Emerson Damasceno
De Fortaleza (CE)
O Twitter deve ser a melhor ferramenta das mídias sociais, para a veiculação rápida de informações e também para o controle de crises. Foi assim em fatos recentes, como o caso do terremoto no Haiti em 2010, do resgate dos mineiros chilenos, das revoltas que varrem o Oriente Médio e mais recentemente do Terremoto e Tsunami no Japão. Provavelmente muitos já tiveram a quebra de paradigma ao tomar conhecimento em primeira mão via Twitter, em vez da televisão que era soberana.
No caso do Japão, enquanto as TV's de todo o mundo se viam reféns da única TV a enviar imagens direto do reator de Fukushima (a japonesa NHK), as mídias sociais eram inundadas com relatos, vídeos e fotos da tragédia, obrigando mais uma vez a mídia tradicional a incorporar as informações da internet em seu conteúdo. Trata-se de uma tendência, pontuando em favor das mídias sociais o fato de que têm no compartilhamento sua melhor característica.
A tragédia que abalou o Brasil na semana passada, no massacre da escola em Realengo, no Rio de Janeiro, não ficaria imune às novas mídias, mormente no Twitter. Um dos reflexos nocivos, entretanto, está na oportunidade para que outros extremistas utilizem as mesmas mídias para destilar o seu ódio e preconceito. No Twitter, o perfil @frontnacional, se intitulando "Tradição, Moral e Família. Contra o Socialismo", incorporou de forma perfeita esse tipo de ódio perigoso: anônimo e igualmente covarde, lançou insultos a gays, mulheres, crianças e quem lhe questionasse. Até o momento em que escrevo esta coluna, a conta ainda estava ativa. Um dos motivos da quantidade de seguidores para uma conta "nova", já se alertava no próprio Twitter, é que muitas de tais contas são utilizadas de fachada para promoções e repentinamente são renomeadas com conteúdos extremistas.
Algumas das pérolas criminosas do perfil incluiam ameaças diretas a militantes como o Deputado Jean Willys (PSOL-RIO), além de comemorar a morte das crianças de Realengo, sob a ótica de que seriam bolsas-família a menos para o País. Chama as mulheres brasileiras de prostitutas, insulta também negros, nordestinos e socialistas, envolvendo até religião, numa mistura quase surreal, que seria patética, não fosse criminosa. Aparentemente não por acaso, o mesmo discurso parece ser uma continuidade da polêmica que se iniciou após declarações do Deputado Jair Bolsonaro no programa CQC, quando grupos de apoio às declarações do Deputado resolveram lhe extrapolar o conteúdo das opiniões e acirrar o "debate", como se isso não fosse já previsível em se tratando de um assunto incendiário. No entanto, ficar calado a um assunto delicado como esse, no mínimo seria compactuar com o que dizem as vozes mais extremadas.
Creio que sequer resta imprescindível ter uma formação jurídica, pois até mesmo um estudante de direito irá verificar ali o perigo de que os chamados "Hate Crimes" virem moda. Por menos ainda, uma estudante de São Paulo mereceu recentemente a atenção do Ministério Público Federal no final do ano passado por sua opinião contra nordestinos. A liberdade de expressão, vale lembrar, não acoberta o anonimato, muito menos dá uma carta branca a quem for, a praticar atos sem uma reprimenda jurídica. São manifestações assim que podem incendiar esse tipo lamentável de uso das mídias sociais. O mesmo ódio e preconceito que já levou a tantos massacres lamentáveis na história da humanidade e também municiou a mente transtornada e perigosa do atirador de Realengo.
Nota: Após uma breve pausa, por conta da organização do Desencontro 2011 e motivos particulares, retorno a escrever normalmente esta coluna. Semana que vem já disponibilizarei entrevista que fiz nos headquarters do Foursquare, em NYC, uma das empresas que mais cresce na internet e fascina este colunista. Assim, retornamos à nossa programação normal.
Emerson Damasceno é jornalista e poeta. Especialista e apaixonado por direito eletrônico, além do direito desportivo que o fez correr o mundo durante uma década. Blogueiro desde 2002, divide o tempo entre o trabalho, as mídias sociais e a 4social, sua última criação. TERRA MAGAZINE