sexta-feira, 29 de abril de 2011

O real e a ficção de um casamento real

Marcelo Carneiro da Cunha
De São Paulo



Sósias do príncipe William e da noiva Kate Middleton juntam-se às manifestações sobre o casamento do herdeiro da coroa britânica (foto: Getty Images)

Estimados milhares de leitores, feliz casamento real a todos. Do último casamento como esse, muitos dos milhares de leitores lembram. O casamento de Charles e Diana era um "Conto de Fadas", o que descrevia bem o que se passava, não faltando nem a bruxa, ou várias delas. Em contos de fadas, caros leitores, só mesmo a Xuxa acredita, como acredita em duendes, porque, como ela mesma diz, "existem livros a respeito".
Em um casamento como esse de hoje, realidade e ficção se misturam de um jeito que fazem zunir as nossas cabecinhas, e talvez por isso mesmo esse evento se transforme no que ele, de um jeito ou de outro, se transforma: em uma grande celebração de algo que não compreendemos muito bem, mas, de qualquer maneira, participamos.
Monarquia é uma esquisitice que não chegou direito até as Américas. O Brasil foi a solene exceção, em nossa experiência com dinastias como os Orleans e Bragança e os Sarney. Fora isso fomos e seguimos sendo, republicanos. Tivemos a nossa monarquia porque o rei de Portugal foi o único a sair da Europa e se mandar para as Américas. Importamos assim, por algum tempo, a grande ilusão da realeza oferecendo a nós a experiência de sermos súditos de alguém nascido no emprego e mantido nele a vida inteira por direito divino, algo que adaptamos e aplicamos a áreas como a direção da gráfica do Senado em Brasília, por exemplo.
Dizem que a monarquia foi o eixo estabilizador do jovem Brasil pós- independência, e que graças a ela não nos dividimos em pedaços, como a América Espanhola. Se isso é verdade, o custo e o mico de termos tido imperadores tropicais, se pagou com sobra.
Já na Europa, as monarquias foram os eixos em torno dos quais ela se organizou e se refez após o fim do Império Romano. Até a França resolver experimentar algo novo, em 1789, todos sempre viveram com um rei, uma rainha ou similar, mandando mais ou menos, mas mandando.
Em algum momento, alguém resolveu que não precisávamos mais de pessoas nascidas no cargo e eleitas por Deus para governar nossas vidas. Iríamos preferir cometer equívocos por nossa própria conta. A idéia, revolucionária, pegou, e reis e rainhas viraram figuras simbólicas de algo que os ingleses, aparentemente, compreendem melhor do que nós, tanto que as mantém no Palácio de Buckingham em esplêndido isolamento e relativa inutilidade, para todo o sempre.
Para eles, reis e rainhas têm uma função que compensa o custo de mantê-los e alimentá-los. Eles representam a tradição, eles incorporam valores, eles simbolizam algo que só eles mesmos podem simbolizar: algo ligado ao sempre, intangível, definido por regras muito antigas, que mudam para não mudar.
Essas pessoas, no passado, tinham a compensação do poder de verdade. Henrique VIII prendeu, arrebentou, cortou cabeças e se separou do Vaticano, trazendo para a Inglaterra o que antes pertencia a Roma. Pra quem não sabe, a rainha Elizabeth e um dia Charles, e em outro dia William, são os Papas da igreja Anglicana. Sério! A tadinha da Kate está casando com um futuro Papa, além de futuro rei. Sorte que a igreja deles é mais tolerante com o sexo entre os papas.
Esse casamento serve para a gente lembrar de tudo isso. Ele também serve para a gente perceber mais intensamente a relação intensa entre a realidade e a ficção. Vivemos em uma, precisamos da outra, e é bom que elas se encaixem e se tornem boas amigas. Não precisamos de reis e rainhas, assim como não precisaríamos de papas e bispos, se tivéssemos uma melhor noção do nosso poder e responsabilidade sobre o mundo. Mas, enquanto nossa imaginação reservar para a gente um papel de quem segue algo, imaginário ou real, talvez eles tenham o seu lugar assegurado.
Não precisamos de reis e não precisamos de princesas. Basta olhar ao redor e ver em cada menininha uma princesa dona do mundo e pronto. Reis, rainhas, príncipes e princesas representam simbolicamente o nosso desejo disso, de sermos donos do mundo. Somos, mas enquanto não acreditarmos que somos, não somos, e eles são. William e Kate representam o que a gente acha que alguém precisa ser para, sim, ser dono de tudo. Sabemos que isso é uma tolice, em um mundo como o nosso, mas, se existe uma coisa que somos, ou preferimos ser, é tolos, um tanto tolos. São esses tolos em nós que vão assistir ao casamento real de hoje, deixando cair uma lágrima furtiva quando ela disser "Sim" e virar princesa oficial. Todos seremos princesas nesse momento, e é para isso que ele serve.
De resto, que William e Kate casem e sejam felizes para sempre, como é melhor que aconteça entre príncipes e princesas, sem que ninguém, na realidade ou não ficção, até hoje, tenha achado a fórmula de assegurar aqui na Terra e entre seres normais, que isso possa mesmo dar certo.
Na ficção, dá, e isso hoje e quase sempre é o que importa.
Marcelo Carneiro da Cunha é escritor e jornalista. Escreveu o argumento do curta-metragem "O Branco", premiado em Berlim e outros importantes festivais. Entre outros, publicou o livro de contos "Simples" e o romance "O Nosso Juiz", pela editora Record. Acaba de escrever o romance "Depois do Sexo", que foi publicado em junho pela Record. Dois longas-metragens estão sendo produzidos a partir de seus romances "Insônia" e "Antes que o Mundo Acabe", publicados pela editora Projeto. TERRA MAGAZINE