A rainha Elizabeth 2ª, da Inglaterra, concluiu nesta sexta-feira a visita histórica de quatro dias à Irlanda, que segundo os analistas, superou as expectativas e consolidou uma nova era nas relações britânicas, após séculos de conflitos.
A rainha voltou ao seu país, após ter abordado um dos temas mais espinhosos da relação bilateral nesta primeira viagem de um monarca britânico à Irlanda desde sua independência, em 1922, um dos mais significativos de suas quase seis décadas de reinado.
Mantida distante dos populares por motivos de segurança, Elizabeth 2ª se permitiu, ao final, um passeio imprevisto por Cork, segunda cidade do país.
E na visita à fortaleza medieval de Cashel Rock, ocorreu o primeiro aperto de mãos entre a rainha e um membro do partido republicano Sinn Fein, ex-braço político do IRA (Exército Republicano Irlandês).
Em uma cerimônia que seria inconcebível anos atrás, a rainha homenageou os mortos na independência da Irlanda e visitou o estádio de Croke Park, cenário, em 1920, de uma das piores matanças praticadas pelas forças britânicas durante a guerra da independência.
Ela também prestou tributo aos quase 50 mil irlandeses que morreram defendendo o Reino Unido na 1ª Guerra Mundial, virtualmente ignorados por seus compatriotas.
Mas foi em seu discurso de reconciliação, na noite de quarta-feira, no castelo de Dublin, que a soberana avançou mais no terreno da reconciliação.
Após dizer algumas palavras em gaélico, Elizabeth 2ª expressou sua "profunda compaixão" para com as vítimas do "turbulento passado" comum e destacou que o legado de "dor, turbulências e perdas" é "triste e deplorável".
"Com a retrospectiva histórica, podemos ver coisas que gostaríamos que tivessem sido feitas de forma diferente ou que não tivessem sido feitas de forma alguma", acrescentou.
Patrick Georghegan, professor de História do famoso Trinity College de Dublin, qualificou a visita de um "êxito extraordinário".
"Mesmo aqueles que estavam céticos no começo da semana, estavam emocionados com a visita ao final", declarou.
SALDO POSITIVO
Para Michael Anderson, do University College de Dublin, o povo se "assombrou" com a "sinceridade e a dignidade" da rainha da Inglaterra.
Ele ressaltou que também se lembrará do impacto dos pequenos gestos, como o uso do gaélico, o verde que usou em várias ocasiões ou a "lembrança sutil" de que ela também foi diretamente afetada pelo conflito.
Um tio de seu marido, Phillip, Lorde Louis Mountbatten, foi assassinado pelo IRA em 1979.
"Foi mais que uma oportunidade para tirar fotos", disse Anderson. "Foi uma reconciliação genuína de algo que durou 800 ou 900 anos".
O ex-premiê britânico John Major escreveu no jornal The Times que a visita "dissipou uma sombra antiga e escura, consolidou uma relação moderna e preparou o terreno para um futuro fértil".
A viagem não teria sido possível sem os Acordos de Paz da Sexta-feira Santa que puseram um fim, em 1998 a 30 anos de violência - que deixou 3.500 mortos - entre protestantes unionistas e católicos republicanos na Irlanda do Norte - parte setentrional da ilha que continua sob domínio britânico - e permitiram normalizar as relações entre os dois países.
As ameaças dos grupos extremistas republicanos contrários ao processo de paz e uma série de alertas de bomba antes da chegada da soberana não conseguiram ofuscá-la. FRANCE PRESS/FOLHA