quinta-feira, 14 de abril de 2011

Indústria desconfia do investimento da Foxconn no Brasil

Quando o investimento é grande demais, até o setor produtivo desconfia. O anúncio de intenção da Foxconn em investir US$ 12 bilhões no Brasil nos próximos cinco anos é visto com “cautela” pela Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), entidade que representa centenas de empresas do setor, dentre elas a subsidiária brasileira da Foxconn. A razão para a ressalva é a grandiosidade dos números divulgados até agora, que incluem a contratação de 100 mil funcionários, o equivalente a 60% da força de trabalho empregada atualmente por todo o setor no país.
Na avaliação da entidade, a conta não fecha porque o setor de tecnologia não demanda contratação de mão de obra extensiva. Segundo informações do mercado, a Flex­tronics, maior empresa do setor no Brasil, instalada em Sorocaba (SP), tem 10 mil funcionários. “Os valores são muito elevados para aquilo a que a empresa se propõe”, avalia a entidade, por meio de sua assessoria de imprensa.
Segundo analistas do setor, uma indústria de semicondutores, que faz todo o processo que deve ser feito pela Foxccon no Brasil, geralmente requer o investimento de, no máximo, R$ 4 bilhões. O número de 100 mil trabalhadores diretos é difícil de ser encontrado individualmente em qualquer outra indústria de manufatura no país. A empresa taiwanesa, que já atua no Brasil com cinco unidades, tem hoje 4,8 mil trabalhadores diretos.
Para justificar esse investimento, o mercado especula que o Brasil teria sido escolhido como base de produção da empresa para exportação mundial. O excesso de carga tributária e o chamado “custo Brasil”, no entanto, pesam contra uma decisão desse tipo. “Há 20 anos lutamos para a implantação da indústria de semicondutores no Brasil. Mas as informações até agora não trazem detalhes precisos. O setor quer conhecer melhor o projeto para ver do que realmente se trata”, sinaliza a Abinee. Segundo a entidade, a própria Apple, fabricante dos produtos que seriam montados no Brasil pela Foxconn, alega desconhecer esse investimento.
Confirmação sem detalhes
Em um comunicado ao mercado divulgado ontem, a Hon Hai Precision Industry, controladora da Foxconn, confirmou os investimentos no Brasil, citando o “tremendo potencial de crescimento” brasileiro, mas sem dar mais detalhes da operação. As ações da empresa subiram 2,8% na Bolsa de Hong Kong após o anúncio.
A Foxcoon é protagonista de uma das grandes batalhas trabalhistas da China. Nos últimos quatro anos, ao menos 17 funcionários da empresa se suicidaram.
“Umuarama tecnológica”
A chamada “cidade tecnológica”, que seria criada para abrigar os 100 mil trabalhadores da Foxconn – dentre os quais 20 mil engenheiros –, terá população equivalente ao do município de Umuarama, na região Noroeste do estado. Se o investimento fosse feito no Paraná, a cidade seria a 18ª no ranking de população. GAZETA DO POVO