segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Os pequenos grandes terremotos que nos abalam, na visão de Affonso Romano

Paulo Peres
Site Poemas & Canções

O jornalista e poeta mineiro Affonso Romano de Sant’Anna, no poema “Assombros”, confessa os abalos que lhe ocorrem, mas que os outros nem percebem.
ASSOMBROS
Affonso Romano de Sant’Anna

Às vezes, pequenos grandes terremotos
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.
Fora, não se dão conta os desatentos.
Entre a aorta e o omoplata rolam
alquebrados sentimentos.
Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.
Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro.


Tribuna da Internet

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Na poesia de Adélia Prado, a coisa mais fina do mundo é o sentimento

Paulo Peres
Site Poemas & Canções

A professora, escritora e poeta mineira Adélia Luzia Prado de Freitas, no poema “Ensinamento”, fala de opiniões e sentimentos.
ENSINAMENTO
Adélia Prado

Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
“Coitado, até essa hora no serviço pesado”.
Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.


Tribuna da Internet

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Buckeye Bathers: 1908

Shorpy

“A vida passa, e eu sem ninguém, e quem me abraça não me quer bem…”

Paulo Peres
Site Poemas & Canções

Os jornalistas, radialistas e compositores pernambucanos Antônio Maria Araújo de Morais (1921-1964) e Fernando de Castro Lobo (1915-1996) relatam na letra de “Ninguém Me Ama”, as desilusões que a falta de um amor acarreta. Este samba-canção foi gravado por Nora Ney  no LP Ninguém Me Ama, em 1960, pela RCA VIctor.

NINGUÉM ME AMA
Antônio Maria e Fernando Lobo
Ninguém me ama
Ninguém me quer
Ninguém me chama
De meu amor
A vida passa
E eu sem ninguém
E quem me abraça
Não me quer bem
Vim pela noite tão longa
De fracasso em fracasso
E hoje, descrente de tudo
Me resta o cansaço
Cansaço da vida
Cansaço de mim
Velhice chegando
E eu chegando ao fim

Tribuna da Internet

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

A curiosa fábrica do poema, criada pela genialidade de Waly Salomão

Paulo Peres
Site Poemas & Canções

O advogado, poeta e compositor baiano Waly Dias Salomão (1943-2003), nos versos de “A Fábrica do Poema”, apresenta um acontecimento dúbio, porque depende do momento em que o poeta criou os versos, que, inclusive, podem ser uma mistura de fantasia com ideologia política.
A FÁBRICA DO POEMA
Waly Salomão

sonho o poema de arquitetura ideal
cuja própria nata de cimento encaixa palavra por
palavra,
tornei-me perito em extrair faíscas das britas
e leite das pedras.
acordo.
e o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo.
acordo.
o prédio, pedra e cal, esvoaça
como um leve papel solto à mercê do vento
e evola-se, cinza de um corpo esvaído
de qualquer sentido.
acordo,
e o poema-miragem se desfaz
desconstruído como se nunca houvera sido.
acordo!
os olhos chumbados
pelo mingau das almas e os ouvidos moucos,
assim é que saio dos sucessivos sonos:
vão-se os anéis de fumo de ópio
e ficam-se os dedos estarrecidos.

sinédoques, catacreses,
metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros
sumidos no sorvedouro.
não deve adiantar grande coisa
permanecer à espreita no topo fantasma
da torre de vigia.
nem a simulação de se afundar no sono.
nem dormir deveras.
pois a questão-chave é:
sob que máscara retornará o recalcado?

(mas eu figuro meu vulto
caminhando até a escrivaninha
e abrindo o caderno de rascunho
onde já se encontra escrito
que a palavra “recalcado” é uma expressão
por demais definida, de sintomatologia cerrada:
assim numa operação de supressão mágica
vou rasurá-la daqui do poema)

pois a questão-chave é:
sob que máscara retornará?


Tribuna da Internet

Up Fifth: 1905

Shorpy

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

A triste realidade do país, na visão da compositora Fátima Guedes

Paulo Peres
Site Poemas & Canções

A cantora e compositora carioca Fátima Guedes, captou e traduziu com sensibilidade profunda, uma triste realidade de nosso país, visto que a letra nos leva a uma triste reflexão sobre a dor, o desamparo e as injustiças sociais praticadas contra milhões de brasileiros. A canção “Mais uma Boca” faz parte do Lp Fátima Guedes, lançado em 1980, pela EMI.

MAIS UMA BOCA
Fátima Guedes

Quem de vocês se chama João?
Eu vim avisar, a mulher dele deu a luz
sozinha no barracão.
E bem antes que a dona adormecesse
o cansaço do seu menino
pediu que avisasse a um João
que bebe nesse bar,
me disse que aqui toda noite
é que ele se embriaga.
Quem de vocês se chama esse pai
que faz que não me escuta?
É o pai de mais uma boca,
o pai de mais uma boca.
Vai correndo ver como ela está feia,
vai ver como está cansada
e teve o seu filho sozinha sem chorar, porque
a dor maior o futuro é quem vai dar.
A dor maior o futuro é quem vai dar.
E pode tratar de ir subindo o morro
que se ela não teve socorro
quem sabe a sua presença
devolve a dona uma ponta de esperança.
Reze a Deus pelo bem dessa criança
pra que ela não acabe como os outros
pra que ela não acabe como todos
pra que ela não acabe como os meus.


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terça-feira, 31 de julho de 2018

Thirst Trap: 1940

Shorpy

Quando a poesia procura, procura, mas só encontra o vazio

Paulo Peres
Site Poemas & Canções

A humanista, pesquisadora, escritora e poeta carioca Vânia Moreira Diniz revela sensações e segredos diante do “Vazio”.
VAZIO
Vânia Moreira Diniz

Contemplo a minha volta e nada vejo,
não enxergo,
tudo parece um grande mistério e rezo,
sem entender os segredos que preservo,
e conservo,
dentro do
meu coração tão vazio.
Não encontro ressonância e me distâncio,
não acho a real certeza e me afasto,
não vejo a luz que direciona e me aparto,
como se nada conhecesse e me arredo.
Sinto a leveza, tento pegar e não consigo,
pressinto a bondade e me aproximo,
não alcanço a sua extensão e choro,
e procuro o ideal que já não creio.
As cores não são do extenso universo,
as dores perduram e triste lamento,
a frieza que se esconde no retiro
de ilusões em que me escondo.

Não quero sentir a saudade do encontro,
das lembranças ocultas atrás do muro
do sonho sempre e sempre revivido
e do passado que se foi no escuro.

Só a nostalgia perene eu vislumbro,
sensação de terna loucura e vazio,
efusões sepultadas no reencontro,
coração para sempre machucado.
Ando e me concentro,
caminho,
o passo é lento,
inseguro
e encontro o vazio.


Tribuna da Internet