Os limites da política econômica são tênues. Se apertar pouco, a inflação se enrijece; se apertar muito, o crescimento desaba |
| Os eventuais desdobramentos dos desentendimentos entre o governo e sua base aliada e da investigação aberta pelo Ministério Público Federal para apurar as circunstâncias do enriquecimento do chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, no período em que era deputado já surgem como as maiores ameaças à trajetória da política econômica. Margeada de um lado pela fragilidade da economia global, de cuja evolução depende a continuidade do bom momento das commodities de exportação do país, e de outro pelas vicissitudes da inflação, o campo de manobra do Banco Central e da Fazenda é estreito. Não há espaço para operações corretivas repentinas, venham de onde vierem os possíveis contratempos: do exterior ou da política doméstica. Até aqui a rota traçada pelo governo indica caminho livre para a convergência da inflação à meta anual de 4,5% até 2012, sem maior trauma para o crescimento econômico e, assim, ao emprego e renda. A pesquisa do mercado de trabalho do IBGE indicou para abril taxa de desemprego estável, na faixa de 6,4%, e desaceleração do ritmo dos rendimentos reais - uma combinação saudável para a contenção da demanda visando o enquadramento da inflação ao centro da meta. Pelo lado da produção, conforme o esperado, a tendência também é de moderação do crescimento, ainda que, tal como a baixa taxa de desemprego em abril, a impressão deva ser de continuidade da forte expansão da economia em 2010, quando o PIB (Produto Interno Bruto) cresceu 7,5%. É preciso cautela na interpretação desses dados. Estima-se que o PIB trimestral tenha crescido de 0,7% para 1,2% entre o último trimestre de 2010 e o primeiro de 2011. Mas, como analisa a área econômica do Bradesco, houve mudanças na composição da demanda agregada. Sob efeito do arrocho dos juros, do controle do crédito ao consumo, da contenção do orçamento fiscal e mesmo da inflação, acredita-se que tenha havido forte redução do gasto das famílias no primeiro trimestre. Nas contas do Bradesco, passou de aumento de 2,5% no quarto trimestre para 1% entre janeiro e março. Já a taxa do investimento, que estancara no fim de 2010, deve ter crescido 3,5% sobre o quarto trimestre. Nada indica que essa toada será revertida. A política de aperto de juros, disse o diretor de Assuntos Internacionais do BC, Luiz Pereira Awazu, na sexta-feira, “vai permanecer enquanto for necessária”. O esforço, segundo ele, é para que a inflação vire o ano o mais perto possível da meta de 4,5%. Ou seja: a Selic continuará obesa. E há razões para isso. Sem tempo para cochilo Já se sabe de antemão que o ano que vem não será favorável para o controle da inflação. Haverá eleições municipais, quando sempre os governantes expandem os gastos fiscais. E já começará com um forte aumento do salário mínimo, conforme a fórmula que incorpora o INPC anual à evolução do PIB de dois anos antes. Isso deve corresponder a um reajuste perto de 14%. Ao menor cochilo, a inflação dispara. Quanto menos o BC consiga desinflar a inflação este ano, maiores serão os riscos para vir a colocá-la na meta em 2012. E, quanto mais se afaste dela ou demore a alcançá-la, maior será a propensão de que se enraíze devido ao mecanismo da indexação. O grande teste está agendado: as negociações salariais na virada do semestre. Anemia do crescimento Ou a economia chega a agosto e setembro com aspecto meio anêmico ou o empresariado ficará sem argumentos para barrar as pretensões dos sindicatos. O ministro Guido Mantega se mostra tranquilo. Para ele, a economia começou neste segundo trimestre a convergir para a projeção da Fazenda de crescimento do PIB este ano - 4,5%. Nas simulações do mercado, tal desempenho será menor, variando de 3,4% (projeção da consultoria LCA) a 4% (segundo o boletim semanal Focus, do BC, que consolida o sentimento médio do mercado). Neste segundo trimestre, conforme Octavio de Barros, economista-chefe do Bradesco, o PIB deve crescer em torno de 0,8% sobre o primeiro. Risco Palocci em cena Os limites da política econômica são tênues. Se apertar pouco, a inflação se enrijece; se apertar muito, o crescimento desaba. Não dá também para esperar muita contribuição do lado fiscal, já que o superávit primário este ano está sendo feito mais pelo aumento da arrecadação que pela redução do gasto, que continua se alargando e em 2012 tenderá a se espichar, diante dos compromissos contratados pelo governo. Essa travessia requer tranquilidade política e mãos exímias. Não há gordura a queimar em negociações com os aliados no caso de um vendaval político. O risco Palocci não é pequeno. A pegadinha da Cofins Um cenário no qual o governo esteja limitado pelas incertezas dos apoios em sua coligação de partidos no Congresso e com a margem de ação condicionada pelo sucesso da política econômica não é um bom augúrio para a condução de reformas, mesmo as pontuais. Pode ser o caso da desoneração da contribuição previdenciária das empresas. Pela proposta da Fazenda, a perda de R$ 95 bilhões do INSS seria compensada com aumento da Cofins sobre o faturamento. Empresários e sindicalistas que ouviram a idéia ficaram animados. É melhor que pensem melhor, até o governo. Não se deve descartar o repasse para os preços do novo custo. E também há o precedente da mudança feita em 2003 na COFINS, anunciada como neutra, como lembra o economista do IPEA Mansueto Almeida, mas que levou ao aumento da arrecadação. CIDADE BIZ |