segunda-feira, 11 de abril de 2011

Entre dois amores

Filmes direcionados a determinados públicos (gay, religiosos em geral, meio-ambiente etc) tendem a ser proselitistas, querem convencer o outro a aderir a “causa” ou, ao menos, ser simpático a ela.

Entre outros, este é um dos méritos de Contracorrente(Peru/Colômbia/França, foto), do peruano Javier Fuentes-León (em seu primeiro longa) sobre o universo gay (em cartaz em São Paulo).

Ele não quer convencer ninguém, muitos menos faz qualquer tipo de pregação ou discursos. Não é militante, embora o diretor seja gay. Ele apresenta-nos a história. Se o espectador se interessar e entrar nesse universo, verá um bom filme.

Baseado num roteiro dele próprio e muito bem escrito o filme não cai na tentação de ser didático. Estamos numa vila de pescadores e o espectador poderia ser perguntar de onde apareceu o fotógrafo Santiago (Manolo Cardona)? E o que ele faz naquela vila parada no tempo? Ou, como se deu o primeiro contato com Miguel (Cristian Mercado)?

Ou poderia ser psicológico, especialmente em relação a Miguel. Aconteceu algum fato que o levou a se apaixonar por Santiago? Ele caiu e bateu a cabeça na guia e pirou? E como ele pode estar apaixonado pela mulher, de quem espera um filho, e também se apaixonar por Santiago? Nenhuma explicação em buscas de causas do que seja.

Quando o filme começa lá estão os dois amantes se encontrando. E lá está Miguel, simultaneamente, cuidando de sua mulher. E este parece não ter dificuldade alguma para se manter com o pés nas duas canoas.

Portanto, ele parte de algo posto, sem questionar nenhuma das partes, pois não lhe interessa. Santiago gosta de rapazes e Miguel, casado e com filho, descobriu que também gosta. Só não aceita e não pensa dividir este seu lado com Santiago publicamente. Eis sua única restrição – o que é bastante comum, muito mais do que se imagina.

Um truque dramatúrgico vem a calhar depois de uma briga entre eles. Algo sobrenatural irá ocorrer e, a partir daí, teremos um dos momentos mais interessantes do filme. Miguel consegue, afinal, conviver com seus dois lados. E se sente à vontade. Chega a andar de mãos dadas com Santiago no meio do povoado.

Mas as coisas não vão ficar cômodas assim porque a realidade é muito mais complicada. Haverá muitas fofocas e muitas reviravoltas antes de chegarmos ao desfecho. E com direito a surpresas de roteiro muito boas – como é bom quando um roteiro surpreende o espectador.

Se quisermos chamar Contracorrente de filme de temática gay, podemos. Mas, mesmo não tentando mascarar nada, ele está mais para um tratamento sobre o tema da coragem de ser o que se é. E pode ser gay ou qualquer outra coisa. Por exemplo, assumir suas convicções numa sociedade que estabelece regras – no caso, ainda tem uma igreja na qual Miguel exerce liderança.

Não é fácil afrontar qualquer grupo, independentemente da procedência ou cor, e tentar ser diferente, seja ele religioso, comportamental, de raça, etc. O tema do diferente sempre será complexo. E nem estou pensando em preconceito. Fala-se muito em preconceito hoje em dia, mas isso nunca irá acabar – ou seremos hipócritas.

Todos, em alguma medida, temos preconceitos. Alguns mais terríveis que outros e com resultados trágicos, como agredir ou matar um homossexual, por exemplo. Ou desejar a morte de um povo (só para citar o mais óbvio, o nazismo). Mas o preconceito sempre estará presente. Como a guerra. Alguém é ingênuo o suficiente para imaginar o fim dela algum dia? No máximo, podemos desejar.

Contracorrente trata disso: como um rapaz dividido na espinhosa questão sexual precisa enfrentar seus amigos e família. O filme não tenta responder nada. Apenas mostra como Miguel resolveu a sua questão com um mínimo de dignidade. É bastante. RAC