Blog Sem Fronteiras
Por Wálter Fanganiello Maierovitch, jurista e professor
De Roma, exclusivo para Terra Magazine
1. Conforme informamos no início da noite de ontem, os membros da força da coalizão formada pelas Nações Unidas desconfiavam do comunicado de cessar-fogo e de obediência da resolução do Conselho de Segurança assinado pelo chefe da força militar de Kadafi:http://maierovitch.blog.terra.com.br/2011/03/20/cessar-fogo-ordenado-por-kadafi-nova-estrategia-de-kadafi-preocupa-coalizao-ideologo-da-irmandade-muculmana-diz-que-kadafi-nao-representa-o-isla/
Hoje, na parte da manhã, confirmou-se que o comunicado de cessar-fogo era falso. Mais ainda, fora expedido, dado a potência dos bombardeios, para ganhar tempo e o realinhamento das forças militares de Kadafi.
O tirano líbio ficou particularmente irritado quando constatou jatos italianos nos céus de Trípoli a bombardear. Voltou, então, ao discurso de que os italianos eram uns “traidores” e se aproveitaram da Líbia, desde a invasão colonialista de 1911 que durou mais de 30 anos, até os últimos quinze anos quando a Itália recebeu e consumiu gás e petróleo para aquecer as casas dos italianos e mover a sua indústria.
Por outro lado, durou pouco o “cordão humano” formado para abraçar o complexo de Bab al-Aziziya, quartel onde reside Kadafi. Quando o alarme tocou, todos os presentes e circunstantes deixaram o lugar. E a residência de Bab al-Aziziya foi inteiramente destruída.
Kadafi, há dias, está em local desconhecido. Ele ocupa um bunker fora da cidade. Em 1986, em represália a ataque terrorista que matou soldados norte-americanos que se divertiam numa discoteca de Berlim, o complexo de Bab al-Aziziya fora bombardeado por ordem do então presidente norte-americano Ronald Reagan: morreu a filha adotiva de Kadafi, de 16 anos, e o pai escapou graças a um aviso do então premiê italiano Bettino Craxi, aquele que foi apanhado por corrupção pela Operação Mãos Limpas e fugiu para a Tunísia, onde morreu anos mais tarde.
Durante anos, Kadafi fez pronunciamentos defronte às áreas danificadas de Babi al-Azizya, que passou a ter valor simbólico. Em razão do bombardeamento de ontem, o complexo restou inteiramente destruído.
2. Outra notícia que circula e ainda não foi desmentida refere-se ao assassinato de Khamis Kadafi, um dos oito filhos do rais. Um piloto que teria passado para a oposição discutiu com Khamis e o matou a tiros no complexo de Bab al-Aziziya que, além de residência oficial, é utilizado como quartel.
3. O ministro de Relações Exteriores da Grã-Bretanha acaba de informar, em entrevista à BBC, que as forças da coalizão não vão invadir nem ocupar a Líbia. Segundo o ministro William Hague, a missão outorgada pelo Conselho de Segurança está restrita ao auxílio humanitário diante dos massacres promovidos pelas forças de Muammar Kadafi.
PANO RÁPIDO. Para Mussa Ibrahim, que virou porta-voz de Kadafi, foi bárbaro o ataque destruidor de Bab al-Aziziya e a Líbia, como Estado-membro da Organização das Nações Unidas, exigirá providências do órgão.
Como se percebe, na Líbia “vale dizer tudo”, pois Kadafi, que agora protesta, não cumpriu o cessar-fogo determinado pelo Conselho de Segurança. Com isso, abriu caminho para o nascimento da coalizão e à implantação da zona de exclusão aérea (no-fly zone).
Como tudo vai terminar, ninguém sabe. Nem se o que dizem é verdade. O Pentágono, por exemplo, jura que Kadafi não é alvo e não existe plano para matá-lo. Terra Magazine