Comprar caixas de madeira usadas, trocar as ripas quebradas e revendê-las. A simplicidade do trabalho pode esconder sua importância na vida das cerca de 400 pessoas que tiram dele seu sustento, num terreno baldio vizinho e pertencente à Central de Abastecimento do Estado do Rio de Janeiro (Ceasa-RJ), em Irajá. Transferidos para lá em junho do ano passado, os chamados caixoteiros reclamam das condições oferecidas para exercer sua atividade: uma área de terra batida, sem água, esgoto e luz.
A Ceasa representa o sustento de Regina Célia dos Santos Cruz, de 43 anos, há mais de uma década. Antes disso, ela visitava o local somente para catar alimentos para a família, mas notou que havia pessoas que compravam caixas quebradas para revendê-las após o conserto. Resolveu fazer o mesmo.
— No começo, dormia por aqui mesmo. Cheguei a pegar tuberculose por isso. Depois de oito anos, juntei dinheiro para conseguir a minha permissão — conta Regina, que ganhava 50 centavos por caixote revendido. Para juntar R$ 2.500 e obter sua autorização, ela deve ter consertado, no mínimo, cinco mil unidades.
Nessa época, os caixoteiros ocupavam um terreno pavimentado, próximo aos galpões de estocagem de alimentos. A mudança teve como justificativa a instalação do 41 Batalhão da Polícia Militar (BPM) na área da Ceasa e a utilização do espaço da caixotaria para outra finalidade — o que ainda não ocorreu.
O filho de Regina Célia, Felipe Cruz, de 16 anos, repete os passos da mãe, arrastando um burro sem rabo — como é conhecido o carrinho que transporta as caixas — pela lama. Foi assim que ele diz ter ficado com as pernas salpicadas de feridas infecciosas.
Ele ajuda a mãe desde pequeno e enfrenta uma rotina diária que se inicia de madrugada e se estende pelo dia. Diz que está cursando o 1 ano do ensino médio, mas não lembra o nome do colégio:
— É difícil de guardar.
Apesar de tudo, orgulho do ofício
Trabalhar desde pequeno na caixotaria não é exclusividade de Felipe e de seu primo, Cristiano Macedo, também de 16 anos. Muitos começaram bem novos e estão nesse trabalho até hoje, como Luiz Alberto Peçanha, de 38 anos, 28 vividos em torno da Ceasa.
Levado pelo pai à central de abastecimento, Luiz estudou apenas até a antiga 4 série do primário. Com orgulho, ele conta que sustenta sua casa, na favela Para Pedro, em Irajá, com o dinheiro das caixas:
— Meu pai gastou a vida aqui. E eu continuo como caixoteiro, apesar de todos os problemas, porque é a única coisa que sei fazer. Se sair daqui, tenho certeza de que vai ser difícil encontrar outro emprego.
Há 93 permissionários no terreno da Ceasa. A maioria fatura de mil reais a R$ 2 mil, mas há caixoteiros até com carros novos. Cada um conta com, pelo menos, três ajudantes, que ganham cerca de R$ 150 por semana. Após descarregar os alimentos, os agricultores que chegam à Ceasa vendem as caixas quebradas por valores entre R$ 0,30 e R$ 0,50 e compram as consertadas por preços de um real a R$ 1,30.
Problema sanitário
Os valores são módicos, mas não justificam a forma precária como as caixas que abastecem de alimentos a cidade são produzidas e guardadas, não raro, na lama. Os caixoteiros reconhecem o problema e alegam que querem soluciná-lo.
— Por nós, as caixas nunca ficariam na lama — afirma Luiz Peçanha.
Inadimplência e irregularidades
Para o presidente da Ceasa, Leonardo Brandão, a condição em que os caixoteiros estão atualmente é, antes de mais nada, responsabilidade deles mesmos. Pelo contrato com a central, eles deveriam pagar uma taxa de R$ 160 por mês para poderem utilizar o espaço, mas a inadimplência é grande.
— Havia uma dívida antiga da caixotaria, de R$ 1,15 milhão, que foi perdoada. Ainda assim, surgiu outra, que já está em R$ 808 mil — disse Brandão, explicando que o valor representa um acumulado dos últimos seis anos.
— Quando foram transferidos para o atual terreno, deixamos bem claro que caberia a cada um pavimentar sua área de trabalho e instalar água e luz. Não houve enganação.
O caixoteiro José Coutinho, que pretende fundar uma associação dos trabalhadores, afirma que o problema é que as cobranças não são acompanhadas de melhorias:
— Além da taxa da Ceasa, cada permissionário gasta mais R$ 60 por semana com segurança e recolhimento de lixo. Queremos, antes de mais nada, saber dos planos para o dinheiro pago.
Brandão explica que vem tentando o diálogo com os caixoteiros, sem sucesso. Ele diz que prentede regularizar os contratos de permissão:
— Se formos levar as regras à risca, a grande maioria perderia o contrato, até porque eles não podem ser vendidos. Mas sabemos que há a questão social, especialmente no caso dos que trabalham para os caixoteiros.
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