sexta-feira, 6 de maio de 2011

Medos e fracasso

Do Produto Interno Bruto (PIB) às folhas de pagamentos do setor privado, dos levantamentos empresariais aos novos pedidos de benefícios-desemprego, os principais indicadores econômicos norte-americanos indicam que a recuperação pode estar perdendo o fôlego.

E nem era uma recuperação tão forte, para começar. O nível de emprego subiu um pouco, mas não apresentou ritmo de crescimento superior ao da população adulta. E os problemas dos desempregados continuam a se agravar: mais de seis milhões de norte-americanos estão desempregados há seis meses ou mais, e mais de quatro milhões de pessoas estão desempregadas há mais de um ano.

Seria bom que alguém em Washington realmente se incomodasse.

Não é que nossa classe política esteja se sentindo complacente. Pelo contrário: o discurso econômico da capital está saturado de medos: medo de uma crise de dívida, de uma disparada da inflação, de uma queda desastrosa no dólar. Histórias assustadoras vêm ocupando a atenção dos políticos.

Mas nenhuma dessas possibilidades apavorantes reflete qualquer coisa que esteja de fato acontecendo ou tenha probabilidade razoável de acontecer. E embora as ameaças sejam imaginárias, o medo desses perigos imaginários acarreta consequências reais: uma ausência de ação para lidar com a crise real, com o sofrimento pelo qual agora estão passando os milhões de norte-americanos desempregados e suas famílias.

O que Washington teme, no momento? No topo da lista está o temor de que os déficits orçamentários venham a causar uma crise fiscal a qualquer momento. Na verdade, diversas pessoas -a exemplo de Erskine Bowles e Alan Simpson, co-presidentes da comissão de estudo da dívida criada pelo presidente Obama- já até definiram um cronograma: coisas terríveis acontecerão dentro de dois anos a menos que realizemos cortes drásticos de gastos.

Não faço ideia de onde surgiu esse prazo de dois anos. Afinal, o que fizermos nos dois próximos anos importará muito pouco para a solvência dos Estados Unidos, que depende daquilo que decidirmos quanto ao programa federal de saúde Medicare e os impostos, em longo prazo. E, para sermos práticos, os investidores reais -as pessoas que estão apostando seu dinheiro de verdade- parecem notavelmente despreocupados quanto a uma crise fiscal em curto prazo. O Departamento do Tesouro continua a não enfrentar dificuldades para vender seus títulos de dívida e continua capaz de realizar captação a custo muito baixo, o que indica forte confiança de parte dos investidores quanto a um pagamento completo das dívidas.

Os vendilhões do pânico acreditam nas histórias que espalham? Talvez não. Como aponta Jonathan Chait, da revista "New Republic", os políticos mais propensos a usar retórica apocalíptica quanto ao deficit também são os mais opostos a qualquer aumento de impostos; argumentam que a dívida está destruindo os Estados Unidos, mas prefeririam que a destruição de fato ocorresse a aceitar nem mesmo que o menor aumento de impostos. Mas a incoerência e provável insinceridade desses esforços para espalhar o pânico não impediram que eles tivessem imenso efeito sobre o debate político.

O deficit não é o único temor infundado. Já escrevi no passado sobre o injustificado medo de inflação, mas permitam-me concentrar minha atenção, agora, em uma nova questão que começou a ganhar destaque nas colunas de opinião e nas declarações feitas em programas de entrevistas: o medo de uma queda desastrosa do dólar. (Quem é que envia o memorando instruindo as pessoas quanto ao que preocupá-las, e por que não estou na lista de destinatários?).

O que um observador jamais descobriria, com base em todas as recentes e agitadas discussões sobre o dólar, é que a queda recente da moeda norte-americana na verdade é minúscula comparada a algumas das grandes quedas do passado, especialmente as registradas no governo de George W. Bush e no segundo mandato presidencial de Ronald Reagan. E as discussões tampouco revelam o fato de que as quedas anteriores do dólar, longe de prejudicar a economia, foram benéficas, porque ajudaram as indústrias dos Estados Unidos a competir nos mercados mundiais.

O que me conduz de volta ao efeito destrutivo da atenção concentrada em monstros invisíveis. Pois o perigo claro e imediato para a economia norte-americana não é aquilo que certas pessoas imaginam possa acontecer um dia desses, mas o que já está acontecendo agora.

O desemprego não está apenas prejudicando as vidas de milhões de pessoas como está solapando o futuro dos Estados Unidos. Quanto mais tempo a situação persistir, maior dificuldade os trabalhadores encontrarão para voltar ao trabalho, e mais os jovens verão destruídas as suas perspectivas, por não conseguirem encontrar um primeiro emprego decente. Isso pode não gerar discussões acaloradas nos programas de TV a cabo, mas a crise do desemprego é real e está devastando nossa sociedade.

Mas qualquer ação que auxilie os desempregados é vetada pelos vendilhões do medo. Poderíamos gastar quantias modestas promovendo a criação de empregos? De forma alguma, diz a linha dura quanto ao deficit, que nos ameaça com a ira puramente hipotética dos mercados financeiros e exige que cortemos gastos já, já, já -o que bem poderia conduzir o país de volta à recessão. O Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) deveria fazer mais para promover a expansão? Não, diz a linha dura quanto à inflação e ao câmbio, que comete erro atrás de erro em suas previsões mas insiste em que, desta vez, suas projeções sombrias sobre uma disparada dos preços e um mergulho do dólar serão realmente confirmadas.

Assim, estamos pagando um preço elevado pela obsessão de Washington quanto a ameaças fantasmas. Ao procurar problemas onde não existem, nossos políticos estão nos impedindo de enfrentar a crise real: os milhões de trabalhadores norte-americanos que não conseguem encontrar emprego.

TRADUÇÃO DE PAULO MIGLIACCI
Paul Krugman
Paul Krugman, 57 anos, é prêmio Nobel de Economia (2008), colunista do "The New York Times" e professor na Universidade Princeton (EUA). Um dos mais renomados economistas da atualidade, é autor ou editor de 20 livros e tem mais de 200 artigos publicados em jornais especializados. FOLHA