O Haiti iniciou nesta terça-feira dois dias de homenagens em memória das mais de 220 mil pessoas que morreram no devastador terremoto de 12 de janeiro de 2010.
As cerimônias começarão com a visita de altos funcionários a uma vala comum na periferia da capital Porto Príncipe, onde repousam inúmeras vítimas do tremor. Também será colocada a primeira pedra de um futuro conjunto habitacional no centro da capital, onde milhares continua a viver em acampamentos improvisados.
O ex-presidente americano Bill Clinton --muito envolvido nos esforços de reconstrução do país-- também é esperado nesta terça-feira para participar nos eventos.
Nesta quarta-feira, será realizada uma missa ao ar livre onde ficava a catedral destruída pelo terremoto, cujos escombros ainda não foram retirados. Às 16h53 (horário local), no exato momento em que se registrou o terremoto, os haitianos farão um minuto de silêncio.
Um ano depois do terremoto -- que além dos mortos deixou 2,3 milhões de desabrigados-- a "prioridade absoluta" das agências humanitárias da ONU em 2011 será acelerar a recuperação do país, informou a organização esta terça-feira.
"É preciso dar um golpe de aceleração nos esforços de recuperação. Esta será a prioridade absoluta em 2011", explicou a porta-voz do escritório de coordenação dos assuntos humanitários da ONU, Elisabeth Byrs.
O processo deve durar "meses e inclusive anos", dada a magnitude do trabalho no campo, admitiu Byrs, em particular a reparação ainda pendente de 180 mil casas destruídas, a limpeza de toneladas de escombros e o restabelecimento dos serviços básicos para as centenas de milhares de pessoas que ainda aguardam para ser realojadas.
"Com ainda 800 mil pessoas nos acampamentos, devemos ser realistas sobre o tempo que será necessário para realojar todos", insistiu a porta-voz, assumindo que o trabalho "vai durar meses e seguramente anos".
TERRAS
Um dos principais problemas para o realojamento das pessoas que vivem nos campos de desabrigados é a falta de terra disponível nas áreas urbanas e os conflitos em torno da propriedade.
"Essa situação é complexa. Existem terras disponíveis, mas fora das cidades. É possível construir casas, mas então faltarão os serviços básicos, saneamento, escolas, centros hospitalares, é um esforço que pode durar de 10 a 15 anos. Não é que não o apoiemos, mas é preciso que se entenda a complexidade", afirmou Matthias Schmale, subdiretor de Programas da Cruz Vermelha.
Segundo a entidade, uma resposta a curto prazo para o problema do realojamento seria a construção de "refúgios de transição", que seriam casas precárias feitas de madeira e metais pouco pesados, mas mais sólidas que as atuais tendas de campanha.
"A Cruz Vermelha espanhola tem uma grande experiência neste tipo de refúgios de transição graças a sua experiência na América Central, e isso poderia ser uma solução viável", acrescentou Schmale.
As agências humanitárias voltaram a defender esta terça-feira o balanço da gestão de um desastre sem precedentes que aniquilou as estruturas de um Estado que perdeu no terremoto de 12 de janeiro de 2010, 30% de seus funcionários.
A própria ONU lamentou a morte de 200 de seus funcionários no desmoronamento da casa onde se encontrava sua missão no Haiti.
REFUGIADOS
Porto Príncipe ainda dá a impressão de ser um grande acampamento de refugiados, segundo a Anistia Internacional (AI). As pessoas vivem em condições precárias e as mulheres enfrentam uma ameaça pior, o risco de serem estupradas, segundo o organismo.
"Um ano depois do terremoto, apenas 5% dos escombros foram removidos ", lamenta, por seu lado, a organização humanitária Oxfam.
Citando a ONU, a Oxfam acrescenta que apenas 42% dos 2,1 bilhões de dólares prometidos para 2010 foram desembolsados.
Apesar de haver mais de mil associações atuando no país, os projetos estão paralisados.
"O Haiti é uma república das ONG", afirma o chefe da missão da ONU, Edmond Mulet. Entretanto, persistem os problemas estruturais que havia antes do terremoto: a falta de um cadastro atrasa a construção dos 150.000 abrigos prometidos.
EPIDEMIA DE CÓLERA
Passado o terremoto e quando se sentia relativamente a salvo da temporada de furacões, o Haiti pensou que podia se dedicar à campanha de sucessão do presidente René Preval, mas surgiu um novo desastre: a cólera. Erradicada há mais de um século na ilha, a doença que ataca os pobres reapareceu em outubro no centro do país e rapidamente se propagou para a capital. Até o momento, mais de 3.300 pessoas morreram.
Fadela Chaib, porta-voz da Organização Mundial da Saúde (OMS), informou que a cólera matou 3.651 pessoas e infectou 171.304.
"Ainda não vimos o pico da epidemia, algo que se espera que ocorra nas próximas semanas", especificou Chaib, que assinalou, no entanto, um aspecto positivo: a taxa de mortalidade caiu de 9%, no início da epidemia, para os 2,2% atuais.
"Muitas pessoas continuam sendo infectadas, especialmente nas áreas rurais, onde há taxas de 100 infecções por dia, mas a boa notícia é que menos pessoas morrem", afirmou Chaib.
ELEIÇÕES
Apesar da violência contra os capacetes azuis --acusados de importar a doença do Nepal, segundo uma investigação internacional-- as eleições foram realizadas em 28 de novembro.
Apesar da vigilância internacional, houve denúuncias de fraude no dia da votação. A notícia da exclusão do pleito do popular cantor Michel Martelly enfureceu seus seguidores e os protestos se tornaram violentos.
A divulgação dos resultados finais foi adiada de forma indefinida, e ninguém sabe se o 2º turno --previsto para 16 de janeiro-- será realizado.
COMIDA
Um ano depois do terremoto, o Programa Mundial de Alimentos (PAM) ainda fornece comida a 2 milhões de pessoas, a metade do número que era registrado durante os primeiros meses após a catástrofe.
Com relação a dois aspectos essenciais, a água potável e o saneamento, o Unicef alertou que a situação continua sendo catastrófica, dado que só uma de cada duas pessoas tem acesso à água potável e 89% dos habitantes das zonas rurais não têm acesso a latrinas.
Já sobre o US$ 1,5 bilhão prometido para enfrentar a catástrofe, os representantes das organizações humanitárias afirmaram que até o momento só foram recebidos 72%.
"A prioridade para 2011 será a recuperação do país e toda a comunidade humanitária está comprometida com isso", concluiu Byrs. Folha Online