O medo se tornou comum entre os Agentes de Combate a Endemias (ACE) que atuam diariamente em bairros perigosos de Salvador. Além de Tancredo Neves - onde os funcionários da prefeitura receberam ameaças de traficantes após fazer um mutirão junto com o Exército, em abril - os agentes relatam ameaças também em Mata Escura, São Caetano, IAPI, Alto do Peru, São Cristóvão, Sete de Abril, Engenho Velho da Federação, Liberdade e Periperi.
“Com o boato de que a nova Base Comunitária de Segurança será instalada no mesmo bairro em que os militares trabalharam (Tancredo Neves), os traficantes começaram a achar que nós estávamos levando eles pra conhecer as ‘bocadas’ e mapear o bairro. Pensam que somos olheiros da polícia”, explicou um agente que não quis se identificar, durante manifestação na Praça Municipal.
Segundo um agente que trabalha na Mata Escura, a participação das Forças Armadas que estava programada para o bairro no dia 26 de abril foi suspensa na manhã desse mesmo dia. “Eles chegaram a ir para o bairro e estavam prontos pra trabalhar, mas pedimos que não continuassem lá, porque a presença dos militares não era boa pra nós. Depois, o chefe da boca me chamou e disse: ‘ainda bem que vocês tiraram os caras daqui’”, conta. O Exército não quis comentar a declaração.
Na pele
No IAPI, a agente Lúcia Maria Santos viu há seis anos uma ameaça tornar-se real. “Um homem drogado atirou no rosto de um colega, do meu lado. Como estava muito perto do disparo, perdi a audição do ouvido direito”, contou. O agente baleado se recuperou e continua trabalhando, na Liberdade.
Lúcia não foi a única que teve que encarar uma arma. “Lá na região do Barro Branco (em São Caetano), apontaram uma arma pra um colega e disseram que não querem ver a gente lá. Caso a gente voltasse, iam ‘passar o rodo’. Não voltamos mais”, contou o funcionário, sem se identificar.
“Lá no Alto do Peru ameaçaram agentes com um revólver e chegaram a disparar, mas a arma não funcionou. Mesmo assim, continuamos a trabalhar por lá”, afirmou outro agente. Além das ameaças, os agentes estão vulneráveis também a roubos. “Fui assaltado na Rua do Canal, em Tancredo Neves, enquanto trabalhava. Um menor me abordou e levou meu celular”, contou outro agente. Sobre a insegurança vivida pelos agentes, a Polícia Militar informou ainda não ter sido procurada pela prefeitura para atuar nos locais de trabalho.
“A PM está aberta para participar dessas ações, mas dando continuidade e sustentabilidade ao trabalho, sem comprometer a vida dos agentes”, afirmou o capitão Marcelo Pitta, responsável pela comunicação da corporação.
Ontem, agentes de saúde fizeram uma caminhada da Secretaria de Planejamento e Gestão (Seplag) à Praça Municipal. Em reunião entre representantes do sindicato e prefeitura não houve acordo e foi decretada greve. Com isso, os mutirões anunciados para ontem, em Periperi, e hoje, no Curuzu, foram cancelados. Na sexta, outra reunião decidirá os rumos da greve.
CORREIO DA BAHIA