The Blogger

domingo, 13 de julho de 2014

Para a história! Alemanha é tetra no Maracanã com gol na prorrogação!

Mário Götze sai do banco e faz o único gol do tetracampeonato alemão, para delírio de torcedores brasileiros e frustração dos argentinos no Rio

por Alexandre Alliatti

A maluquice é pensar que não temos vaga ideia do que fazíamos em 3 de junho de 1992, quando pela primeira vez Mario, mais um recém-nascido qualquer a chorar num hospital qualquer da Alemanha, viu a luz. Dada nossa sina de marionetes do tempo, estávamos indiferentes à história que começava a ser costurada – lavávamos louça, víamos novela, reclamávamos do centroavante tosco de nosso time, discutíamos futebol com nosso pai, aquela figura de rugas desenhadas também pela dor e pela glória que o futebol tanto nos dá. Não podíamos imaginar o que aconteceria tanto tempo depois, naquele inalcançável 13 de julho de 2014, naquele futuro domingo de sol no Maracanã, naquele instante precioso em que o pequeno Mario, o gigante Mario Götze, com apenas 22 anos e uma eternidade pela frente, receberia de Schürrle aos oito minutos do segundo tempo da prorrogação, dominaria no peito e desviaria para o gol. Não podíamos calcular que surgia o protagonista da vitória por 1 a 0 na final, o sujeito que evitaria uma festa da Argentina no Maracanã, o atleta que tornaria a Alemanha tetracampeã mundial de futebol!

G1 

terça-feira, 8 de julho de 2014

Brasil sofre goleada da Alemanha em vexame histórico e disputará 3º lugar


Daqui a 10, 20, 50 anos, dirão aos brasileiros que a Seleção, lá atrás em 2014, perdeu uma semifinal de Copa do Mundo para a Alemanha, em casa, por 7 a 1. Esse texto é para quem era garotinho ou nem sequer havia nascido na época. Tomara que o encontrem na internet e tentem entender o que nenhuma palavra pôde explicar aos que estiveram no Mineirão, em Belo Horizonte, ou aos 200 milhões que viram, de alguma forma, o massacre imposto por uma das grandes equipes daqueles tempos a um time absolutamente entregue à pressão e à ausência do craque Neymar.

Neymar era o melhor jogador daquela geração brasileira, mas teve uma vértebra fraturada nas quartas de final, contra a Colômbia, numa joelhada de Zuñiga. O Mineirão, na tarde de 8 de julho, não viu o atacante, mas viu Miroslav Klose chegar a 16 gols e bater o recorde de Ronaldo como maior artilheiro das Copas. Viu Schweinsteiger, Khedira, Kroos, Özil e Müller, em exibições exuberantes, decretarem a maior humilhação brasileira na história do torneio, em atuação abaixo da mais destrutiva das críticas.

Torcida Brasil Mineirão (Foto: Eduardo Nicolau / Agência estado) 

Menino chora muito e ganha um beijo no rosto: tristeza histórica (Foto: Eduardo Nicolau / Agência Estado)
Aquela Seleção disputou o Mundial sob o peso de se livrar do fantasma do Maracanazo. Sim, há mais tempo ainda, em 1950, o Uruguai quebrou o favoritismo brasileiro na final da Copa e venceu por 2 a 1. Os jogadores daquele time, simbolizados pelo goleiro Barbosa, jamais se livraram da tragédia. O “Mineirazo” de 2014 soa como um pedido oficial de desculpas aos vice-campeões do mundo.

Luiz Felipe Scolari era o técnico. Com o respaldo de três semifinais em três Copas disputadas e do pentacampeonato conquistado em 2002. A escolha dele por Bernard, menor e mais novo jogador daquele grupo, para substituir Neymar mostrou-se equivocada, embora seja impossível atribuir a isso a diferença entre os dois times. Nem se uma equipe profissional jogasse com 10 durante 90 minutos seria tão fragilizada.


Não se sabe se o Brasil do futuro será diferente, mas aquele de 2014 mostrou durante toda a Copa do Mundo, fragmentos de despreparo técnico, tático e emocional. Reclamavam quando se falava em “Neymardependência”, mas estar em campo naquele time, olhar para o lado e não acha-lo, mostrou-se um fardo pesado demais para as limitações dos companheiros.

Nessa tarde histórica, a Alemanha classificou-se para a final contra Argentina ou Holanda, que disputam a outra semifinal no dia seguinte. O perdedor do jogo de São Paulo enfrenta o Brasil, sábado, na capital federal, pelo terceiro lugar. Uma posição que poderia ser honrosa, mas que a Seleção tornou vexatória.


Fernandinho lamentando jogo Brasil x Alemanha (Foto: AP) 

Fernandinho se pendura na rede depois de mais um gol da Alemanha: maior vexame da Copa (Foto: AP)
5 a 0 em 18 minutos

Julio Cesar e David Luiz com a camisa do Neymar na hora do hino (Foto: Jefferson Bernardes / VIPCOMM) 

Julio César e David Luiz com a camisa de Neymar
no hino (Foto: Jefferson Bernardes / VIPCOMM)
Em 2014, a Fifa tinha um tempo limite para a execução dos hinos. O brasileiro era cortado pela metade, mas a torcida nos estádios segurava o canto durante toda a primeira parte. Os alemães ouviram o brado mais retumbante do que nunca. Com a camisa de Neymar nas mãos, David Luiz e Julio César cantaram a plenos pulmões. Um espetáculo tão bonito que até Neuer, goleiraço alemão, aplaudiu de braços erguidos.

Dali para frente, só mesmo os europeus mereceram palmas. Vestidos com um uniforme que fazia referência ao Flamengo, eles demoraram mais de três minutos para terem a bola dominada no campo de ataque e passaram os outros 42 fazendo o que queriam.

Klose comemoração Brasil x Alemanha (Foto: Getty Images) 

Recordista: Klose comemora 16º gol em Copas, um à mais que Ronaldo (Foto: Getty Images)
Em 18 minutos, a Alemanha fez cinco gols. É verdade. Müller, o gol histórico de Klose, duas vezes Kroos e Khedira deixaram o país atônito. Eram gols de tabelas, toques rápidos, de uma seleção que jogava por controle remoto contra outra de chumbo nos pés. Numa rara tentativa de ataque do Brasil, Bernard, 1,66m de altura, trombou em Neuer, 1,93m. Metáfora perfeita da diferença entre os dois lados.

As lágrimas tão polêmicas dos olhos dos jogadores brasileiros já eram vistas na arquibancada, nas crianças, nos adultos, numa geração que não mais precisaria ler sobre o Maracanazo depois de viver aquela tarde. Vaias, ofensas e policiais correndo para todos os lados, inibindo brigas, foram o retrato melancólico do fim do primeiro tempo.


Precisava ter?

Felipão trocou Hulk e Fernandinho por Ramires e Paulinho. Certamente para impedir um desastre maior e sem esperança alguma de empate. Como seria disputar 45 minutos sabendo que não havia mais nada a fazer? O Brasil, teve, ao menos, um início digno.


Neuer fez quatro ótimas defesas em conclusões de Ramires, Oscar e duas de Paulinho. O chute sem qualquer força de Fred, centroavante de apenas um gol na Copa até a semifinal, desencadeou a revolta do público. No banco estava Jô, atacante do Atlético-MG, mas em quem Felipão demonstrou não ter a menor confiança para mudar qualquer cenário.

O meia Willian já estava à beira do campo para substituir Fred quando viu a Alemanha, no ritmo dos leves treinos que marcaram toda a preparação brasileira durante a Copa, já se poupando para a final, marcar o sexto: Schürrle, parceiro de Willian no Chelsea. Sob qualquer ótica havia um requinte de crueldade.

 Andre Schuerrle gol Alemanha jogo Brasil (Foto: Reuters) 

Schürrle comemora o sexto gol sobre o Brasil, enquanto Julio César lamenta (Foto: Reuters)
Se o centroavante brasileiro foi vaiado até quando apareceu no telão, o alemão saiu aplaudido por quem vestia amarelo. O Mineirão reverenciou o histórico Klose. Justo.

Schürrle ainda fez outro, o mais bonito da partida. E sobrou a Oscar balançar a rede para o Brasil, aos 45. O gol do fiapo de honra que sobrou à Seleção.

Andre Schuerrle comemoração jogo Brasil x Alemanha (Foto: André Durão / Globoesporte.com) 

Schurrle comemora, e Julio César engatinha para longe da meta (Foto: André Durão / Globoesporte.com) 
Devem dizer até hoje, tempo em que você pesquisou esse texto na internet, que seria diferente com Neymar e Thiago Silva, grande zagueiro, capitão que estava suspenso. É possível que fosse mesmo. Mas se Barbosa sofreu por tanto tempo, esses 23 jogadores e essa comissão técnica serão lembrados para sempre como protagonistas de uma humilhação sem igual. Ou coadjuvantes, se quisermos valorizar ainda mais o timaço alemão. Uma geração que vinha de duas eliminações em semifinais – uma delas em casa, porém com luta e hombridade – e persegue o título com afinco.
A Alemanha, que já havia jogado bola com índios, cavalgado, caminhado na orla e cantado hinos dos clubes brasileiros, segue levando a Copa como uma "brincadeira". Pode ser que o destino dessa jovem geração do Brasil reserve glórias semelhantes, mas se livrar do 8 de julho de 2014, que terminou com gritos de olé dos brasileiros para a Alemanha, será tarefa inglória.

G1

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Mais de 50 milhões foram forçados a deixar suas casas, diz ONU

Crianças somam a metade desse total; sírios respondem pela maioria dos 2,5 milhões de novos refugiados no ano passado

Mais de 50 milhões de pessoas foram forçadas a deixar suas casas em todo o mundo no ano passado, o maior número desde a Segunda Guerra Mundial, à medida que fugiam de crises da Síria ao Sudão do Sul, disse a agência de refugiados da Organização das Nações Unidas (Acnur) nesta sexta-feira. 

Metade é formada por crianças, muitas delas envolvidas no meio dos conflitos e em perseguições que as potências mundiais foram incapazes de prevenir ou encerrar, disse o Acnur em seu relatório anual de tendências globais. 

“Estamos realmente enfrentando um salto quântico, um enorme aumento de deslocamento forçado em nosso mundo”, disse o Alto Comissário das Nações Unidas para Refugiados, António Guterres, em uma coletiva de imprensa. 

O número total de 51,2 milhões de pessoas desalojadas representa um aumento de 6 milhões em relação ao ano anterior. Eles incluem 16,7 milhões de refugiados e 33,3 milhões de deslocados em seus próprios países, e 1,2 milhão de pessoas que pedem asilo, com pedidos ainda pendentes.
Sírios fugindo dos conflitos de seu país responderam pela maioria dos 2,5 milhões de novos refugiados no ano passado, disse o Acnur. 

No geral, quase 3 milhões de sírios cruzaram a fronteira para dentro do Líbano, Turquia, Iraque e Jordânia, enquanto outros 6,5 milhões permanecem deslocados dentro das fronteiras da Síria.
“Estamos vendo aqui os imensos custos de não encerrar a guerra, ou fracassar em resolver ou prevenir conflitos”, disse Guterres. “Vemos o Conselho de Segurança paralisado em muitas crises cruciais no mundo”.

Conflitos que emergiram neste ano na República Centro-Africana, Ucrânia e Iraque estão retirando mais famílias de suas casas, disse ele, aumentado o medo de um êxodo em massa de refugiados iraquianos. 

“Uma multiplicação de novas crises, e ao mesmo tempo velhas crises que nunca parecem morrer”, acrescentou. 

Cidadãos afegãos, sírios e somalis responderam por 53 por cento dos 11,7 milhões de refugiados sob responsabilidade do Acnur. Cinco milhões de palestinos são cuidados pela agência da ONU, a UNRWA. 

A maioria dos refugiados encontrou abrigo em países em desenvolvimento, contrariando o mito divulgado por alguns políticos populistas no Ocidente de que seus Estados estavam sendo inundados por essas pessoas deslocadas, disse Guterres. 

“Geralmente no debate no mundo desenvolvido há essa ideia de que os refugiados estão todos fugindo para o norte e que o objetivo não é exatamente encontrar proteção, mas sim uma melhor vida”, afirmou. “A verdade é que 86 por cento dos refugiados do mundo vivem no mundo em desenvolvimento”.

Reuters/Estadão

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Fifa World Cup 2014

O material jornalístico produzido pelo Estadão é protegido por lei. Para compartilhar este conteúdo, utilize o link:http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,temos-copa-imp-,1510531

sábado, 17 de maio de 2014

Mais de 2,7 bilhões vivem em países onde ser gay é crime

LONDRES - Cerca de 2,79 bilhões de pessoas vivem em países onde ser gay gera punições como prisões, chicotadas e até morte, mostra pesquisa da Associação Internacional de Gays e Lésbicas (Ilga, na sigla em inglês). O número é sete vezes maior que a população residente em lugares onde é permitido o casamento entre pessoas do mesmo sexo, aponta o relatório, divulgado pelo jornal britânico "The Guardian".

De acordo com o estudo, não há sequer um país em que homossexuais tenham os mesmos direitos legais que heterossexuais. Segundo o levantamento, são cinco os países em que há pena de morte para a homossexualidade: Irã, Mauritânia, Sudão, Arábia Saudita e Iémen. Outros 71 punem gays e lésbicas com prisão e punição corporal.

A Ilga destaca também progressos conquistados pelos grupos em defesa dos direitos LGBT. Mais de 1,3 bilhão mora em países em que há proteção legal contra discriminação contra gays e lésbicas.

- Está se tornando cada vez mais importante encontrar recursos humanos e financeiros para iniciar um exercício de mapeamento em relação à violência baseada em orientação sexual e identidade de gênero, com o fato de que um país adotar uma legislação progressista não é uma garantia de que a vida dos LGBTI (LGBT mais intersexuais) que vivem nele vai melhorar ou deixar de experimentar discriminação e violência - afirmou Renato Sabbadini, diretor-executivo da Ilga, ao jornal britânico.

Dia Internacional contra Homofobia é celebrado neste sábado
O Dia Internacional contra a Homofobia e Transfobia é comemorado neste sábado, 17 de maio. A data marca o dia em que a homossexualidade foi excluída da lista de doenças mentais pela Organização Mundial da Saúde, em 1990. Nesta sexta, a Anistia Internacional divulgou comunicado analisando a ocorrência de casos de intolerância em vários países. “Os governos de todo o mundo precisam intensificar e cumprir sua responsabilidade de permitir que as pessoas se expressem, protegidos da violência homofóbica”, informa o texto.

A publicação destaca países nos quais houve aumento da homofobia nos últimos anos, como a Rússia. A situação dos países africanos também tem chamado atenção da organização. No Brasil, apesar de as agressões e a violência que a população LGBT é vítima, chegando a 300 assassinatos por ano, segundo a Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), Santoro afirma que a legislação melhorou nos últimos anos.

- A gente teve a decisão do Supremo legalizando o casamento de pessoas do mesmo sexo, que é uma decisão muito importante, pois coloca o Brasil numa vanguarda de países que adotaram esse tipo de lei. Tivemos várias decisões de tribunais superiores concedendo benefícios de saúde e de previdência para parceiros em relacionamentos homossexuais, antes mesmo do casamento ser aprovado - aponta o assessor de direitos humanos da Anistia Internacional, Maurício Santoro.

Para melhorar o cenário, a Anistia Internacional propõe leis mais duras para combater a homofobia no Brasil, além da discussão e melhor aceitação do tema dentro das escolas e pelas forças de segurança. No âmbito internacional, a campanha da entidade estimula que as pessoas assinem petições e enviem cartas para os governantes.

A sede da Anistia Internacional no Rio recebe, neste sábado, o projeto "Eu Te Desafio a Me Amar". A mostra terá filme e exposição fotográfica da artista Diana Blok, que registrou artistas, militantes e personalidades políticas LGBT. 

Os visitantes também poderão participar de debate sobre o tema "Liberdade de expressão e direitos humanos de minorias sexuais", às 16h, com a participação do diretor-executivo da Anistia Internacional Brasil, Atila Roque, do cônsul da Holanda no Rio de Janeiro, Arjen Uijterlinde, da diretora de Comunicações do Comitê International Day Against Homophobia and Transphobia, Claire House, da coordenadora do Observatório de Sexualidade e Política, Sônia Correa, e do pesquisador Benjamin Neves. O vídeo "Eu te desafio a me amar" será exibido às 19h30, seguido de conversa com a diretora e fotógrafa Diana Blok e outros participantes do projeto. A sede da Anistia Internacional Brasil está localizada na Praça São Salvador, em Laranjeiras, zona sul do Rio.

O GLOBO/AGÊNCIA BRASIL

Homofobia faz 81 transexuais da Paraíba pedirem mudança no prenome

Por conta da homofobia, 81 pessoas deram entrada em ações na Justiça da Paraíba em 2013 para modificar o nome de nascimento para o correspondente à identidade de gênero, de acordo com o assessor jurídico do Centro de Referência dos Direitos LGBT, Ricardo Mororó. Até 2012, a Paraíba era considerado o quarto estado no ranking de estados com casos de homofobia, segundo o Grupo Gay da Bahia. Neste sábado, dia 17 de maio, se celebra o Dia Internacional de Combate à Homofobia.
Exausta por receber xingamentos e insultos, a estilista e militante social, Carolina Almeida, é uma dessas pessoas que decidiram se valer de um direito previsto na legislação brasileira: trocar o prenome por conta dos inúmeros constrangimentos enfrentados ao utilizar os serviços públicos e em estabelecimentos comerciais.
Em 2013, a Delegacia Especializada em Repressão aos Crimes Homofóbicos de João Pessoa abriu 16 inquéritos. Apenas em 2013, no Centro de Referência dos Direitos de LGBT e combate à homofobia da Paraíba, foram realizados 40 atendimentos em decorrência de homofobia. Vinte casos foram de atos homofóbicos, 14 contra lésbicas e seis deles de transfobia, comportamentos discriminatórios contra transexuais.
Esse quadro de violência é apontado como a principal razão para o desejo de mudar de nome. Das 81 soliticações de mudança do prenome registradas nas Paraíba, 70 foram de mulheres trans e 11 de homens trans. O Espaço LGBT conseguiu ajuizar 40 ações, sendo 36 ações de mulheres transexuais e outras quatro de homens transexuais. Desse total, 15 foram encerradas com a troca do prenome de travestis e transexuais.
Carolina Almeida explicou que a homofobia faz parte de seu cotidiano desde a infância. A  primeira e mais marcante ação de homofobia que sofreu foi na ambiente familiar. “Ouvi muito 'você não é menina' e aos 7 anos meu pai raspou as minhas unhas com lâmina. Meu mundo sempre foi feminino e cheguei a perguntar muito à minha mãe porque não tinha nascido menina", diz.
Mais recentemente, de posse do Cartão do SUS, Carolina Almeida precisou utilizar a rede de atenção pública e sentiu mais uma vez 'na pele' o constrangimento. “Chegando lá, o profissional disse que iria me tratar pelo nome que estivesse no documento e passou a me insultar. Por conta dissom vou acionar o Conselho Regional de Medicina”,  contou.
Carolina morou em São Paulo, Rio de Janeiro e Espanha e avalia que a Paraíba é um dos lugares mais homofóbicos por onde passou, especialmente considerando o comportamento das pessoas que têm baixa formação. Autodidata sobre os assuntos relacionados à sexualidade, Carolina Almeida fez da leitura por curiosidade uma importante ferramenta para combater a discriminação ao reinvindicar seus direitos.
“Existe um preconceito muto grande no mercado de trabalho. Trabalhei anos em São Paulo, mas para trabalhar mantinha um visual mais andrógino. Mas em São Paulo me tratavam como 'ela'. Aqui [na Paraíba] eu fico explicando por que devem me chamar pelo gênero feminino”, disse.
G1

sábado, 10 de maio de 2014

Desigualdade nos EUA atinge maior nível em um século

WASHINGTON — Quando um calhamaço de 600 páginas intitulado "O capital no século XXI" tem lançamento antecipado no maior mercado editorial do mundo, se instala na lista de mais vendidos do principal diário nacional, esgota a edição e provoca debates fora da academia, deve ter algo errado. E, nos EUA, este é o caso. O sucesso estrondoso do livro do economista francês Thomas Piketty —no qual a concentração de riqueza é descrita como produto intrínseco ao capitalismo — é evidência de que ficou impossível ignorar a disparidade de renda entre ricos e pobres nos EUA, país que um dia traduziu o sonho da igualdade de oportunidades e de mobilidade social para todos. O alarme, ainda circunscrito a círculos progressistas, soa num momento grave: a desigualdade de renda atingiu o maior patamar em um século e cresce sem parar desde 1979.

Piketty, professor da Escola de Economia de Paris, é um dos organizadores do World Top Incomes Database, banco de dados que investiga a evolução da distribuição de renda em mais de 30 países. O trabalho começou pelos EUA em 2003. O parceiro de investigação do francês, o economista Emmanuel Saez, da Universidade de Berkeley, atualizou os números, e chegou à seguinte conclusão: "A fatia da renda apropriada pelos 10% mais ricos nos EUA em 2012 é igual a 50,4%, a mais elevada desde 1917, quando a série começa".

A concentração é maior na comparação entre os 99% na base e o 1% no topo da pirâmide, que fica com 22,5% — distinção que o movimento Ocupem Wall Street ressaltou em protestos. Segundo Saez, de 1993 a 2012, a renda média real dos 99% cresceu 0,34% anual, enquanto a do 1% subiu 3,3% ao ano, dez vezes mais. Com isso, se apropriou de dois terços da riqueza gerada.

Piketty, Saez e o jornalista Timothy Noah (autor do livro-sensação de 2012, "A grande divergência") atribuem a uma perversa combinação de eventos e políticas desde a década de 1950 a responsabilidade pelo avanço implacável da desigualdade, após mais de 30 anos de descompressão que produziu a grande classe média americana. E o ponto de partida, por incrível que pareça, é o mercado de trabalho.

MERCADO DE TRABALHO

O topo da pirâmide não é composto somente pelos rentistas — o pessoal que vive de dividendos, juros, terra e imóveis acumulados por gerações. Duas guerras mundiais e a Grande Depressão iniciada em 1929, que levaram a mudanças como forte taxação dos ricos, dilapidaram parte da elite, no conceito tradicional até o início do século XX. É a renda do trabalho — incluídos salários, opções de ações, sociedade em microempresas, participações no negócio dos empregadores e trabalho por conta própria — o principal componente da riqueza e de sua concentração nos EUA, nas últimas décadas.

— Quem mais ganha hoje não são os rentistas, cuja renda deriva da riqueza passada, mas os "ricos que trabalham", empregados superbem pagos ou novos empreendedores que ainda não acumularam fortunas comparáveis às do início do século XX. Nos últimos 30 anos, o mercado de trabalho tem criado muito mais desigualdade — diz Saez.

Mudanças tecnológicas e a exportação de empregos reduziram a oferta das típicas vagas da classe média americana: operários, profissionais de escritório e vendas, atividades laboratoriais. É o fenômeno da polarização entre postos de alta e baixa qualificação, entre o balcão do McDonald's e os CEOs do Vale do Silício.

À medida em que a transformação se consolidava, a quantidade de mão de obra com formação superior não acompanhou, sobretudo entre homens. Desde 1993, a queda de renda de trabalhadores com ensino médio chega a 16%. Quem não se achou na nova economia aceitou ocupações de baixa qualificação e remuneração, em setores como alimentação, limpeza e cuidados pessoais, cuja oferta foi a que mais se expandiu em 20 anos.

Houve mudanças na remuneração da elite do mercado de trabalho. Executivos de primeira linha ganhavam na década de 1950, em média, 20 vezes mais do que seus subordinados. Hoje, recebem mais de 200 vezes. A "diretoria" das empresas representa 43% dos integrantes do 0,01% mais ricos, a fatia que mais cresceu e mais se apropriou de riqueza nos EUA em 40 anos.

Não é difícil imaginar por que trabalhadores do Walmart há 18 meses realizam greves: o típico colaborador da varejista recebeu menos de US$ 25 mil em 2012, enquanto o ex-CEO Michael Duke embolsou US$ 23 milhões.

Timothy Noah lembra que os sindicatos perderam força desde a aprovação de leis trabalhistas em 1947 e a hostilidade às organizações inaugurada no governo Ronald Reagan. Em 1979, 21% da força de trabalho eram sindicalizados. Hoje, são 12% — considerando-se apenas o setor privado, o indicador cai para 7%. Trabalhadores sindicalizados têm salários entre 10% e 30% maiores e mais benefícios, como cobertura de saúde e de previdência, rara hoje nos EUA no setor privado.

Sem capacidade de barganha coletiva, argumenta Noah, os trabalhadores perderam benefícios — 80% das companhias ofereciam previdência aos empregados na virada dos anos 80, para só um terço atualmente. A produtividade cresceu 64,8% entre 1979 e 2012, mas os salários dos funcionários sem cargo de chefia subiram só 8,2%, revela o Instituto de Política Econômica.

"Quando pessoas comuns não têm nada a lucrar com o fruto de seu trabalho, mesmo quando há crescimento econômico, a única motivação que elas têm para entregar resultado é o medo de privação. Esta parece ser uma situação perigosa", escreveu Noah, em referência a possíveis tensões políticas e sociais. Para ele, acionistas de empresas vêm se apropriando "do que um dia pertenceu à classe média assalariada".
Outra contribuição à disparidade de renda é a política tributária. A era inaugurada por Reagan é marcada por queda de impostos e aumento de deduções e isenções que beneficiam os mais ricos. Isso inclui taxação de propriedade, de ganhos de capital e de compensações pagas a superexecutivos (bônus de performance e opções de ações). A tributação ficou mais regressiva.

Somando-se tudo pago ao governo, a alíquota efetiva do 0,01% no topo (renda anual superior a US$ 9,1 milhões) recuou de 59,3% em 1979 para 34,7% em 2004, segundo Saez e Piketty. A desregulamentação de Wall Street e a faceta financeira da economia completam o quadro que impulsionou a desigualdade. Esses fatores produziram magnatas no topo da pirâmide, que são 18% do 0,01% mais abastado.

Para especialistas, as causas da disparidade de renda indicam caminhos para corrigi-la, mas dependem de decisões difíceis em meio à polarização política dos EUA. Nem a elevação do salário mínimo, congelado há cinco anos, cria consenso.

A educação aparece com destaque no rol de iniciativas, tanto no acesso universal à pré-escola quanto em políticas que facilitem e barateiem o ingresso nas universidades. É recomendável um plano de treinamento de mão de obra, para casar oferta e demanda no mercado de trabalho.

Piketty, Saez e Noah advogam ampla reforma tributária, na qual quanto maior o rendimento, maior o recolhimento. A discussão passaria por mudanças na taxação da folha de pagamento, novas faixas de tributação e alíquotas no topo da pirâmide e revisão de deduções e isenções. O economista francês sugere alíquotas de 80% aos mais ricos (já foi de 90% nos EUA até os anos 1960 e era de 70% quando Reagan assumiu; hoje, está em 35%).

Sem ação contundente, corre-se o risco, eles concluem, de que a acumulação de capital no topo da pirâmide faça os EUA voltarem aos tempos em que só era rico quem nascia em berço de ouro e a desigualdade de renda era brutal — com consequências políticas, sociais e econômicas.

O GLOBO

segunda-feira, 28 de abril de 2014

VIOMUNDO # Rodrigo Vianna: Se insistir nos “almoços” com a velha mídia, o PT pode virar a sobremesa

Padilha e o “diálogo” com a imprensa: até onde vão as ilusões petistas?

publicada sábado, 26/04/2014 às 19:33 e atualizada sábado, 26/04/2014 às 19:33

por Rodrigo Vianna, no Escrevinhador, sugestão de Robson Moreno

O PT deveria ter aprendido – com Lula – que esses almoços com representantes da velha mídia não servem pra nada. O então candidato petista foi à sede da “Folha”, em 2002. Lá pelas tantas, o herdeiro do jornal, Otavinho Frias, fez uma insinuação de que Lula não estaria preparado para ser presidente porque não sabia falar inglês. Lula levantou-se e foi embora. O velho Frias (que emprestava carros para torturadores durante a ditadura, mas não era tolo a ponto de confrontar um futuro presidente) saiu andando atrás do candidato, tentando se desculpar pela arrogância do filho.

Lula jamais se vingou dos Frias. Olhou pra frente. Errou? Teve a chance, também, de enterrar a Globo – endividada em 2003. Não avançou nisso. Aliás, presidente eleito, foi para a bancada do “JN” ao lado de Bonner. Alguém imaginaria Brizola, eleito, na bancada do “JN”? Alguns dirão: por isso que Brizola jamais foi presidente. Talvez, tenham razão…

Mas o PT seguiu apanhando e confraternizando-se com a velha mídia. Dilma foi fazer omelete com Ana Maria Braga em 2011. E disse que a questão da Comunicação no Brasil se resolvia com controle remoto.

Haddad, eleito depois de uma campanha em que meios digitais tiveram papel decisivo na capital paulista, mandou dizer pouco antes da posse que Comunicação era um assunto em que não cabia debate sobre políticas públicas. Pôs no cargo de Secretário um jornalista que imagina resolver todos problemas com telefonemas para as redações da “Folha” e “Estadão”. Haddad chegou a dizer que esperava uma “normalização” das relações com a mídia. Foi cozido e fritado por ela.

Padilha começou sua campanha a governador de São Paulo com caravanas pelo interior – transmitidas pela internet. Boa novidade. Mas também adotou a “tática” (!) dos almoços em jornais, pensando em criar (quem sabe) um clima de camaradagem com personagens do quilate dos Mesquita e dos Frias. Recentemente, ouvi de um alto dirigente do PT (foi conversa em off, não posso por isso revelar detalhes) que o partido não abre mão de “dialogar com todos os setores da imprensa” na campanha para o governo de São Paulo.

Sei… Gostaria de saber o que esse petista graúdo acha do “diálogo” estabelecido entre os jornais e Padilha na última semana. Diálogo bastante interessante.

O ex-ministro foi submetido a uma operação de guerra. A tentativa é de abatê-lo em pleno vôo, antes mesmo da campanha começar. Os aliados midiáticos dos tucanos perceberam a fragilidade de Alckmin num momento em que São Paulo está na iminência de ficar sem água por falta de planejamento dos governos do PSDB. No dia em que Padilha iria pra TV falar da seca, os jornais vieram com o ataque coordenado contra o petista.

As manchetes seriam a sobremesa do almoço recente de Padilha com representantes da família Mesquita?

A “Folha”, em sua edição digital, dava grande destaque neste sábado (26/04) para uma certa “opinião de leitor”, que afirmava: “Descoberta da PF é um tiro mortal na candidatura de Padilha”. Vejam, não se trata de análise. Não há informação. É a opinião de um leitor qualquer – que gera manchete no alto da home. Logo abaixo, outra manchete em que PT “nega que possa trocar de candidato”.

Qual diálogo possível? Pra que almoçar ou conversar com essa gente?

O PT segue a legitimar o inimigo. Sim, é disso que se trata. Jornais como “Folha”/”Estadão”/”O Globo” e revistas como a “Veja” são inimigos. São parte do aparato inimigo. Mas, dia sim, dia não, lá estão corajosos ministros petistas a ocupar páginas amarelas, e a se fartar com espaços concedidos pelo inimigo.

Qual nome dar a isso? Oportunismo? Cegueira? Pragmatismo?

Essa prática serve apenas para legitimar aqueles que são hoje a principal ferramenta do campo adversário. Não há meio termo. Ou não deveria haver. Não há ilusão. Ou não deveria haver.

Padilha reagiu até bem na coletiva da última sexta-feira. Mas o PT segue iludido (ou a palavra seria “rendido”) à lógica do “diálogo” com Globos, Folhas e Vejas.

Na verdade, trata-se – talvez – de um sintoma mais grave de rendição…

O partido tem uma base imensa de militantes, setores organizados e movimentos sociais dispostos a um combate aberto. Mas a direção segue na trajetória idêntica à do PS francês ou do PSOE espanhol. É caminho certo para o desastre.

Lula, com a entrevista aos blogueiros, deu a senha de que há outro caminho. Mas a direção petista (com parcas exceções) parece amortecida, rendida.

O que pode salvar o projeto petista e lulista – que apesar de suas limitações (até porque o PT governa em coalizão, e sempre em minoria no Congresso) significou avanços significativos para o país – são essas bases imensas e dispostas ao combate. Gente que nem é filiada ao PT muitas vezes. Mas sabe de que lado está. Essa gente pode pressionar uma direção que parece cada vez menos disposta ao combate.

Andre Vargas, meus caros, foi secretário de Comunicação do PT. Vejam que tipo de prioridade a direção petista dava ao tema. Vargas tentou enganar os incautos com aquele gesto provocativo à frente de Joaquim Barbosa: punho cerrado. Provocação tola, posto que sem correspondência com ações concretas de enfrentamento. Só enganou quem não conhecia os bastidores em que essa geração de “profissionais” petistas se criou.

O social-doleirismo de Vargas é parte desse mesmo quadro de rendição em que se inscrevem as tentativas de “dialogar” com a velha mídia brasileira.

A eleição de 2014 é uma guerra em que não se pode ter ilusões. O outro lado não quer diálogo. Há uma chance (pequena?) de o PT derrotar os tucanos em Minas e São Paulo, e ainda manter o governo federal com Dilma. Por isso, a guerra é tão feia.

Se adotar a tática do “diálogo” com a mídia e os piores inimigos, o PT – em vez de um passo à frente, com vitórias em Estados importantes – pode colher uma derrota definitiva. Os números a apontar liderança folgada de Dilma podem trazer ilusão de uma eleição fácil. Não! Até porque se trava no Brasil apenas parte da guerra – muito maior – pelo futuro do ciclo de governos progressistas na América do Sul.

A velha mídia é sócia dos tucanos num projeto político conservador. O PT – apesar de suas fragilidades e inconsistências crescentes – é a ferramenta disponível para os que lutam por barrar a direita e por aprofundar as reformas sociais no Brasil.

A guerra será aberta e total. Sem ilusões. Sem “diálogo”. Se insistir nos “almoços”, o PT pode virar a sobremesa. Com as cabeças de Dilma/Lula/Padilha/Dirceu e de toda a esquerda servidas na bandeja, e expostas nas manchetes dos jornais e telejornais inimigos nos dias e meses seguintes à eleição.

VIOMUNDO

quinta-feira, 17 de abril de 2014

‘É um modismo’, diz ativista LGBT sobre o movimento dos ‘g0ys’



O americano G0ys.org é o maior portal sobre a comunidade g0y do mundo
Foto: Reprodução
O americano G0ys.org é o maior portal sobre a comunidade g0y do mundo Reprodução
RIO - Dois homens podem se abraçar, se beijar, se masturbar juntos e até praticar sexo oral eventualmente, mas isso não significa que eles são gays. Assim pensam os g0ys (com um zero no lugar do “a”), um grupo surgido nos Estados Unidos em meados da primeira década dos anos 2000 e que vem expandindo sua filosofia pelo mundo, inclusive com muitos adeptos no Brasil. No Facebook, o grupo “Espaço g0y e afins” tem mais de 640 membros.
O site brasileiro “Heterogoy” deixa muito claro que g0y não é gay e explica que “é um heterossexual mais liberal, que não faz sexo com homens, apenas faz brincadeiras sacanas, desde que nesses contatos não ocorra a penetração”, que os participantes do movimento acreditam ser “degradante”. “O termo g0y serve para designar homens que não praticam sexo anal com outros homens”, ressalta outro trecho do site brasileiro.

O grupo, porém, causa polêmica principalmente entre os integrantes do movimento LGBT. Alguns ativistas, como o antropólogo Luiz Mott, fundador do Grupo Gay da Bahia, acreditam que a criação de novas categorias de gênero acaba tirando o foco da luta pelos direitos dos homossexuais.
- Toda diversidade sexual deve ser respeitada. Porém, num país onde um gay ou travesti é assassinado a cada 21 horas, inventar “trocentas” novas identidades de gênero desestrutura o movimento afirmativo dos homossexuais, que ainda estão lutando pela sobrevivência - afirma Mott. - Acho interessante a exploração da sexualidade, mas prefiro estimular que os g0ys se afirmem como gays.

Para o antropólogo, acreditar que só é gay quem pratica sexo anal é um equívoco.

- A homossexualidade não é sinônimo de cópula anal. Alternativas como sexo oral ou masturbação recíproca fazem parte da prática homoerótica desde a Grécia Antiga - explica Mott, que não acredita na perpetuidade dos g0ys. - É um modismo, como as lesbian chics ou os HSH (homens que dizem fazer sexo com outros homens sem se identificar como homossexuais), sendo que essas microidentidades têm um componente homofóbico, pois preconceituosamente identificam o gay como um estereótipo.

Coordenador especial da Diversidade Sexual da Prefeitura do Rio, Carlos Tufvesson concorda com Mott e se mostra surpreso com a necessidade de "catalogar" os desejos sexuais.

- Me espanta esse excesso de rótulos para a sexualidade. Isso, no fundo, tem raiz em um preconceito que liga o gay à feminilidade. Ou a penetração a algo feminino. Para mim, basta que sejam felizes e que curtam suas fantasias, pois quem não dá vazão aos desejos pode se tornar mais um homofóbico que sai por aí matando gays.

“O g0y não é um enrustido”

As regras são bastante claras para definir o pensamento desse grupo. Há alguns mandamentos simples: g0ys não namoram nem se casam com outros g0ys, “têm no máximo uma amizade íntima”, que definem como um “bromance” (contração das palavras em inglês brother - irmão - e romance). 

Eles só se casam com mulheres e não podem se envolver com a comunidade LGBT, além de não permitir qualquer associação com “imagens e clichês do mundo gay”.

- Um g0y é uma pessoa que antes vivia no armário e hoje pode expressar-se de uma forma livre e autêntica, mostrando que não é um enrustido, mas sim um hétero homoafetivo, consciente dos seus limites. É um elo entre héteros e homos - define Claudio LaPaz, autor do blog “Somos G0ys”.

Os sites sobre o movimento ainda trazem algumas referências históricas. O “Heterogoy” conta que o “bromance” mais famoso da história está registrado na Bíblia, no antigo testamento. “Trata-se de David e Jônatas, que, apesar de machões heterossexuais, beijavam-se e choravam juntos, e a profunda amizade, a união e o amor entre os dois era tão intensos que, mesmo naquela época, foram reconhecidos pela sociedade como sendo superiores ao amor que os dois tinham pelas mulheres”. O site americano G0ys.org ainda diz que a relação afetiva natural entre os homens foi corrompida pelo movimento gay, que pratica o sexo anal. Esse comportamento não é tolerado pelos g0ys.

Um dos maiores divulgadores do movimento no Brasil, Master Fratman, que prefere não revelar o verdadeiro nome, tem um discurso bem mais tolerante do que o de alguns sites sobre a fraternidade.

- Uma frase que resume o perfil de um g0y é: um hétero fora da prisão. O comportamento heterossexual se mantêm, porém abrem-se horizontes para a homoafetivadade. Mas não há homofobia - garante Master Fratman. - Não faz o menor sentido chamar um homoafetivo de homofóbico. Queremos justamente quebrar essa luta milenar entre héteros e homos.


Existem também alguns grupos de g0ys homossexuais, que só se relacionam com outros homens sob a condição de nunca realizarem sexo com penetração. Segundo os sites que explicam o conceito, os g0ys homossexuais não se identificam com a comunidade gay nem se comportam “publicamente como sendo um deles”, ignorando a diversidade de comportamentos dos homossexuais. Apesar de afirmarem que não são homofóbicos, os sites que falam sobre o movimento valorizam o “homem másculo” e usam expressões como “viadões” e “bichas pintosas” para se referir à comunidade gay.

“Você já viu a abordagem da mídia sobre a comunidade gay e você não se identifica com aquela imagem e considera muitas das práticas repulsivas. A verdade é que você é um cara que realmente ama a masculinidade e aprecia esses traços em outros homens, enquanto, simultaneamente, considera ações que afeminam os homens nojentas e de mau gosto”, exemplifica o maior portal sobre o assunto, o G0ys.org.

Espaço aberto para g0ys

Chamado de primeiro empreendimento g0y do Brasil, o Rancho Hedônia, na verdade, "um espaço aberto para a diversidade", segundo o dono do estabelecimento, Fabio Franco, e recebe também héteros liberais e g0ys. Só pessoas cadastradas podem entrar no clube, que fica em São José de Ribamar, no Maranhão. Lá rolam festas em que se praticam o nudismo, o voyeurismo e o suingue.

- Recebemos pessoas de todas as diversidades, mas o lugar acabou fazendo sucesso entre a comunidade g0y, justamente porque eles se sentem confortáveis aqui. Não há julgamentos, e as pessoas podem exercer sua sexualidade como bem entenderem. É um lugar de encontro - diz Franco. - Nos últimos meses, a procura do rancho por g0ys tem aumentado bastante.


O GLOBO