Polícia acredita que disputa entre traficantes de facções rivais do Morro do Palácio e Morro do 94 pode ter sido causa do assassinato do adolescente em São Domingos
A guerra entre facções rivais de duas comunidades da Zona Sul de Niterói pode ter sido a causa do assassinato, ocorrido na noite de segunda-feira, na Praça Leoni Ramos, em frente à Cantareira, em São Domingos. O estudante J. F. N., de 16 anos, foi morto com três tiros. Outra aluna e uma professora universitária, de 20 e 60 anos, foram atingidas por balas perdidas. A confusão ocorreu no momento em que várias pessoas deixavam o campus do Gragoatá da Universidade Federal Fluminense (UFF), gerando pânico e correria.
As sobreviventes, aluna e professora da UFF, foram atingidas na perna e braço esquerdos, respectivamente, e precisaram ser hospitalizadas. Ambas foram levadas para o Hospital Estadual Azevedo Lima, no Fonseca, mas já tiveram alta e passam bem. A estudante de 20 anos comentou o ocorrido no portal de O FLUMINENSE na internet.
“Na hora que ouvi os disparos pensei que fossem bombinhas, não tinha ideia de que eram tiros, mas meu namorado que estava à frente me puxou e entramos na padaria próxima à praça. Policiais que apareceram no local nos levaram (eu e a senhora) para o Hospital Azevedo Lima onde fomos bem atendidas e liberadas logo”, escreveu.
Os investigadores acreditam que o assassinato tenha sido motivado pela disputa entre traficantes de facções rivais do Morro do Palácio, e Morro do 94, ambos no Ingá. O jovem, que era morador da primeira comunidade, foi morto a tiros quando voltava da escola. A Secretaria Estadual de Educação confirmou que ele era matriculado no 7º ano do Instituto de Educação Professor Ismael Coutinho (Iepic), no Ingá, e que compareceu à aula no dia do crime.
O delegado da 76ª DP (Centro), Nilton Pereira, que investiga o caso, afirmou que as características do crime apontam para a hipótese de execução. O jovem foi atingido na cabeça, no tórax e no abdômen. Ele informou, ainda, que o menor não possuía passagens pela polícia. A família afirma que a vítima não tinha envolvimento com o tráfico de drogas.
“Ainda assim acreditamos que ele tenha entrado em conflito com traficantes por outros motivos. Existe a suspeita de que sua morte tenha sido em represália por se envolver com pessoas ligadas ao Morro do 94 ou por briga de namorados. Estamos esperando a mãe do menor se recuperar para que possa prestar depoimento”, disse o delegado.
Horas depois do crime, a Polícia Militar apreendeu uma motocicleta Honda Falcon azul no Morro do Palácio, já que suas características batiam com as descrições de testemunhas como a que teria sido usada pelos criminosos.
De acordo com os policiais, o veículo possuía sinais de uso recente.
Segundo delegado Nilton Pereira, o proprietário da moto seria morador de Piratininga e teria afirmado que vendeu o veículo há um ano. Ele deve ser chamado para prestar depoimentos ainda hoje.
O comércio de entorpecentes no 94 é chefiado pela facção Comando Vermelho (CV), enquanto o Morro do Palácio seria dominado pela rival Amigos dos Amigos (ADA). A região vive constantes conflitos. Segundo representantes do Governo do Estado, essa última comunidade está na lista de prioridades da Secretaria de Segurança e deve receber uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) até o fim do ano.
O comandante do 12º BPM, tenente-coronel Paulo Henrique Moraes, explicou que o principal motivo para o Morro do Palácio ter sido escolhido como uma das primeiras comunidades a receberem UPP é a sua localização em área universitária.
“O Morro do Palácio é cercado por quatro campi da UFF e uma grande escola estadual. Acreditamos que a UPP vai impedir que traficantes assediem jovens para o consumo de drogas”, disse Paulo Henrique.
PM realiza operações em morros
A Polícia Militar realizou durante a tarde de ontem operações nos morros do Palácio e do 94 à procura de envolvidos no assassinato do estudante na Praça da Cantareira. Não houve presos ou apreensões, mas, de acordo com o comandante do 12º BPM (Niterói), tenente-coronel Paulo Henrique Moraes, o patrulhamento continuará reforçado em toda a região.
A ameaça da guerra de traficantes entre essas duas comunidades assusta a população local. Em agosto do ano passado, cinco pessoas morreram e pelo menos três ficaram feridas durante confrontos de facções. Em um dos tiroteios, a direção da Faculdade de Direito da UFF chegou a suspender as aulas no campus que fica em um dos acessos à comunidade. Alunos, professores e funcionários da instituição entraram em pânico.
Em novembro do mesmo ano, novas ameaças de invasão fizeram com que a polícia militar realizasse diversas operações no local, com auxílio de helicópteros do Grupamento Aéreo Marítimo (GAM). Na ocasião, a população afirmou ter visto grupos de criminosos fortemente armados em uma das vias que dá acesso ao Morro 94, onde traficantes costumam se refugiar antes de atacar os rivais que controlam o Palácio.
Apesar do histórico de combate, o comandante do Batalhão de Niterói afirmou que não há indício de conflitos armados entre facções rivais nos últimos meses. Segundo ele, ainda assim, a polícia realizava várias incursões nessas comunidades. “Essa também é uma região onde fazemos muitas operações, devido à grande movimentação estudantil. Temos patrulhas específicas para área”, acrescentou. O FLUMINENSE