Perseguido no Congo, seu país de origem, o geólogo Marcos (nome fictício) é o primeiro solicitante africano que reside no Amazonas a ter seu pedido de refúgio aprovado pelo Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), órgão vinculado ao Ministério da Justiça.
De acordo com informações do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) desde 2010, pelo menos 30 solicitantes vivendo na Amazônia considerados extra-continentais (não provenientes de países latino-americanos) aguardam o pedido de refúgio.
Os solicitantes são de países como Nigéria, Gana, Costa do Marfim, Quênia e Serra Leoa. O Acnur não tem informações sobre pedidos registrados no Estado do Amazonas.
O caso de Marcos é incomum porque seu pedido foi atendido e aprovado em fevereiro de 2011, apenas 10 meses após ele chegar ao Amazonas. Segundo informações da Cáritas, organismo vinculado à Arquiodiocese de Manaus, este processo costuma ser demorado.
Fuga
Com mestrado em leitura de satélites e de bases de dados espaciais, o congolês morou e trabalhou em vários países africanos, entre eles Angola (daí a sua fluência na língua portuguesa).
Seu destino começou a mudar quando trabalhava em um cargo do governo como geólogo em uma província do Congo. Veio o dia em que ele se viu em meio à conflitos tribais e rebeliões que tentaram destituir o poder do país.
Ele passou a ser perseguido por rebeldes e depois por autoridades do próprio governo do Congo.
"Fugi atravessando o rio Congo, depois fui para a mata até conseguir pegar um voo, sempre sendo perseguido, até Joannesburgo, na África do Sul. Lá, tinha um conhecido que possuia um trabalho no Brasil e ele me sugeriu vir para cá”, disse Marcos.
Assalto
No Brasil, Marcos passou por uma série de desventuras. Seu périplo começou em São Paulo. Ele viajou pelo Brasil até chegar a Pacaraima, em Roraima, levado por um golpista que acabou lhe abandonando.
Assaltado e despojado de todos os seus documentos em Pacaraima, finalmente ele foi orientado pelas poucas pessoas que lhe ajudaram a vir a Manaus e tentar a solicitação de refúgio.
Em Manaus, a sorte de Marcos só retornou quando conseguiu, depois de várias tentativas e enfrentar novos obstáculos, dar entrada no pedido de refúgio na Polícia Federal.
"A maior dificuldade era encontrar um local para dormir. Cheguei a passar a noite em uma escola, levado por uma pessoa que conheci aqui. Depois quando consegui dar entrada no refúgio passei a morar com um queniano, mas ele bebia muito. A Pastoral do Migrante me ajudou muito nesta época", relatou.
Idiomas
Descrevendo-se como cristão, Marcos não pensa em sair de Manaus, por enquanto. Ele aguarda ansioso o retorno da esposa, que tem origem africana e surinamesa, e a vista da filha, que vive na Inglaterra.
Seu outro desejo é conseguir a validação do diploma de geólogo no Brasil para trabalhar na área. Sua atual fonte de renda, contudo, é como professor de francês e aliança francesa em uma escola de idiomas.
Marcos também dá aulas particulares de idiomas e de reforço de matemática, química e física e faz questão de fornecer seus contatos. O email é wilsonnicolau@live.com e celular 92 8117-5092. O geólogo mora em um quitinete alugado em um bairro da Zona Norte de Manaus.
Acompanhamento
No Amazonas, até 2010, os solicitantes de refúgios eram acompanhados pela Pastoral do Migrante, vinculada à Arquidiocese de Manaus. A partir de 2011, esta atuação passou a ser feita pela Cáritas, também vinculada à Arquidiocese.
Apenas um africano, nascido na Nigéria, vem recebendo acompanhamento da Cáritas atualmente, segundo o vice-coordenador da entidade, Pe. Izaias Júnior de Andrade. Outros 34 solicitantes, a maioria colombianos, também recebem apoio.
O trabalho da Cáritas é auxiliar nas atividades de geração de renda e em conseguir parceria com instituições de ensino e empresas para facilitar o acesso a empregos em Manaus.
O interesse pelo Brasil, na opinião do Pe. Izaías, deve-se ao fato de o país ser considerado um país tranquilo e bom para morar.
“Conseguimos parceria com o Cetam, que pagará a professora para o curso de Português. O Colégio Preciosíssimo Sangue cederá a sala para as aulas de português. O Sine-Manaus cadastrará uma vez por semana e de forma exclusiva os solicitantes de refúgio. A Universidade Federal do Amazonas fará o acompanhamento psicológico na Cáritas para os solicitantes de refúgio duas vezes por semana”, disse o vice-coordenador da Cáritas.
Dificuldades
Os solicitantes, contudo, ainda enfrentam muitas dificuldades. A principal delas é a falta de abrigo. Em Manaus há apenas uma, a Casa do Migrante Jacamim, onde há poucas vagas.
A outra dificuldade, segundo o padre, são os obstáculos para a pessoa reconstruir sua vida, após ter deixado tudo para trás, ter sido submetido a traumas da violência e da perseguição.
“Eles chegam quase sempre sem dinheiro, pouca roupas, sem alojamento, colchão etc. Esse é o maior desafio, pois precisam ter uma acolhida humanizada e a Cáritas trabalha para que seus direitos sejam assegurados”, disse o Pe. Izaias.
Pedidos
A nacionalidade colombiana ainda é predominante na lista de pedidos de refúgio no Amazonas, segundo dados da Polícia Federal.
No entanto, o número de haitianos também se destaca em função da chegada de pessoas daquele em país após o terremoto de 2010.
A Polícia Federal analisa atualmente o pedido de refúgio de 700 haitianos. Questionada sobre o número de pedidos de origem africana, a Delegacia de Migração da PF ficou de responder nesta quarta-feira (18).
Segundo o dado mais atualizado do Conare (abril de 2011), existem atualmente 4.401 refugiados no Brasil. Deste grupo, 64,17% são da África. O restante é da América, Ásia, Europa e os considerados apátridas.
Somente do Congo, estão no Brasil 453 pessoas, mas o país com predominância de refugiados é a Angola (1.686) e Colômbia (628), seguido de Libéria (258) e Iraque (203). A CRÍTICA