Sírio Possenti
De Campinas (SP)
Informação ao crucificado é o título do primeiro romance de Carlos Heitor Cony. Tem cenografia de diário - o diário de um seminarista em crise. Lá pelas tantas, o narrador diz que mandou uma informação ao crucificado... O leitor, chegado a este ponto, descobre de onde veio o título. Que não é um resumo, nem uma dica sobre os temas centrais da narrativa. É um desses títulos que enganam, digamos. Ou que querem dizer pouco.
Foi um procedimento semelhante que adotei para chamar minha coluna de há duas semanas de "quem mandou escrever?". É que o texto de Vera Amatti dizia que certas escolhas, em um jornal, podem ser devidas a alguma ordem superior. Não era nada mais do que isso.
Mudando ou teimando
Estou sempre disposto a mudar de opinião, quando me convencem. E a retirar declarações, se percebo - ou me fazem perceber - que ultrapassei limites. Digo isso em referência à resposta de Vera Amatti, publicada no Terra Magazine na semana passada. O puxão de orelhas mais severo dizia respeito à forma de transcrição de seu texto. Seria um procedimento ilegal. Sendo assim, ou parecendo que é assim, não vou mais adotar esse procedimento, que me pareceu, no entanto, uma forma de o leitor ter acesso claro ao texto que eu comentava ou criticava.
Em geral, os resumos são infiéis, por separarem frases do contexto (aconteceu com as minhas). Eventualmente, a coisa é ainda pior. Um cara escreve ou fala um texto longo e todos debatem apenas uma frase. FHC está sendo "vítima" desse procedimento. Escreveu dez páginas, mas todo mundo está debatendo uma passagem em que ele fala de uma relação talvez impossível da oposição com o "povão". Além do mais, põe a palavra entre aspas, e ninguém menciona o diacrítico. O texto dele é ruim, eu achei. Mas é todo ruim, de cima a baixo, e não só essa passagem...
Como disse, aceito críticas. Mas nem todas. Não posso aceitar, por exemplo, que meu procedimento em relação ao texto de Amatti seja comparável ao de uma ditadura. Na ditadura, os censores iam aos jornais e impediam de publicar certas notícias ou opiniões. Ou chamavam o autor a sua saleta, às vezes em Brasília, e lhe mostravam o que era proibido. E mandavam tirar. Meu procedimento não teve a menor semelhança com as medidas ditatoriais. Só discordei de posições e de análises.
Ela publicou um texto. Eu publiquei outro, criticando o dela. Ela retrucou. Todos estes passos são absolutamente democráticos. A não ser que, na democracia brasileira, haja pessoas que não possam ser criticadas. Ou que haja algum artigo na constituição proibindo a polêmica.
Podem considerar meu texto irônico. Ou injusto. Até pouco educado, se quiserem. Mas não ditatorial. Está mais próxima da ditadura a posição segundo a qual criticar é postura ditatorial.
O que poderia ser proibido é mudar de assunto...
Polêmica
"Comentaristas" acharam que fui duro, que não levei em conta sensibilidades, etc. Ou que manifestei inveja ou desprezo. Por partes:
Inveja? Por quê? De quê?
Não tenho ídolos. Não faço avaliação muito positiva de mim mesmo. Mas valorizo métodos. Acho que eu estou correto quando digo que qualquer um de nós conhece mais a América do que Colombo. Ou que sabe mais física do que Aristóteles. Não é uma questão de ter inteligência superior, é uma questão de fase histórica e de métodos disponíveis. Qualquer aluno de letras pode corrigir um gramático. Basta ver o que os "melhores" dizem sobre os fonemas!
Desprezo? Também não. Mas, quando acho adequado, "dou uma dura" em quem quer dar palpites sem estudar um tema. Palpites valem para torcedores. Para militantes políticos, às vezes. Para analistas de língua, não deviam valer. Quem quer falar do tema, escrever sobre suas diversas facetas, tem que estudar. Muito. Quantas gramáticas - nem falo de artigos especializados sobre questões de detalhe - leram os palpiteiros? Quantos textos antigos conhecem os que acham que há linguistas destruindo a língua? Quantos livros desses linguistas eles leram? Por que não citam as páginas dos livros ou dos artigos em que teriam lido o que eles dizem que os linguistas defendem? Não citam porque não leram.
Fui duro? Pode ser. Há um registro típico da polêmica. Em geral, a linguagem é um pouco agressiva. Polêmica não é convite de aniversário. Quem sai na chuva sabe que vai se molhar. Alguém já leu Foucault rebatendo Derrida? Ou comentando as resenhas de Steiner?
Ouvir críticas pode doer, mas não mata. Pode até fortalecer a saúde. O que mata é não reconhecer os erros, falar de outra coisa, sair pela tangente.
Uma das normas da atividade intelectual é combater os erros. Outra é reconhecê-los.
Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso, Questões para analistas de discurso e Língua na Mídia. TERRA MAGAZINE