Joana Chagas
De Damasco, Síria
Apesar de haver colocado no formulário de solicitação de visto que viria para a Síria por oito meses para estudar árabe na Universidade de Damasco, a embaixada só me deu um visto de turista com duração de três meses, e com estadia máxima de quinze dias. E me explicou o procedimento: chegando aqui, uma vez matriculada e com um contrato de aluguel, eu deveria ir ao Departamento de Imigração e Passaportes para solicitar a extensão. Ainda assim, ela teria que ser renovada a cada dois meses. Suspirei.
De fato, no carimbo que levou meu passaporte se lia "Quando ele (sic) quiser ficar por mais de 15 dias, ele (sic) deve se apresentar ao escritório de imigração". Só que logo descobri que não era tão rígido assim: podia ser 30, podia até ser 45 dias! Mas, como diz uma amiga, eu sou do núcleo ético da novela, então segui direitinho o que me orientaram na embaixada.
Ao chegar no edifício do Departamento de Imigração e Passaportes, tudo em árabe (assim como no aeroporto, se lembram?). Pergunto ao senhor na guarita de entrada (com aquele meu árabe capenga, se lembram?) onde devo ir. Terceiro andar.
No terceiro andar, muitas janelas de atendimento. Sobre uma, lê-se: touristic residency ("residência turística"). Penso que deve ser a minha.
As pessoas se amontoam. O conceito de fila é inexistente na Síria, então homens e mulheres vão se apertando, se empurrando, se espremendo até chegar à frente do oficial.
E eu me jogo. Me espremo até que chego à frente do oficial, que me explica (em árabe) que tenho que pagar 100 liras (3,50 reais) por um formulário, preenchê-lo e voltar. Pago, preencho, volto, me espremo, chego à sua frente, mas fico ali, esperando que ele me dê atenção. Ele me vê, mas por alguma razão decide que ainda não é minha vez, e como não há fila, ele atende quem quiser, quando quiser. Passam-se uns 15 minutos (Tive sorte! Há gente que espera por uma, duas horas) até que ele resolve receber meu formulário e verificá-lo. Me explica (em árabe) que tenho que sair do edifício, ir à loja ao lado, comprar um selo e três cópias de um outro formulário, colá-lo, preenchê-las e voltar. Vou, saio, compro, colo, preencho, volto, me espremo, chego à sua frente, espero (menos dessa vez).
Ele recebe meus formulários, verifica, carimba três vezes com três carimbos diferentes, assina, e me explica (em árabe) que devo ir ao escritório do Administrador para que ele os assine e voltar. Vou. Dessa vez é uma sala grande. O oficial atrás da mesa parece importante e recebe visitas. Entro devagarzinho, coloco meus papéis sobre sua mesa e ele, sem deixar de conversar com suas visitas, sem me olhar ou verificar o que lhe entrego, assina meus formulários e joga-os sobre sua mesa em minha direção. Eu os recolho, agradeço (nem assim!) volto, me espremo, chego à frente do primeiro oficial, espero (menos, de novo). Ele recebe meus formulários, verifica a assinatura e me explica (já não preciso esclarecer que tudo isso se dá em árabe, que não entendo, mas acabo entendendo) que tenho que ir à sala ao lado para solicitar um número com o senhor Al-skdjfhf e voltar.
Vou, busco o tal senhor, solicito, o número é concedido por outro oficial que o anota em um dos meus formulários e assina embaixo. Volto, me espremo, chego à frente do primeiro oficial, e dessa vez espero quase nada. Ele verifica que o número foi dado e me explica que agora tenho que ir à terceira janela à sua esquerda, onde está um oficial ao computador, e voltar. Vou. À essa janela não há amontoados de gente. O oficial recebe meus formulários, insere dados no computador, assina, me entrega, e sorri (sim! é o primeiro sorriso do dia). Sorrio de volta. Volto, me espremo, chego à frente do primeiro oficial, espero, ele recebe, verifica que a assinatura foi dada, preenche uma ficha que grampeia ao meu passaporte, carimba meu passaporte duas vezes com dois carimbos diferentes, e me explica que tenho que voltar à sala do Administrador para que assine meu passaporte, e voltar. Vou, o mesmo senhor, as mesmas visitas, de novo sem olhares, assina onde deve e joga o passaporte sobre sua mesa em minha direção. Eu o recolho, agradeço (nada!), volto, me espremo, chego à frente do primeiro oficial, lhe entrego formulários e passaporte, ele fica com os formulários e me devolve o passaporte e, dessa vez sem palavras nem olhares (total indiferença), entendo que esse é o fim de nossa relação.
Três horas, quatro formulários, cinco carimbos, seis oficiais, sete assinaturas, um selo e um número depois eu tenho residência por mais dois meses na Síria. E depois? Tudo outra vez. Suspiro.
Joana Chamusca Chagas é mestre em Direitos Humanos pela London School of Economics and Political Science. Foi funcionária do Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (UNIFEM) em Brasília e em Nova York. Nascida, criada e mal-criada em Brasília, atualmente mora em Damasco, Síria. Terra Magazine