quarta-feira, 15 de junho de 2011

Só os nomes fazem sonhar


Ronaldo Correia de Brito
De Buritizal (SP)

Em Buritizal as pessoas guardam pouca memória do fruto buriti. Ninguém como Guimarães Rosa que lembre os cocos escamosos da palmeira alta, o amarelo chegado a ferrugem da polpa do fruto, o cheiro forte da massa transformada em doce bom. Buritizal fica a poucos quilômetros das Minas Gerais de Rosa, por quase nada é uma cidadezinha de São Paulo. O nome veio dos coqueiros-buritis, que povoavam os gerais de Minas, as margens do Velho Chico, as terras férteis e alagadas de vários recantos do Brasil. O batismo transformou-se em memória apagada, que apenas faz sonhar como os engenhos da cidade de Palmares, onde nasceu o poeta Ascenso Ferreira:
Dos engenhos de minha terra
Só os nomes fazem sonhar:
- Esperança!
- Estrela d'Alva!
- Flor do Bosque!
- Bom-Mirar!
Atravesso quilômetros de canaviais até chegar a Buritizal, onde sou festivamente acolhido por pessoas da cidade, que não perderam o encanto das palmeiras quase desconhecidas hoje. Estou percorrendo a região em torno de Ribeirão Preto, na Viagem Literária promovida pela Secretaria de Cultura do Estado. A onipresença absoluta da cana, o verde obsessivamente repetido, a ausência alarmante das antigas florestas e culturas agrárias, a falta de árvores até mesmo nas margens que despencam nos rios, me constrange e apavora.
O deserto verde ondulante de folhas lembra o deserto de areia em movimento. Reina o mesmo silêncio, a mesma extensão monótona de paisagem até perder de vista, o mesmo luto pelos bilhões de seres animais e vegetais, invisíveis ou de grande porte, sacrificados em nome do progresso. Sinto-me apavorado percorrendo as estradas perfeitas, enxergando a morte nos acenos das folhas de cana, cruzando com caminhões carregados de cana para as usinas, aspirando etanol queimado no motor do carro que me conduz a Buritizal.
Numa tarde em que o sol se põe às cinco e meia, só consigo repetir os versos do poeta Ascenso Ferreira, o que fala de engenhos cujos nomes faziam sonhar, já que a dura realidade dos homens que trabalhavam neles provocava apenas tristeza.
Sou tão bem acolhido em Buritizal que a minha angústia se dissipa. Professores, diretores de escolas, alunos, bibliotecária, pessoas da região e autoridades vieram me escutar falando de livros, dos que escrevi e dos que os outros escreveram. É uma conversa simples, começada em torno de uma mesa de banquete e que se estende para o lado de fora, num salão com muita gente. Lembro as debulhas de milho e feijão de minha terra, quando as pessoas contavam histórias, cantavam e liam versos até não restarem bagens e espigas por debulhar. Recordo a condição para essas noitadas: Mas, tinha de estar presente / quem por ter boa memória / boa voz, bons sentimentos / soubesse contar história.
Emendo uma história noutra, distraio o meu auditório e vejo num recorte de céu a lua crescente já bem alta. É tempo de ir embora. As pessoas me convidam para ficar, sinto vontade de retardar-me uns dias, descobrir onde se esconderam os buritizais, ensinar como se retira a polpa dos buritis e se faz o doce. Porém no dia seguinte tenho duas novas cidades pela frente. Elas também me reservam surpresas. A paisagem humana de Buritizal amenizou a dura memória da cana. Ganho um vaso com orquídeas amarelas, uma pêra que devoro no caminho e o convite para retornar breve.
Ronaldo Correia de Brito é médico e escritor. Escreveu FacaLivro dos Homens e Galiléia.
TERRA MAGAZINE