quinta-feira, 21 de abril de 2011

Sobre o mercado de MPBaiana


Paquito
De Salvador (BA)

- de conversas com Rex (Retrofoguetes), Ronei Jorge e Vince de Mira
Desde o surgimento do fenômeno Luiz Caldas, que não precisou migrar para o sudeste do país - a prática mais comum até então - para fazer sucesso e vender discos, e, a partir daí, cristalizou o mercado da música ligada ao Carnaval, na Bahia; há uma tentativa de estabelecer um mercado para a música popular, mais amplo e múltiplo, que independa da festa popular periódica, e atenda à variedade da música que se faz no Estado.
Existe esse mercado? Em um segmento, egresso geralmente da classe média, existem os artistas e um público em potencial, mas a ponte entre um e outro não se deu ainda de maneira a constituir um meio em que os que se dedicam a este tipo de trabalho, possam dele tirar seu sustento. Esse papo rende há uns trinta anos, os artistas surgem e somem, sem condições de manter uma regularidade e, a partir daí, construir uma obra.
Resumindo a trajetória mais ou menos comum: o(a) sujeito(a) começa a compor ou gosta de cantar, conhece alguns músicos iniciantes como ele, resolvem montar uma banda e, a partir daí, fazer um show. O show tem alguma receptividade, a imprensa escrita tece comentários positivos, e já um bom número de pessoas comparece às apresentações. Os shows se sucedem, conseguem gravar uma demo. Com mais algum tempo, e a cancha adquirida com as apresentações, lançam o primeiro cd, bem recebido pela imprensa, e até aparecem na Tv. O próximo passo, que seria tocar no rádio, é mais complicado, pois o critério dos programadores tem um quê de misterioso, transcendente, inalcançável. Mas a turma resiste, batalha. Com mais cinco anos, outro cd lançado, todos os palcos da cidade ocupados, o teto começa a ficar baixo, e eles não têm mais pra onde crescer.
Alguns resolvem mesmo seguir o que fizeram seus antecessores e se mandar para o eixo Rio - SP. Dos que ficam, uns abandonam a profissão de músico ou tem um trabalho paralelo, outros tornam-se produtores do próprio trabalho e até do trabalho de outros, alguns se dedicam a trilhas na área de teatro, onde são mais bem pagos, e/ou se recolhem ao underground por contingência, espaço também incipiente, pelo menos no nosso Estado, para manter uma carreira.
Muitos, aliás, trabalham e se sustentam graças a projetos financiados pelas leis de incentivo e fundos de cultura, algo que acontece também em outros estados do país. O curioso é que o público que poderia potencialmente sustentar esses artistas, e que vai a shows, por exemplo, de artistas do eixo Rio/SP, parece que não gosta de pagar para assistir os astros da terra. Os da terra seriam mais desinteressantes que os de fora, pouco identificados com a potencial plateia?
A casa de shows Boomerangue, por exemplo, uma das mais conhecidas da cidade, neste segmento, fechou as portas definitivamente no ano passado, e um dos motivos para o fechamento, segundo um dos donos, foi a ocorrência desse hábito peculiar do público, majoritariamente, de classe média e, portanto, com um poder aquisitivo maior que o público de artistas do Arrocha e da Seresta. Estes, no entanto, sustentam muito bem a carreira de seus ídolos que, aliás, não precisam de leis de incentivo nem frequentam as páginas dos cadernos de cultura dos jornais.
A ascensão da Axé-music - que responde por uma fatia ampla, constituindo um mercado próprio, de parâmetros específicos, florescente até hoje - trouxe para a Bahia uma excelência técnica comparável à de um centro como o sudeste. Temos, aliás, tudo que uma metrópole (pós?) moderna almeja: violência nas ruas, coleta deficiente de lixo, poluição sonora a granel, corrupção das mais baixas às mais altas instâncias, mas não ainda um mercado de música popular múltiplo, rico, como seria de se esperar de uma cidade que foi a primeira capital do país, e possui, sem equívoco, um capital cultural e sonoro que dá sustentação, inclusive, ao restante do mercado cultural do Brasil. Falta o capital propriamente dito.
A internet e os novos meios de divulgação são geralmente saudados como uma alternativa para o contingente alternativo, mas tem efeitos colaterais, como a crise do mercado fonográfico, que fez retroceder o processo de profissionalização. Há os festivais do underground, realizados por mais não tão jovens produtores, e que apelam para as leis de incentivo, conseguem patrocínios, mas nunca o bastante para pagar um cachê decente aos artistas, sempre vistos como novas promessas, apesar de muitos não serem iniciantes. E a desculpa mais freqüente para que se aceite o pouco dinheiro é que se está trabalhando para a formação de novas platéias. No entanto, têm que se pagar aos profissionais que fazem parte da infra-estrutura desse tipo de evento, desde iluminadores até motoristas de van. O artista, que faz o show, muitas vezes, é o que recebe menos, ou nada.
Houve mesmo um edital da Vivo, veiculado na Bahia, que dizia explicitamente que os contemplados receberiam ajuda de custo, mas proibia-os de receber cachê. Ajuda de custo é um eufemismo para uma grana pro artista se virar com passagens, hospedagem e pagamento dos profissionais envolvidos - ninguém trabalha sozinho - , além do ganho próprio.
A crise na indústria fonográfica, por outro lado, fez com que nomes consagrados e profissionalmente estabelecidos passassem também a usar as leis de incentivo, atraindo para si os patrocinadores, que passaram a ganhar duplamente: apoiando alguém já famoso, eles apenas emprestam a marca de sua empresa a um projeto vitorioso, com maior porcentagem de dinheiro do Estado. A concorrência, para os alternativos, fica desigual.
Há alguns nichos, como o do reggae, que tem seguidores fiéis, o do forró - assim como o Carnaval, ligado aos festejos juninos, que ocorrem o ano inteiro -, e o do Arrocha e Seresta, de que já falei, que se sustentam bem. Então, não há um mercado, mas mercados? E um, ainda incipiente, frágil adolescente terminal, sem pagantes, dependente do dinheiro público, mas com algum status artístico, referendado por uns poucos formadores de opinião, que, no entanto, resiste?
No mais, é outono, tempo de caquis.
Paquito é músico e produtor. TERRA MAGAZINE