A ativista iraniana Mina Ahadi vive desde 1996 na Alemanha, onde criou o Comitê Internacional contra o Apedrejamento. No ano passado, conseguiu transformar em causa mundial a campanha contra a execução de Sakineh Ashtiani, acusada de adultério e homicídio. Nesta semana, Ahadi, 54, esteve no Brasil a convite do Instituto Milennium para uma série de palestras, a última dela nesta sexta-feira, no Rio. Após, o evento, ela falou à Folha.
Qual é a situação atual de Sakineh?
Sakineh continua na prisão de Tabriz, e seu estado psicológico é muito ruim. Ela está depressiva e já tentou se matar várias vezes. Ela caiu num beco de saída depois que o regime prometeu que, se ela fosse à TV e confessasse ter participado da morte do seu marido, ela seria libertada. Ela fez isso, mas quando a confissão foi exibida, negaram a libertação. E agora ela também é acusada de assassinato, porque confessou na TV. E o regime tenta, com base nessa acusação, não mais apedrejar Sakineh, mas enforcá-la. Naturalmente, ela tem muito medo e está muito triste, porque a esperança de ser libertada se mostrou falsa.
E por que o regime ainda não a executou? O que eles estão esperando?
Por causa da atenção mundial e dos protestos contra essa execução. O regime quer que o caso caia no esquecimento, e que a execução não tenha tanta repercussão. Por exemplo, o presidente da França ameaçou romper relações com o Irã caso Sakineh seja morta. Isso assustou o regime, que já enfrenta muitas sanções. Por isso, a estratégia agora é não falar sobre o assunto. Mas os filhos de Sakineh continuam com medo de perder a mãe, e temos de continuar ajudando a salvá-la.
A sra. criticou o presidente Lula e sua proximidade com Mahmoud Ahmadinejad. Qual é a sua opinião sobre a presidente Dilma?
Ela está demonstrando ser diferente. Por exemplo, ela criticou publicamente o apedrejamento, o qualificou de bárbaro. Isso foi muito importante. Porque o modelo anterior era Lula, que falava muito bem de Ahmadinejad, e em cujo governo o Brasil votava no Conselho de Direitos Humanos da ONU a favor do Irã. E isso também mudou no governo Dilma. Os primeiros sinais são de que Dilma é diferente e tem outras opiniões sobre regimes islâmicos. Mas não sei se há discussões dentro do governo brasileiro sobre ir além. O meu desejo é que o Brasil rompa relações políticas e diplomáticas com o Irã. Já fiz esse apelo também a diferentes regimes europeus. Nós queremos que os governos entendam que quando um regime é brutal como o iraniano e viola os direitos humanos da forma que o Irã faz, esse regime precisa ser isolado.
A sra. se reuniu com membros do governo Dilma. Expôs esse ponto de vista a eles?
Expressei esses desejos, e as reuniões foram muito produtivas. Naturalmente, é uma decisão importante que não pode ser tomada de forma abrupta, em apenas uma reunião. Mas eu não me desapontei. Pelo menos o assunto foi conversado, e todos foram muito receptivos. Eu acho que esse processo vai continuar, que o governo vai discutir isso.
Há dois anos, após a reeleição de Ahmadinejad, houve uma grande reação popular no Irã. Ao passo que hoje, todo o mundo islâmico está em turbulência, com movimentos como os que derrubou o regime no Egito, e isso não acontece no Irã. Como a sra. explica isso?
As pessoas estão tentando retomar os protestos no Irã, voltar às ruas, mas a brutalidade do regime e também as desavenças internas têm impedido protestos maiores. Nos protestos de dois anos atrás, a referência de líderes da oposição como Mir Hossein Mousavi é um retorno aos tempos do aiatolá Khomeini. Mas os jovens que foram às ruas não querem voltar ao passado, querem pensar no futuro. E isso teve um efeito ruim sobre a coesão dos protestos. Quando os jovens queimaram fotos de Khomeini, foram criticados por Mousavi. E claro, a brutalidade do regime, que matou muitas pessoas e prendeu milhares. As pessoas têm medo. A geração Facebook foi às ruas cheia de esperança de mudança e foi assassinada, como Neda Agha-Soltan. Mas agora eles estão tentando novamente, aproveitando os sinais de racha no regime. Ahmadinejad fez greve, aliados seus foram presos, e essa divisão entre ele e o aiatolá Khamenei só vai se acentuar. E os jovens vão se aproveitar desse cenário para voltar às ruas. Espero que desta vez eles tenham sucesso. Acho que os protestos de dois anos atrás ensinaram que os protestos não devem ser para reformar o regime islâmico, mas sim para derrubá-lo. Esse deve ser o objetivo.
E na sua opinião, esse objetivo está próximo?
Sim, eu creio. O regime iraniano está num beco sem saída, política, econômica e culturalmente. A população é totalmente contrária a esse regime, que só consegue se manter com base na força bruta. Isso não pode durar muito tempo.
A sra. falou sobre o trauma na sua infância de ser obrigada a usar um véu que cobria o seu rosto. Qual é a sua opinião sobre o governo francês de proibir o uso desses véus em público?
Eu sou totalmente favorável à proibição, principalmente da burca. Primeiro, por questões de segurança. Se você está num aeroporto, ou em qualquer lugar na realidade, e se depara com uma dessas mulheres-múmia, você não sabe o que está por baixo daquela burca. Você não pode se comunicar, é impossível qualquer contato humano. E eu acho que esse argumento de que algumas mulheres queiram se vestir assim espontaneamente e serão proibidas também não é válido. Por que alguém quereria se fechar assim? As organizações de direito humano que dizem que isso é direito da mulher também poderiam dizer a mesma coisa sobre o suicídio. Também é direito de uma mulher se matar. Não posso concordar com isso. Não podemos incentivar a pressão patriarcal de homens contra mulheres em troca desse suposto direito. Acho que é uma decisão positiva sob vários aspectos.
A sra. também defendeu a universalidade dos direitos humanos. Qual é a sua opinião sobre os indícios de que Osama Bin Laden foi executado pelos EUA?
Acho que, se havia a possibilidade de prendê-lo em vez de matá-lo, isso deveria ter sido feito. Numa guerra, as pessoas estão sujeitas a morrer, mas esse caso é diferente. Quando um Estado tem a possibilidade de agir dentro da legalidade, deve fazê-lo. Se essa execução realmente aconteceu, está absolutamente errado. Eu critico fortemente. Não é porque você tem razão ou motivo que pode fazer qualquer coisa. Como o caso de Saddam Hussein. Fui absolutamente contrária à sua execução. Primeiro, porque devemos condenar a pena de morte em qualquer caso, não importam os crimes de quem venha a ser executado. E segundo, porque isso cria um precedente. Depois de Saddam, 300 pessoas foram executadas no Iraque. Não sei se foi o que aconteceu, porque as informações foi divergente, mas se havia a possibilidade de prendê-lo, teria sido melhor. FOLHA