segunda-feira, 18 de julho de 2011

A crise só acaba na Europa, EUA e Japão se a dívida mirrar ou com crescimento econômico robusto

A economia privada do Ocidente foi salva. Quem agora pede socorro sem que haja quem possa socorrê-la é a economia pública dos países da velha ordem

Antonio Machado
 
 Os governos da União Européia e dos EUA, endividados até o nariz a maior parte deles e todos com déficits fiscais, travam batalhas que parecem as derradeiras depois de quatro anos de crise, desde que a economia americana entrou em recessão no fim de 2007. O suor na fronte dos governantes, no entanto, camufla a verdade.


 A verdade inconveniente, servindo-se deste jargão ambientalista, é que as finanças soberanas da maioria dos países, da Grécia aos EUA, de Portugal ao Japão, há anos são equilibradas com dívidas financiadas no mercado por fundos alavancados - ou seja, oriundos de outra corrente de dívidas - levantados pelo sistema financeiro num circuito em forma de pirâmide. No vértice superior estão os bancos centrais bombando liquidez. Logo abaixo vem a banca comum e o mercado desregulado dos fundos de hedge e outras nomenclaturas.


 É esta corrente de fabricação de riqueza artificial que a quebra do Banco Lehman Brothers em setembro de 2008 desnudou. No primeiro momento, ficou exposta a ruína dos ativos bancários. Os Tesouros e os bancos centrais dos EUA e da zona do euro – as economias mais abaladas pelo terremoto financeiro - encamparam tais papéis a fim de impedir a quebra seriada da banca e, no momento seguinte, uma depressão planetária. A economia privada do Ocidente foi salva.


 O que está agora pedindo socorro sem que haja quem possa socorrê-la é a economia pública dos países da velha ordem: EUA, os da zona do euro, o Japão, cujo endividamento é anterior à loucura dos anos de maior prosperidade desde a 2ª guerra, e a constelação de astros nacionais que orbitam estas superestrelas. Não há solução fácil.


 A crise mais profunda é a dos passivos sem correspondência com o valor dos ativos que os amparavam nos balanços da banca e da rede de fundos que agem como bancos à sombra do mercado regulado. É o que explica o trauma do mercado imobiliário nos EUA, travado desde que o devedor hipotecário ficou sem conseguir renovar os papagaios e a banca perdeu as fontes de alavancagem.

E é também o que aflige países como Grécia e Portugal, que zeravam seus déficits externos e fiscais, mais o principal e juros da dívida pública, com dívida.


Republicanos insanos


 Está ai o esquema simplificado de uma crise que assume múltiplas formas, mas sempre com a mesma causa: o descasamento entre ativos e passivos. Da banca e dos Tesouros e bancos centrais. No caso de países, ela se revelou insustentável para aqueles que já operavam com déficits externos volumosos, caso dos EUA, que só não foram à breca graças ao dólar e aos papéis do Tesouro, vistos, apesar de tudo, como portos seguros nas ondas de aversão ao risco no mundo.


 É essa vantagem única dos EUA que a miopia do Partido Republicano ameaça com sua oposição ao governo Barack Obama, que cresceu desde que ela se tornou majoritária na Câmara, ele se declarou candidato à reeleição em 2012 e ambos tiveram de negociar o aumento do teto da dívida pública do país. Estima-se que os EUA tenham caixa para cobrir os compromissos internos e externos apenas até 2 de agosto.


De fluxos e estoques


 Ninguém de bom senso cogita os EUA em situação de insolvência. Só que o novo radicalismo dos republicanos não conhece limites, o que torna tudo possível. Mas vamos admitir o melhor – e que a lucidez também ilumine os governos europeus que dão as cartas na zona do euro, sobretudo a Alemanha, permitindo à Grécia (ou Portugal e a Irlanda) rolar toda a dívida a vencer nos próximos anos. E daí?


 Não, não respire aliviado. A crise continuará. E isso porque ela é tratada como se fosse problema de fluxo e não de estoque. Grécia vive do turismo, não tem produção, isto é, estoque, para solver a dívida que assumiu, mesmo cortando gasto, e que cresce quanto mais se endivida por causa dos planos de socorro.


 EUA e Japão estão em melhor situação. Ambos têm o que produzir e vender, esquecendo-se o valor percebido do crédito soberano. Mas não basta ter produção.


Armadilha do Ocidente


 Para que funcione a terapia aplicada, que empilha novas dívidas sobre as dívidas vencidas, o crescimento da economia tem de ser maior que os juros do passivo. No caso da Grécia, segundo estudo do Citibank, a economia tem de crescer 5%/ano para que a relação da dívida sobre o PIB (Produto Interno Bruto) fique estável.


 Irlanda e Itália teriam de crescer 5%. Portugal, 4%. É factível? Não, diz o Citi, já que não cresciam a esse ritmo nem antes da crise. Para complicar, os programas de austeridade vão reduzir o crescimento, que subtrai receita, e a inflação, o que vai onerar o valor devido. A economia do mundo rico está presa nesta armadilha.


O tumor não lancetado


 Como diz o analista inglês Niels Jensen, a austeridade aplicada a uma economia exportadora e competitiva como Alemanha pode mitigar com exportações, e até evitar, a contração do mercado interno.


 É o que os EUA estão tentando, ao forçar a desvalorização do dólar com os tais quantitative easing - o sofisma para emissão monetária que implica o aumento de preço das commodities, graças às quais não há déficit na balança comercial do Brasil. Está tudo conectado.


 Obama tenta tirar os EUA do buraco ativando o crescimento, que na conta dele deveria ser da ordem de 3%/ano. No melhor cenário, será de 2%, mesma projeção do FMI para a zona do euro, onde o quadro é pior. O tumor não lancetado da dívida pública debilita todos eles.


CIDADE BIZ