Edmilson Lopes Júnior
De Natal (RN)
Quase quarenta anos depois, ainda sinto os cheiros. E os sabores ainda estão guardados na memória. Minha avó paterna, Quitéria Lopes, os trazia consigo. Tinha, então, quase noventa anos, mas a sua presença, além de doces e doçura, trazia uma lufada de paz. Quando ela chegava, sabíamos os (netos) filhos, não eram apenas guloseimas que ganhávamos. Era também um tempo de paz e tranquilidade na nossa casa. Por isso, suas visitas eram esperadas com ansiedade.
Corcunda, voz mansa e uma energia irradiante. Além da boa mão para os doces. Muito particularmente "espécie", uma iguaria feita com rapadura e gergelim. Vó Quiterinha, como a chamávamos, convertera-se ao protestantismo no início do século XX. Ela e o meu avô constituíram um dos primeiros núcleos familiares de "crentes" na região do médio oeste do Rio Grande do Norte. E, por isso, pagaram tributos à intolerância religiosa.
Quando, sentados ao seu redor, indagávamos sobre o passado, ela rememorava as humilhações e perseguições que sofrera. Dentre elas, a proibição de que os negociantes do povoado em que morava, então denominado Pedra de Abelha (atualmente, uma cidade chamada Felipe Guerra), vendessem bens de primeira necessidade aos protestantes. A ordem, dizia ela, viera do padre local. Outra história, que deixava amedrontadas as crianças sertanejas alheias do mundo mais amplo, dizia respeito a uma noite em que, após o culto dominical, os crentes do povoado foram atacados com excrementos bovinos, jogados por moleques, "a mando de alguém".
Mas não eram essas narrativas que dominavam as conversas dirigidas por minha avó. Para as crianças, ela tinha sempre um baú inesgotável de histórias infantis. Contava-as teatralizando. Com voz pausada e melodiosa. Então, dormíamos encantados com Joãozinho e Maria.
Para os mais velhos, em especial para o meu pai, ela tinha um arsenal de advertências e regras morais a serem constantemente relembradas. Dentre essas, o respeito para com as mulheres. Minha mãe, uma católica fervorosa, quando dos enfrentamentos com meu pai, tinha sempre o seu mais resoluto apoio.
Doçura e firmeza só podiam mesmo conjugar com tolerância. E também em um cultivo muito grande de si própria, que se expressava no uso cauteloso das palavras e na preocupação com as roupas. "Pobreza não é sinal de desleixo", ensinava. Não, ela não deixava de "pregar" e de buscar converter a todos em seguidores do "Senhor Jesus". Era incansável. Mas convivia e aceitava a diferença. Tanto que, embora sofrendo muito, não deixava de admirar a teimosia do meu pai, um sertanejo forte e cabeça-dura, que se tornara, sem o saber, agnóstico.
A imprevisibilidade do mundo social deveria nos vacinar contra as tentações das cristalizações essencialistas. Nos ambientes em que me desloco hoje, dominados por "bem pensantes" politicamente corretos, não é raro me defrontar com preconceitos que alimentam uma visão estereotipada dos religiosos, particularmente das mulheres evangélicas. Nessas horas, vacino-me com a lembrança de Quitéria Lopes, uma "crente" valente do sertão nordestino. Terra Magazine