma não oficial, crimes cometidos por agentes do Estado contra a população LGBT continuam acontecendo, como evidenciam as agressões contra Verônica Bolina quando estava sob custódia prisional. Na audiência, Neon alertou que a omissão das instituições estimula a violência individual contra transexuais e travestis.

Apesar de o país não ter nenhum sistema oficial de monitoramento das mortes violentas relacionadas à lesbofobia, homofobia e transfobia, levantamentos feitos pela ONG Transgender Europe, a partir de material publicado por veículos noticiosos, colocam o Brasil como o país que mais mata a população trans. Desde 2008 a 30 de abril deste ano 845 pessoas trans foram assassinadas no país (42% dos casos em todo o mundo).

Invisíveis entre os invisíveis

Representando outro segmento social de mulheres negras a denunciar sua invisibilidade social, Mara Sobral dos Santos destacou a falta de preparo dos agentes do Estado para lidar com as violações que a população em situação de rua sofre.
 
“Faço parte de um coletivo de mulheres moradoras de rua. Nós não temos estatísticas, não temos B.O., não temos registro. Nós não existimos. Ninguém vai ouvir uma mulher moradora de rua dizer que foi estuprada dentro de uma obra por oito homens. Ninguém ouve uma moradora de rua até porque não nos consideram mulher. Sou uma mulher negra e lésbica e sofro violência todo dia. Acordo três horas da manhã e subo no meu caminhão para trabalhar, mas não posso usar um banheiro na rua porque está sempre ‘quebrado’. Não consigo comer em um restaurante porque estou sempre suja no meu trabalho. E não tenho direito de trocar um absorvente, tenho que subir dentro do caminhão para trocar porque não existe banheiro público para a população de rua”, denunciou.

As mulheres negras e o genocídio da juventude

Vítimas sobreviventes de chacinas promovidas por policiais fora de serviço ou em ações oficiais, seis mulheres relataram o horror de viver em áreas periféricas onde a condição racial é traduzida pelo Estado como sinônimo de suspeita e culpa. Uma delas foi Rosana de Souza, mãe do jovem Douglas Rodrigues,assassinado em novembro de 2013 na Vila Medeiros por um PM e que teve como últimas palavras a pergunta: “Por que o senhor atirou em mim?”.

Também estavam presentes mulheres que integram o Movimento Mães de Maio e outras cujos nomes não são mencionados para preservar a sua segurança e que relataram aos prantos seu sofrimento.
“Eles não mataram só os meninos, crianças, jovens, pobres favelados e periféricos. Mataram também as mães. Nós somos umas mortas vivas”, disse uma delas.

“Nós temos que pedir ajuda fora do Brasil, porque no Brasil não se faz justiça, principalmente para negros. Nós estamos sendo caçados. Principalmente no Estado de São Paulo. Não aguentamos mais. Temos que trazer pessoas de fora para ver nossa realidade. A marcha fúnebre que prossegue em nosso país é encoberta pela mídia, pelos nossos vereadores e deputados. O Brasil é um país genocida, mas não vamos nos calar enquanto a gente não tiver respeito”, frisou Débora Maria da Silva, coordenadora do movimento Mães de Maio, que exige a punição dos responsáveis pela morte de mais de 600 jovens, em sua maioria negros, por policiais militares entre os dias 12 e 19 de maio de 2006, em São Paulo. No ano passado, os chamados crimes de maio foram denunciados à OEA.

A anulação do julgamento dos 74 PMs envolvidos no Massacre do Carandiru – quando 11 presos foram brutalmente assassinados durante uma invasão do presídio de mesmo nome pela tropa de choque após uma rebelião contra as condições subumanas a que eram submetidos os detentos, no dia 2 de outubro de 1992 – também foi lembrada durante a audiência como mais uma violação de direitos eivada de racismo às populações negra e pobre e às mulheres negras. Mães, companheiras, irmãs e demais familiares daqueles homens executados em sua maioria com mais de cinco tiros na nuca e cabeça até hoje esperam que os responsáveis sejam punidos. A filha de uma das vítimas entrou nesta segunda-feira (3) com uma ação contra o Estado de São Paulo em razão das declarações do desembargador Ivan Sartori, relator do caso, de que teria havido “legítima defesa”, conforme noticiou a Agência Ponte Jornalismo.

Vivemos em uma democracia?
“O que está acontecendo neste país? Ainda é uma democracia? Para mim claramente não é, se a polícia age com tamanha crueldade impunemente, sabendo que tem a proteção do Estado! E qualquer governo que permite isso também não é um governo democrático!”
declarou Margarette Macaulay, ao interromper pela primeira vez a sessão para afirmar que é necessário acabar com esse tipo de impunidade.

Sobre o caso de feminicídio cometido por policiais militares contra Luana Barbosa dos Reis, a representante da OEA destacou que a reação da jovem à revista policial foi “completamente legal. Ela tinha o direito de fazer isso. E os juízes ainda dizem que não havia intenção de matar? Que juízes são esses?”, questionou irritada.

O racismo institucional e a Lei Maria da Penha

Em relação aos casos de violência doméstica apresentados, Margarette Macaulay frisou que são produto de uma lógica social que educa os homens a pensarem “que têm a posse física e sexual das mulheres”. O racismo institucional na implementação da Lei 11.340/2006 também foi percebido por Macaulay nos relatos ouvidos nas audiências realizadas em Salvador e no Rio de Janeiro na mesma semana, o que fez a relatora defender que a Corte Interamericana de Direitos Humanos deve questionar o Estado brasileiro acerca do cumprimento das legislações e tratados, bem como da “forma discriminatória” como a Lei Maria da Penha vem sendo aplicada para as mulheres negras.

http://www.geledes.org.br/racismo-no-brasil-choca-relatora-da-oea-sobre-direitos-das-mulheres-e-afrodescendentes/#gs.Js3OoJ0

Controvérsia

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Deputados ameaçados querem inviabilizar a Lava Jato, denuncia Deltan Dallagnol

Flávio Ferreira

Folha


O coordenador da equipe de procuradores da Operação Lava Jato Deltan Dallagnol afirmou que os congressistas ameaçados pelas investigações do caso são aqueles que estão atuando na Câmara dos Deputados para aprovar leis prejudiciais à operação e ao combate contra a corrupção. Em entrevista à TV Folha, Dallagnol explicou como a força-tarefa de procuradores está acompanhando os projetos de lei relacionados à operação e disse que as manobras dos deputados transformaram o trabalho na Lava Jato em um “trem fantasma”.

Dallagnol é um dos mentores do conjunto de propostas do Ministério Público Federal intitulado “Dez medidas contra a corrupção, que se transformou em projeto de lei de iniciativa popular após receber mais de 2 milhões de assinaturas.

Atualmente uma comissão especial da Câmara analisa o tema, sob relatoria de Onyx Lorenzoni (DEM-RS), e deputados estão atuando para modificar o texto original idealizado pelos procuradores da República. Segundo Dallagnol, as tentativas de alteração ameaçam o futuro da Lava Jato.

MUDAR A LEI – “Muitas pessoas que estão sendo investigadas são as pessoas que fazem a lei, e elas podem mudar a lei para nos atacar e mudar a lei para se proteger”, disse.

De acordo com o procurador, é preciso ficar atento às manobras dos deputados. “A gente tem sido surpreendido a cada semana com um risco novo. Trabalhar na Lava Jato se tornou como andar em um trem fantasma. A cada esquina você toma um susto".

Dallagnol afirmou que a principal ameaça foi identificada na semana passada, quando deputados se movimentaram para tentar votar em regime de urgência um texto que poderia levar à extinção de penas e ações criminais em caso de fechamento de acordos de delação premiada entre empresas e o Executivo.

RECUO DO CONGRESSO – Houve reação da força-tarefa e os congressistas recuaram. “O filho era tão feio que ninguém quis dizer quem era o pai daquela criança”, comentou o procurador.

“Essa movimentação não acontece às claras. Quando ficamos sabendo tivemos que tomar um decisão rápida. Ou a gente fazia uma [entrevista] coletiva e firmava posição, ainda sem ter muita clareza do que estava acontecendo, ou podia simplesmente passar esse projeto sem nossa manifestação”, completou.

Dallagnol disse que o Ministério Público tem uma equipe de assessores parlamentares que acompanha os trabalhos no Congresso, mas a sociedade deve pressionar os deputados enviando mensagens e usando as redes sociais para evitar as manobras.

SEM PODER – “Nós procuradores da Lava Jato não temos poder econômico, não temos poder político. A nossa única defesa, o escudo que defende a Lava Jato é a sociedade”, afirmou.

O coordenador da Lava Jato rebateu as críticas de que o Ministério Público tenha adotado a estratégia de transformar a operação em um espetáculo midiático e que a entrevista coletiva para divulgar a denúncia contra o ex-presidente Lula tenha sido um exemplo dessa conduta.

“Não podemos confundir espetacularização com transparência. O que sempre existiu nas coletivas era uma explicação didática, inclusive com esquemas visuais. Isso não se faz para expor ninguém, mas para prestar contas à sociedade”, disse.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – A Operação Abafa não nasceu só no Congresso. Pelo contrário, o próprio Planalto está empenhado nisso desde o governo Dilma Rousseff. Agora, na gestão de Michel Temer, a trama tem prosseguimento com apoio total dos caciques do PMDB, que são os atuais locatários do Planalto. (C.N.)

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Lá vêm os ciganos, viajando na poesia de Raul de Leôni

Paulo Peres

Site Poemas & Canções

 
O advogado e poeta Raul de Leôni (1895-1926), nascido em Petrópolis (RJ), expressa em versos a vida e os costumes dos “Ciganos”. Detalhe: guzla é um tipo de rabeca cigana, de uma corda só.

CIGANOS

Raul de Leôni


Lá vêm os saltimbancos, às dezenas
Levantando a poeira das estradas.
Vêm gemendo bizarras cantilenas,
No tumulto das danças agitadas.


Vêm num rancho faminto e libertino,
Almas estranhas, seres erradios,
Que tem na vida um único destino,
O Destino das aves e dos rios.


Ir mundo a mundo é o único programa,
A disciplina única do bando;
O cigano não crê, erra, não ama,
Se sofre, a sua dor chora cantando.


Nunca pararam desde que nasceram.
São da Espanha, da Pérsia ou da Tartária?
Eles mesmos não sabem; esqueceram
A sua antiga pátria originária…


Quando passam, aldeias, vilarinhos
Maldizem suas almas indefesas,
E a alegria que espalham nos caminhos
É talvez um excesso de tristezas…


Quando acampam de noite, é no relento,
Que vão sonhar seu Sonho aventureiro;
Seu teto é o vácuo azul do Firmamento,
Lar? o lar do cigano é o mundo inteiro.


Às vezes, em vigílias ambulantes,
A noite em fora, entre canções dalmatas,
Vão seguindo ao luar, vão delirantes,
Alados no langor das serenatas.


Gemem guzlas e vibram castanholas,
E este rumor de errantes cavatinas
Lembra coisas das terras espanholas,
Nas saudades das terras levantinas.


E, então, seus vultos tredos envolvidos
Em vestes rotas, sórdidas, imundas.
Vão passando por ermos esquecidos,
Como um grupo de sombras vagabundas.


Lá vem os saltimbancos, às dezenas,
Levantando a poeira das estradas,
Vêm gemendo bizarras cantilenas,
No tumulto das danças agitadas.


Povo sem Fé, sem Deus e sem Bandeira!
Todos o temem como horrível gente,
Mas ele na existência aventureira,
Ri-se do medo alheio, indiferente.


E, livres como o Vento e a Luz volante,
Sob a aparência de Infelicidade,
Realizam, na sua vida errante,
O poema da eterna Liberdade.


Tribuna da Internet