sábado, 11 de junho de 2011

Machismo do escritor indiano V.S. Naipaul faz rir, dizem críticas

Há três décadas, uma frase como a de V.S. Naipaul, para quem é possível reconhecer o texto de uma mulher já no primeiro parágrafo, talvez incendiasse o circuito literário brasileiro.

O efeito, porém, foi o mesmo de uma biribinha.

Professoras e críticas procuradas pela Folha para comentar a declaração recente do Nobel de 2001 reagiram com risos, muxoxos e até leve indiferença.

"A coisa pegava fogo na década de 1980", recorda-se Heloisa Buarque de Hollanda, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro e uma das mais ativas em júris e debates contemporâneos. "Existem hoje questões mais presentes no debate literário, como a literatura digital e a periferia", explica.

Isso não quer dizer que a temática feminina tenha desaparecido da obra de ficcionistas ou poetas. "Por parte de algumas autoras, é claro que há deliberada intenção de revelar a subjetividade da mulher. É o texto que quer ser assim identificado", ressalta Beatriz Resende, professora na UFRJ e na Unirio.

Os estudos de gênero também continuam a ser uma das linhas de força da crítica, como lembra Maria Esther Maciel, ficcionista, professora na UFMG e parte do atual júri do Prêmio Portugal Telecom. "Eles têm contribuído para a recuperação de escritoras ignoradas ou esquecidas ao longo dos séculos, bem como para a visibilidade de vozes literárias das chamadas minorias sexuais".

O que fez da declaração de Naipaul motivo mais de riso que de siso é a ideia de que há uma "literatura feminina" inescapável pelas autoras.

"O pensamento de Naipul é próximo ao de Rousseau no século 18", avalia Carla Rodrigues, doutora em filosofia, autora de "Coreografias do Feminino".

Sobre a polêmica de Naipaul, a crítica Leyla Perrone-Moisés diz que preferia lembrar o que disse Clarice Lispector: "Quando escrevo, não sou homem nem mulher, sou homem e mulher". Como prova, acrescenta a professora aposentada da USP, o narrador de "A Hora da Estrela" é um homem.

MAN BOOKER PRIZE

A reação das críticas literárias brasileiras é parecida com aquela ocorrida em Londres, na semana passada, quando Naipaul deu tal declaração.

"Estou fora dessa briga", respondeu à Folha a escritora e crítica Carmen Callil, a mesma que, semanas atrás, se retirou do júri que concedeu o Man Booker Prize internacional ao escritor americano Philip Roth.

"E minha decisão sobre Roth não tem a ver com feminismo", repetiu Callil, que fundou a editora feminista Virago em Londres em 1973.

Prêmios como o britânico Orange Prize, dedicado apenas a autoras e cujo resultado saiu na última quinta, não reforçam o preconceito? "Prêmios como esse são tentativas de lembrar às pessoas quais são as condições do mercado", explica John Freeman, editor da Granta, revista literária cujo número atual é todo dedicado a mulheres.

"Nas páginas culturais, onde se levantam ou derrubam prestígios, homens aparecem mais que mulheres", explica.

Freeman acrescenta que "gêneros são rótulos convenientes e, às vezes, formas convenientes, apenas isso".

FOLHA