quinta-feira, 21 de abril de 2011

Bano Central sobe juro de novo, recebe críticas mas surpreende mercadistas

Pela terceira vez no governo Dilma, Banco Central aumenta taxa de juros para frear inflação. Para CUT, decisão "sangra o país" e "atrapalha desenvolvimento". Indústria vê "graves danos à atividade produtiva". Sistema financeiro perde aposta e leva juro menor do que esperava.


BRASÍLIA – A diretoria do Banco Central (BC) estava espremida dos dois lados, quando se sentou nesta quarta-feira (20/04) para decidir pela terceira vez, no governo Dilma Rousseff, se o rumo da inflação exigiria mudar a taxa básica de juros da economia. O mercado previa (queria?) alta de ao menos meio ponto percentual, enquanto o mundo real da economia – trabalhadores e empresários – torcia para que a taxa ficasse igual. Pois o BC tomou uma decisão intermediária. Subiu o juro, sim, e recebeu críticas do “mundo real”. Mas surpreendeu o "mercado" e aumentou menos do que o setor defendia e menos do que o próprio BC já havia feito duas vezes desde janeiro.

Na noite de quarta-feira (20/04), o banco anunciou que o maior juro do planeta ficaria 0,25 ponto percentual superior. Por cinco votos a dois, a chamada Selic foi de 11,75% para 12% - os dois diretores derrotados votaram por aumento de meio ponto. Na nota que sempre divulga para explicar a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), o BC disse que ainda não é possível ter certeza sobre o “ritmo da moderação” da economia brasileira e que o cenário internacional é “complexo”. 

O mundo real reagiu atirando. “A elevação das já mais altas taxas de juros do mundo - o triplo da segunda colocada, a Austrália -, sangra o país e inviabiliza o Orçamento público, criando graves obstáculos ao desenvolvimento nacional e comprometendo seriamente o emprego, a renda e os investimentos sociais”, afimou o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Artur Henrique, em nota pública. 

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) disse, também em nota, que a alta do juro não foi “adequada” e trará “graves danos à atividade produtiva”.

Para o economista Francisco Lopreato, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o BC tinha à mão, até a véspera da reunião, dados que já sugeriam arrefecimento da economia. Queda da criação de emprego com carteira assinada em março e no primeiro trimestre, empresários mais desconfiados com o futuro, famílias menos dispostas a gastar em 2011. A própria trajetória da inflação oficial era declinante de janeiro a março. Por isso, Lopreato defendia que o BC não mexesse no juro agora e esperasse até o próximo encontro do Copom, em junho.

Desconforto político

Na manhã do dia da reunião de quarta-feira, no entanto, uma parcial da inflação de abril, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostrava um índice muito próximo do resultado de março – 0,77% e 0,79%, respectivamente. Do ponto de vista político, tinha ficado mais difícil para o Copom do governo Dilma eventualmente justificar a manutenção do juro, perante um “mercado” que o BC sente que o está desafiando e que o Palácio do Planalto tem certeza de que não gosta da atual diretoria do banco.

Segundo uma fonte do governo que acompanha a formulação e a execução da política de juros, o BC está convencido de que a inflação cairá a partir de maio e de que a economia já desacelerou até mais do que o governo acredita – tanto que o BC trabalha com previsão de o Brasil crescer 4% em 2011, menos que o Ministério da Fazenda. Além disso, afirmou a fonte, o banco identifica não só que há um clima inflacionário mundial, como o fenômeno não está sendo combatido à base de juro em outros países.

O problema é que o “mercado” no Brasil, de acordo com a fonte, “está testando” o BC. Primeiro, porque sempre quer aumento de juros, pois assim ganha mais dinheiro, e não sabe ainda quanto pode arrancar do governo Dilma. Segundo: a atual diretoria do BC é dominada por funcionários de carreira, a começar pelo presidente da instituição, Alexandre Tombini, e não por egressos do sistema financeiro, como em outros tempos. Terceiro: o mercado estava acomodado à vida fácil de traçar cenários para clientes e fazer negócios usando só a variável “juros”, algo que mudou depois que o governo, desde dezembro, passou a dar mais ênfase ao uso de instrumentos alternativos de combate à inflação, chamados de macroprudenciais.

Mas, apesar do reconhecimento de que está sendo testado, o BC sabe também que o mercado tem o poder de influenciar o mundo real com suas expectativas. Por exemplo: toda semana, o banco faz uma pesquisa com algo entre 90 e 100 instituições, sendo dois terços ligadas ao sistema financeiro, sobre inflação e juros. A pesquisa divulgada dois dias antes do Copom mostrava que o mercado acreditava que a inflação está a um passo de estourar a meta do governo para 2011. Quem olha esse tipo de estimativa - empresário que fixa preço de mercadoria, trabalhador que negocia salário –, acaba levando-a em conta. Daí que a profecia se autorealiza.

Na mesma pesquisa, conhecida como Focus, o “mercado” apostava em aumento de 0,5 ponto do juro. O levantamento tem o formato atual desde 2001. De lá para cá, o Copom já tinha se reunido 74 vezes, e o “mercado” acertara na mosca três de cada quatro palpites. Nas duas primeiras decisões sobre juros no governo Dilma, chutes certeiros: alta de meio ponto no juro. Agora, o “mercado” acertou o gol, mas a bola bateu na trave. 

O BC sentará de novo para analisar a inflação e decidir sobre juros no dia 8 de junho. CARTA MAIOR