A redução sem precedentes da nota da dívida soberana americana não é uma sanção nem castigo, afirmou Jean-Michel Six, chefe dos economistas da agência de classificação financeira S&P (Standard & Poor's).
"Não se trata de uma sanção, e menos ainda de um castigo. Nós não somos professores de uma escola. Emitimos diagnósticos que permitem comparar a qualidade do crédito. Em outras palavras, o nível de risco dos diversos instrumentos que são colocados no mercado", afirmou Six à rádio France Info.
Na sexta-feira, a S&P retirou dos Estados Unidos a nota máxima de risco de crédito "AAA", concedida pelos emissores de títulos mais confiáveis. Esta decisão não tem precedentes desde a criação da agência em 1941.
Ao ser questionado sobre taxa de endividamento americana, Six respondeu que "não vai baixar rapidamente em todos os casos particulares, já que se trata de uma dívida que supera 100% do PIB, contra 80% na França ou Alemanha".
"Não há dúvida de que é considerável. Não se faz uma proporção semelhante cair de um dia para o outro. Se trata sobretudo de aplicar uma estratégia convincente que considere certo acordo político. É o que sem dúvida faz falta atualmente no panorama político americano", completou Six.
REBAIXAMENTO
A agência de classificação de risco S&P rebaixou a nota da dívida americana para AA+ devido aos riscos políticos e ao peso da dívida americana em relação ao PIB (Produto Interno Bruto).
Mais cedo nesta sexta-feira, já havia rumores de que a nota americana, que era AAA desde 1917, seria rebaixada. Mas a agência teria segurado a divulgação do "downgrade" porque funcionários do Tesouro americano encontraram erros na análise do S&P sobre a receita do governo e a situação do deficit.
Segundo o comunicado, o rebaixamento reflete "nossa opinião [da S&P] que o plano de consolidação orçamentária que o Congresso aprovaou recentemente fica aquém do que, na nossa visão, é necessário para estabilizar a dinâmica do débito do governo a médio prazo".
A disputa entre os partidos --Democrata e Republicano-- sobre a política fiscal americana também deixou a agência pessimista sobre a capacidade dos EUA conter o deficit.
A perspectiva da nova classificação é negativa, afirmou a S&P em comunicado, um sinal de que outro rebaixamento da nota é possível nos próximos 12 a 18 meses.
A nota da dívida americana pode ser rebaixada para "AA" caso haja menos redução de gastos do que o previsto, taxas de juros mais elevadas ou aumento da trajetória da dívida maior do que o esperado.
O rating AAA permitia que o país tomasse emprestado recursos a uma taxa de juros mais baixa, pois governo é considerado estável, e seus títulos são tidos como seguros.
Agora, os títulos do Tesouro dos EUA, uma vez vistos como o investimento mais seguro do mundo, estão classificados abaixo de títulos emitidos por países como Reino Unido, Alemanha, França ou Canadá, conforme a "Reuters".
Em tempos de crise, investidores vendem suas ações em mercados emergentes, como o Brasil, e procuram abrigo em títulos seguros.
RECESSÃO
Ontem, por exemplo, os mercados tiveram um dia bastante nervoso e elevaram o receio de que a economia mundial entre em novo período de recessão. As Bolsas caíram na Ásia, na Europa e nas Américas --a de São Paulo teve um dos piores desempenhos no mundo, perdendo 5,72%, a maior queda desde novembro de 2008.
Por isso, investidores se desfizeram de ações e buscaram proteção no Tesouro americano. Apesar da discussão sobre o calote da dívida americana, os títulos dos EUA continuavam a ser os mais confiáveis, já que não havia outro papel que tivesse a mesma liquidez e outras grandes economias também enfrentam problemas.
O "downgrade" deve empurrar os mercados financeiros globais para um território desconhecido depois de uma semana volátil devido às preocupações sobre a crise da dívida na Europa -- que atinge agora Espanha e Itália -- e sobre a possibilidade de dupla recessão da economia dos EUA.
BOLSAS
Nesta sexta-feira, mais de 15,9 bilhões de papéis trocaram de mãos no dia com maior giro financeiro em mais de um ano, à medida que investidores se voltaram para ações de grandes empresas que haviam desvalorizado nos últimos dias, quando o mercado acionário registrou perdas expressivas.
O intenso movimento de vendas nesta semana reflete a frustração com o lento crescimento econômico e a falta de habilidade de políticos em solucionar os crescentes problemas sobre a alta dívida pública na Europa e Estados Unidos.
Os efeitos reais do rebaixamento só poderão ser sentidos quando as bolsas asiáticas abrirem na segunda-feira no horário local (noite de domingo no Brasil).
Outras agências de rating -- como a Moody's e a Fitch -- decidiram não rebaixar a nota americana. No entanto, alertaram que se os EUA não tomarem medidas adicionais para estagnar o débito, também poderão rebaixar a nota da dívida americana.
FOLHA