Ronaldo Correia de Brito
De Buritizal (SP)
Em Buritizal as pessoas guardam pouca memória do fruto buriti. Ninguém como Guimarães Rosa que lembre os cocos escamosos da palmeira alta, o amarelo chegado a ferrugem da polpa do fruto, o cheiro forte da massa transformada em doce bom. Buritizal fica a poucos quilômetros das Minas Gerais de Rosa, por quase nada é uma cidadezinha de São Paulo. O nome veio dos coqueiros-buritis, que povoavam os gerais de Minas, as margens do Velho Chico, as terras férteis e alagadas de vários recantos do Brasil. O batismo transformou-se em memória apagada, que apenas faz sonhar como os engenhos da cidade de Palmares, onde nasceu o poeta Ascenso Ferreira:
Dos engenhos de minha terra
Só os nomes fazem sonhar:
- Esperança!
- Estrela d'Alva!
- Flor do Bosque!
- Bom-Mirar!
Atravesso quilômetros de canaviais até chegar a Buritizal, onde sou festivamente acolhido por pessoas da cidade, que não perderam o encanto das palmeiras quase desconhecidas hoje. Estou percorrendo a região em torno de Ribeirão Preto, na Viagem Literária promovida pela Secretaria de Cultura do Estado. A onipresença absoluta da cana, o verde obsessivamente repetido, a ausência alarmante das antigas florestas e culturas agrárias, a falta de árvores até mesmo nas margens que despencam nos rios, me constrange e apavora.
O deserto verde ondulante de folhas lembra o deserto de areia em movimento. Reina o mesmo silêncio, a mesma extensão monótona de paisagem até perder de vista, o mesmo luto pelos bilhões de seres animais e vegetais, invisíveis ou de grande porte, sacrificados em nome do progresso. Sinto-me apavorado percorrendo as estradas perfeitas, enxergando a morte nos acenos das folhas de cana, cruzando com caminhões carregados de cana para as usinas, aspirando etanol queimado no motor do carro que me conduz a Buritizal.
Numa tarde em que o sol se põe às cinco e meia, só consigo repetir os versos do poeta Ascenso Ferreira, o que fala de engenhos cujos nomes faziam sonhar, já que a dura realidade dos homens que trabalhavam neles provocava apenas tristeza.
Sou tão bem acolhido em Buritizal que a minha angústia se dissipa. Professores, diretores de escolas, alunos, bibliotecária, pessoas da região e autoridades vieram me escutar falando de livros, dos que escrevi e dos que os outros escreveram. É uma conversa simples, começada em torno de uma mesa de banquete e que se estende para o lado de fora, num salão com muita gente. Lembro as debulhas de milho e feijão de minha terra, quando as pessoas contavam histórias, cantavam e liam versos até não restarem bagens e espigas por debulhar. Recordo a condição para essas noitadas: Mas, tinha de estar presente / quem por ter boa memória / boa voz, bons sentimentos / soubesse contar história.
Emendo uma história noutra, distraio o meu auditório e vejo num recorte de céu a lua crescente já bem alta. É tempo de ir embora. As pessoas me convidam para ficar, sinto vontade de retardar-me uns dias, descobrir onde se esconderam os buritizais, ensinar como se retira a polpa dos buritis e se faz o doce. Porém no dia seguinte tenho duas novas cidades pela frente. Elas também me reservam surpresas. A paisagem humana de Buritizal amenizou a dura memória da cana. Ganho um vaso com orquídeas amarelas, uma pêra que devoro no caminho e o convite para retornar breve.
Ronaldo Correia de Brito é médico e escritor. Escreveu Faca, Livro dos Homens e Galiléia.
TERRA MAGAZINE