segunda-feira, 30 de maio de 2011

Os indignados

Cláudio Lembo
De São Paulo



Manifestantes trabalham em escritório improvisado na praça do Sol, em Madri (Foto: Érica Chaves/Especial para o Terra)

A arquitetura política encontra na União Europeia uma das mais exitosas edificações. Desde os seus primórdios, no longínquo ano de 1957, quando da assinatura do Tratado de Roma, até o documento de Lisboa, os avanços foram contínuos.
Alcançaram os signatários dos muitos tratados a livre circulação de mercadorias e pessoas por todo o espaço do território composto por vinte e sete países membros.
Estes países membros, contudo representam situações econômicas e sociais extremamente díspares. Há países centrais - Alemanha e França - com altos índices de desenvolvimento humano e econômico.
Ao lado destes, se encontram outros estados com economias frágeis e com problemas sociais ainda sem solução. Estes estados, sem as qualidades dos dois apontados, no momento entram em grave crise.
O desemprego atinge níveis assustadores. A dívida pública amontoa-se. A má distribuição dos impostos arrecadados é gritante. A corrupção grassa por todas as sociedades e corroeu os governos.
Esta situação levou a uma série de consequências no campo político. Os partidos já não representam a vontade de seus eleitores e da cidadania como um todo.
A cidadania - sem emprego e perspectivas - entra em ebulição. Movimentos espontâneos surgem por toda a parte. A Espanha mostra-se - como de sua tradição - mais ativa na atuação popular.
Nas praças das grandes cidades, aglomeram-se milhares e milhares de pessoas, de maneira pacífica, para demonstrar o desacordo com a situação existente.
Geralmente, estas pessoas são convocadas pela internet e reúnem-se independente de qualquer ideologia ou cor partidária. Querem manifestar insatisfação com a condução conferida ao Estado pelos governantes.
A imprensa, recolhendo a voz das ruas, passou a chamar estes populares - sem nome e partido - de os indignados. Estão contrariados com o que vivem e sofrem.
Segundo se recolhia nos noticiários dos jornais, tratava-se de movimento popular espontâneo. Cessaria a qualquer momento.
Não parece, porém, que isto venha acontecer. Figuras históricas, como a do ex-presidente de Portugal Mário Soares, sempre muito competente a captar as mudanças sociais, entram em cena.
Em conferência proferida em Barcelona, Mário Soares, antevê para alguns países da Europa movimentos idênticos àqueles que se processam no mundo árabe.
E, outro expositor, o catalão Josep Ramoneda, vai além. Vê a união entre os estados membros da União Europeia entrar em processo de erupção.
Tudo isto é possível. Certamente não provável. Mas, algo indica que o excesso de otimismo com uma Europa unida vai se dissolvendo. As antigas e fundadas animosidades, entre os estados nacionais, aos poucos voltam à tona.
A bela arquitetura, imaginada por Jean Monnet e posteriores personalidades envolvidas na construção de uma Europa unida, entra em ebulição.
Os princípios proclamados em seus documentos - entre eles, o princípio da cooperação leal - fragilizam-se aos poucos. Não foram os representantes dos estados nacionais os autores da constatação.
A constatação de que as coisas caminham por veredas sinuosas rompe das várias comunidades nacionais. Os indignados - os cidadãos comuns - registram desencanto e amargor.
Os próximos meses serão decisivos para os integrantes da União Europeia.
Irá se constatar o que é mais vinculante: os interesses econômicos ou as velhas nações com suas tradições e valores.
As repercussões dos acontecimentos europeus terão efeitos por todas as partes e poderão indicar novos rumos para determinadas áreas, como o nosso cambaleante MERCOSUL.
Cláudio Lembo é advogado e professor universitário. Foi vice-governador do Estado de São Paulo de 2003 a março de 2006, quando assumiu como governador.
TERRA MAGAZINE