quinta-feira, 5 de maio de 2011

Governo e empresas têm missões diferentes, diz Agnelli

Um mês após o anúncio da sua saída da presidência da Vale por pressão do governo, o presidente demissionário da companhia, Roger Agnelli, disse nesta quinta-feira que cada um [governo e empresa] tem a sua missão e seus interesses.

"Cada um tem uma visão e uma missão. A missão da companhia é gerar os resultados para ela poder gerar capacidade e investimentos. A missão do governo é diferente da de uma empresa. Completamente diferente", afirmou.

Roger disse que "até entende" o posicionamento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao cobrar mais investimento e contratações no Brasil. Mas afirma, citando o caso da construção de 19 navios de transporte de carga de grande porte, que o custo das obras no país seriam mais do que o dobro.

A Vale recebeu ontem o primeiro desses navios de transporte de minério com capacidade de 400 mil toneladas a um custo de US$ 110 milhões. Se fosse feito no Brasil, diz o executivo, só seria entregues em 2015 e ao preço de US$ 236 milhões.

"A nossa missão é de longo prazo. Estamos falando de 10, 15, 20 anos. O governo tem uma visão de dois, três, quatro anos", disse Agnelli.

A Vale investiu em frota própria de navios e na contratação de crédito de longo prazo para reduzir a volatilidade do custo do transporte para a Ásia, segundo Agnelli.

Os navios farão principalmente a rota para a China e vão permitir melhorar a competitividade em relação às mineradoras australianas BHP e Rio Tinto, que contam com a vantagem de estarem mais próxima ao país asiático.

Essa estratégia de contratar fretes de longo prazo -- de cinco a dez anos -- reduziu o preço do frete e permitiu que esse ganho fosse transferido para o preço do minério de ferro, em recuperação desde 2009.

Segundo o executivo, a retomada dos preços do minério e a redução do frete geraram um saldo adicional de US$ 4 bilhões na balança comercial do país desde 2009. O frete que chegou a custar US$ 50 por tonelada antes de 2009, se mantém na faixa de US$ 20 desde que a Vale implementou sua estratégia de contratar frete de longo prazo e investir em navios.

Antes, eram os próprios clientes que contratavam diretamente o transporte de minério. Agnelli visitou nesta quinta-feira o navio Vale Brasil, o primeiro a ser entregue da nova geração de embarcações de grande porte da mineradora. FOLHA