quarta-feira, 27 de abril de 2011

Governo reforça convicção do crescimento com promoção social e não desfaz receios com a inflação

Contradições explicam melhor as dúvidas sobre o que quer o governo que a polêmica sobre o uso mais comedido da Selic pelo BC

Antonio Machado
 
 A retomada das reuniões do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, o fórum de interlocução do governo com o empresariado e as áreas sociais, foi a ocasião para a presidente Dilma Rousseff expor sua “convicção” de que não há contradição entre crescimento e distribuição de renda, princípio condutor da política econômica explicitada no evento pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega.


 Crescimento econômico com promoção social é o cerne da política petista desde o segundo mandato do governo Lula. Dilma manifestou que não pretende alterá-la, mesmo diante das fricções provocadas, que não se resumem ao coice da inflação a partir do meio de 2010.


 O crescimento pode ser obtido por vários meios, dependendo do que se pretenda priorizar. Numa economia com ociosidade de produção, a regra é aumentar o gasto público, baixar juros e soltar o crédito.


 Quando os chamados fatores de produção, como o emprego e insumos, estão em boa parte ocupados, e a produção no teto, a prioridade passa a ser o investimento para ampliar a capacidade produtiva. É quando se reduzem os estímulos ao consumo corrente, sobretudo das famílias via crédito e do governo, para evitar que o gasto gerado pelos investimentos ponha a demanda agregada em ponto de ebulição.


 Demanda aquecida é propulsora de inflação e déficits externos. Em tese, o crescimento econômico se mantém, mas muda sua composição. Diminuem a importância das transferências fiscais de renda e do crédito ao consumo, e aumenta a do crédito de fomento da produção.


 Assim é que funciona a macroeconomia em situação de estabilidade, de modo simplificado. Parece fácil, mas envolve decisões complexas e politicamente difíceis. É preciso saber o momento de mudar as prioridades, apoiando-se em modelos matemáticos empíricos, como os utilizados pelo Banco Central para projetar o horizonte e, mais com sensibilidade que razão, dosar a intensidade dos juros básicos (Selic), da liquidez bancária e das intervenções cambiais.


 Na maioria das vezes, as decisões - acompanhadas pelas da Fazenda na pilotagem das alíquotas dos tributos, dos gastos orçamentários e das emissões da dívida pública pelo Tesouro - não se harmonizam umas com as outras. Em 2008, na véspera da grande crise global, o BC tentava amornar o crescimento econômico para acomodar o gasto público no PIB, enquanto os bancos públicos pisavam no acelerador.


 As contradições da política econômica explicam melhor as dúvidas sobre o que pretende o governo – inflação domada sem a frustração do crescimento – que a polêmica sobre o uso mais comedido da taxa básica de juros pelo BC para não acentuar a apreciação do real.


Conforme o figurino


 Os conflitos de orientação econômica têm sido frequentes - e eles se manifestaram outra vez com os dois votos por aumento maior da Selic na última reunião em que a diretoria do BC decidiu elevá-la para 12% -, devido ao acúmulo de prioridades do governo diante das não poucas mazelas da infraestrutura e das necessidades sociais.


 Em princípio, Fazenda e BC estão fazendo tudo certo, conforme o figurino. Mantega explicou ao plenário do chamado Conselhão que o corte de R$ 50,7 bilhões do orçamento fiscal anunciado no início de março tem como objetivo fazer o gasto público crescer menos que o PIB, abrindo caminho para a redução dos juros básicos e expansão não inflacionária do investimento. Esse é o fundamento principal.


Preocupação diuturna


 Ao complementar a exposição do ministro da Fazenda, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, assegurou o compromisso de a inflação convergir para o centro da meta até 2012, “mesmo diante do forte aumento dos preços das commodities”, e também “lidar com o intenso fluxo de capitais estrangeiros, que são inflacionários”.


 E não só eles foram enfáticos contra a inflação. Dilma disse que o governo está “diuturnamente” atento às pressões inflacionárias.


Omissões e premissas


 Se não há porque duvidar da sinceridade anti-inflacionária, o que motiva as desconfianças do mercado financeiro? Algumas omissões e premissas assumidas pelo governo, como a esperança de que o choque de preços agrícolas e do petróleo perca ímpeto. Isso é improvável.


 O novo consenso que se forma no mundo é que o aumento da demanda por bens básicos seria irreversível. Os preços das commodities só cederão alguma coisa se o dólar se apreciar nos EUA. Também se diz ser de pouca serventia para a inflação o superávit primário obtido mais com o aumento da receita que com contração do gasto. Hoje, o que importa é encolher a demanda, não reforçar a solvência fiscal. O risco é o governo reduzir o crescimento sem murchar a inflação.


Suave ou selvagem?


 A política econômica e os seus detratores chegaram a um ponto em que não se vislumbram recuos ou conciliações. Ao governo só resta provar que está certo, embora haja espaço para algumas precauções.


 Seria prudente, até pelo volume de gastos contratados para 2012, aumentar o colchão de economia fiscal - que poderá passar a meta do ano conforme os dados de março -, e dar outro aperto no crédito para diluir a inércia inflacionária antes que acabe incorporada às expectativas dos acordos salariais previstos para agosto/setembro.


 As empresas só vão segurar custos se a demanda esmorecer - e isso também requer do governo parcimônia com a despesa social. O ajuste virá. Depende do governo se será suave ou selvagem, com inflação. CIDADE BIZ