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Friday, January 8, 2016

Apesar de tudo, o Brasil está avançando na trilha da democracia



Roberto Nascimento


A República brasileira, desde o nascedouro, está sendo palco de crises homéricas. O presidente Campos Sales, quando chegou ao Brasil após viagem à Inglaterra para negociar a dívida brasileira com os ingleses, recebeu vaias e quase foi apedrejado pelo povo. De crises em crises, chegamos à revolta dos Tenentes em 1922 e à Revolução de 1930. Regime autoritário liderado por Vargas que durou 15 anos e que só acabou porque não era lógico e crível lutarmos na guerra contra o Eixo do Mal, liderado por Hitler, e aqui sermos governados por um ditador.

Vargas voltou após um governo desastroso do general Eurico Gaspar Dutra. A volta de Vargas ao poder pelas urnas se tornou dramática, levando ao gesto extremo do suicídio. O mar de lama cobria o governo de Vargas, que perdeu o apoio do Congresso e do estamento militar. Mas, foi nesse período que a Petrobrás nasceu e contribui até hoje para o desenvolvimento nacional.

A eleição de Juscelino também teve as suas mazelas. Duas unidades militares da Aeronáutica se rebelaram contra o presidente mineiro, em Aragarças e Jacareacanga. Controlada a rebelião contra a posse de Juscelino, este anistiou os revoltosos, uma atitude de grandeza do presidente bossa nova.

RENÚNCIA DE JÂNIO

Terminado o mandato após a mudança da capital para Brasília em 1960, ganhou a eleição a chapa Jan-Jan – Jânio de presidente e Jango de vice. Novo momento de grave crise política. Jânio renunciou, Jango estava em viagem oficial na China e constitucionalmente passou a ser o presidente dos brasileiros. Entretanto, os militares ameaçaram derrubar o avião presidencial assim que entrasse no espaço aéreo brasileiro. Brizola resistiu no Sul, entraram em campo os bombeiros políticos, com Tancredo Neves à frente das negociações e fecharam um acordo para a instituição do governo Parlamentarista, com Tancredo de primeiro-ministro. Jango aceitou e pode normalmente assumir o governo com poderes limitados. Sete meses depois lançou o Plebiscito e o regime presidencialista foi restabelecido.

O gesto ousado do presidente João Goulart em defesa das reformas de base teve como consequência o golpe de 31 de março de 1964. Empresários nacionais e internacionais, Igreja, militares e até os Estados Unidos tramaram para apear do Poder o presidente Jango. As greves de trabalhadores pipocavam toda semana, ora eram os ônibus parados, depois os trens e assim por diante, então surgiram as revoltas dos marinheiros e dos sargentos. Tornou-se impossível manter o poder com essas condições adversas.

Para piorar, o presidente executou medidas contundentes contra o capital: Lei da Remessa de Lucros, Reforma Agrária e Reforma Urbana. Três petardos contra o capitalismo, assim ficou impossível resistir. Caso tentasse reagir com as forças leais ao seu governo, seria assassinado, tendo o mesmo destino de Salvador Allende no Chile, em 1973, morto no Palácio La Moneda pelas forças de seu ministro do Exército, o famigerado general Augusto Pinochet.

MOMENTOS HISTÓRICOS

Bem, foram momentos históricos abundantes, apesar das muitas outras crises ocorridas nos longos 21 anos do regime militar, que tinha apoio de grande parte da sociedade civil: crise do governo Castelo, crise do governo Costa e Silva, crise do governo Geisel, que escapou de um golpe da linha dura capitaneada pelo seu ministro do Exército, general Silvio Frota, e a crise final do governo Figueiredo, que conviveu com um período da inflação galopante combinada com recessão, considerada na época como estagflação.

Com a retomada da democracia, adveio o governo Sarney na esteira da morte do presidente Tancredo Neves. Foi também um período conturbado com inflação galopante e crises políticas, pedidos de impeachment e a figura de Ulysses Guimarães do PMDB dominando o presidente. Insta salientar que o presidente Sarney era um quadro da ditadura, oriundo da Arena e que serviu obedientemente os preceitos do regime militar.

Collor foi aquele desastre do impeachment de um presidente despreparado para governar. Autoritário, megalômano e arrogante. Queria mostrar virilidade e modernidade, mas, matou o sonho de mudança dos brasileiros. Errou tanto, que o caminho natural foi à renúncia, antes de ser defenestrado pelo impeachment.

ITAMAR E FHC

Veio Itamar, o vice, e que dizem teria conspirado contra o presidente Collor. E depois o indicado de Itamar, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, não se contentou com quatro anos de governo e tramou para a emenda da reeleição, ficando oito longos anos no comando dos palácios do Planalto e da Alvorada. Os quatro últimos anos de FHC foram catastróficos, a popularidade despencou a ponto de não conseguir eleger seu sucessor, o ex-ministro da Saúde José Serra.

Venceu a eleição de 2002 o ex-metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva. Com a ferida da reeleição aberta, Lula conseguiu a proeza de ficar oito anos no Planalto. Ninguém consegue permanecer tanto tempo no Poder, se não fizer pesadas concessões ao sistema nacional e internacional. Quando falo em sistema me refiro ao sistema capitalista. As empresas, ao empresariado em geral, as políticas globais, as relações internacionais de poder mundial. Ao povo cabem as migalhas de sempre.

PT TRAIU O POVO

Neste particular, errou o PT, que jogou ao vento suas promessas de campanha. Para permanecer no Poder, traiu o povo que elegeu Lula, na esperança de mudanças no modo de governar. A já histórica e famosa Carta aos Brasileiros cimentou o que restava de esperança. Os termos da carta indicaram que nada mudaria em relação ao estado de coisas sacramentado desde 1889. Os oito anos de Lula foram uma lua de mel com o Poder, mas adveio a crise econômica de 2008, que o macunaíma proletário chamou levianamente de “marolinha”. Essa marolinha dura até hoje e se transformou na tsunami econômica e política que afeta todas as instituições da República.

A consequência da crise econômica, que é a mãe de todas as crises, está aí latente. Os poderes se digladiam entre si para saber quem manda mais e o atropelamento das leis e normas vira uma constante. Executivo, Legislativo e Judiciário ampliam a crise política e econômica. Entretanto, o país avança na esteira da democracia, muito melhor do que a vida nos regimes autoritários. Nas ditaduras, a opinião não é tolerada e a divergência é punida com a morte. Vejam o caso recente do reino da Arábia Saudita, que executou 47 opositores do Estado. Na China também a oposição sofre com a ditadura do politiburo do Partido Comunista. E ainda tencionam pedir financiamento para empresas brasileiras em dificuldades exatamente aonde? Na China, que em nada é diferente de todos os países que colonizaram a nação brasileira desde o Império.

Tribuna da Internet