Cláudio Lembo
De São Paulo
O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, desenvolveu sua campanha eleitoral a partir de uma frase: "Nós podemos". Queria levantar o orgulho nacional dos norte-americanos em continua queda.
Acreditava-se que, por se tratar do primeiro negro a assumir a presidência daquele País, que o humor de seus cidadãos tomasse impulso e reconduziria os Estados Unidos a sua grandeza econômica e moral.
Não aconteceu, contudo. Os governos - democratas ou republicanos - levaram os americanos a caminhos de difícil retorno, deixando profundas mazelas em milhares de pessoas.
Foi assim na guerra da Coréia. Não diferente no caso do Vietnã, onde a tragédia das drogas devastou as tropas americanas. Pior, ainda, vai se sucedendo no Afeganistão. E grave é a invasão e a ocupação do Iraque.
Todas as intervenções - depois da Segunda Guerra Mundial - foram desastrosas. Agrediram valores de outros povos e levaram a juventude americana a um profundo desconforto.
O futuro da sociedade está sofrendo dilaceração física e moral. As tropas lançadas nas montanhas da Ásia se encontram desconfortavelmente acantonadas.
Combatem um inimigo que já venceu todas as grandes potências e sobrevive graças a uma capacidade única de resistir a todas as adversidades. Naquelas montanhas ocorre uma batalha injustificável.
Não haverá vencedores. As tropas aliadas aos Estados Unidos, como acontece com o contingente americano, sofrem diariamente fortes perdas entre seus jovens integrantes.
As intervenções só produzem sofrimentos nas sociedades agredidas e naquelas que praticam atos de indevida agressão. São guerras injustas, porque respaldadas em causas falsas e, por vezes, indefinidas, especialmente após o fim da União Soviética.
Estas divagações recolhem conteúdo em uma pequena notícia estampada em espaço reduzido em poucos jornais (Folha de S. Paulo, por exemplo). O presidente Obama resolveu enviar telegrama de pesar às famílias dos militares que se suicidam nas frentes asiáticas.
A prática rompe velha tradição das forças armadas norte-americanas. O suicida, de acordo com as práticas militares, assemelha-se a um desertor, salvo quando busca morte voluntária para a preservação de um segredo de guerra.
Agora não. Todo suicida, em serviço, no Iraque e no Afeganistão, passa a ser analisado como um ser que não suportou as agruras das condições impostas pela geografia e pelos naturais dos países ocupados.
O ato do presidente Obama é meritório, mas aponta para uma realidade amarga e produto de mentes egoístas presentes no centro do poder na América.
A visão militarista do governo e dos empresários dos Estados Unidos lança a juventude norte-americana ao desespero. A droga ocupa espaço significativo nas comunidades de jovens. Quando escapam deste flagelo, incorporados às tropas, sentem-se sem perspectivas.
Resta-lhes a saída patética da perda da vida por vontade própria. Perdem o sentido da vida. Esta fica sem objetivo. Rompem-se todos os valores morais.
Uma sociedade profundamente cristã, como a norte-americana, vê no suicídio uma violação da relação das pessoas com Deus. A este pertence à vida concedida e não a seu detentor.
Imagine-se a dor dos familiares ao receberem os telegramas de sentimentos enviados pela Casa Branca. Os suicidas não recebem honras militares. Serão recordados, no entanto, pelo ato de auto-eliminação.
O presidente Obama, que a partir do Rio de Janeiro, decretou ações contra a Líbia, deveria ser mais afirmativo. Ir além dos meros telegramas e informar à Nação a retirada plena das tropas de todos os lugares indevidamente ocupados.
Estaria dando uma demonstração de respeito aos outros povos e de salvaguarda da vida de seus conterrâneos. Aí, sim, poderia proclamar em alto som: Nós podemos.
Cláudio Lembo é advogado e professor universitário. Foi vice-governador do Estado de São Paulo de 2003 a março de 2006, quando assumiu como governador.
TERRA MAGAZINE