terça-feira, 24 de maio de 2011

Tucano contrário ao Código Florestal torce por veto de Dilma


Marcela Rocha
Voz dissidente na oposição, o deputado Ricardo Tripoli (PSDB-SP) é contrário a aprovar o Código Florestal como ele está e, salienta, "às pressas". O parlamentar diz esperar um golpe dos ruralistas já nesta terça-feira (23), quando a votação da polêmica matéria deve ir a plenário.
Para ele, as soluções podem estar num veto da presidente Dilma Rousseff, em virtude do receio de eventuais pressões internacionais, ou no Senado, caso ele devolva o texto corrigido para a Câmara como, lembra o parlamentar, já foi feito na CPMF.
Confira a entrevista:
Terra Magazine - O que o senhor espera do plenário nesta terça?

Ricardo Tripoli - Estou me preparando para apanhar amanhã. Os ruralistas vão tentar um golpe de última hora. Tentarão aprovar isso do jeito que fizeram, sem nenhum dado científico, sem nenhuma audiência pública para dar voz aos que pensam diferente. Foi feita uma Comissão Mista no ano passado que não era paritária, havia 13 ruralistas contra cinco ambientalistas.

A proposta de Aldo Rebelo causou polêmicas após alteração. Antes disso, havia acordão para aprovar. Qual a avaliação do senhor sobre o conteúdo do relatório e não sobre a forma como ele iria ser aprovado?

Esse projeto começou porque Michel Temer desengavetou e resolveu criar a comissão. O primeiro parecer da comissão mista de Aldo Rebelo ignorava a questão ambiental, as decisões do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) praticamente não existiam. Pressionado, Aldo resolveu acatar a decisão do presidente da Câmara à época, Marco Maia, de criar uma Câmara de negociação, que era um pouco mais paritária, mesmo com desequilíbrio. O relator, embora não tenha participado de nenhuma dessas reuniões, recebeu todas as nossas 55 propostas formuladas. Ele examinou e disse que incorporaria alguma coisa. Foi preparado então um relatório quase ideal, dentro do possível. O problema foi no dia da votação.

O senhor avalia que houve tanta mudança assim? 

Aldo fala uma coisa e escreve outra. Então todo mundo checa porque nem sempre o que ele fala consta no texto. Ele não lê os pareceres, ele faz aquela apoteose do PCdoB, aquela aula de história. Quando o pessoal foi ver o parecer que ele estava oferecendo, havia um monte de pegadinhas. Mas pior do que tudo isso foi o DEM, através de ACM Neto, que resolveu incorporar tudo o que ficou de fora do relatório inicial. Ou seja, uma bagunça. 

Só para te dar um dado, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) diz que são necessários dois anos para identificar onde se pode mexer ou não como área agrícola. Nós estamos pedindo alguns meses só para dar tempo de consultarmos cientistas.

O que o senhor acha que é possível fazer? 

Os ex-ministros foram entregar um documento à presidente Dilma Rousseff. Porque tanto ela quanto José Serra subscreveram um documento no segundo turno das eleições, se comprometendo com essa questão. Eu acho, então, que a presidente deveria avisar esse pessoal que se realmente partirem para esse processo de açodamento como estão fazendo, ela vai vetar. Ela tem que mandar um recado para a base dela, que é maior do que foi a base de Lula, então, ela pode aprovar o que quiser aprovar.

O senhor acredita mais na intervenção de Dilma do que no Congresso? 

Dilma terá um papel estratégico, assim como a sociedade civil. Porque a manifestação da sociedade não é uma coisa só dos ambientalistas. Até porque teremos que prestar contas no ano que vem na Rio+20. Teremos que ir nesse evento internacional e quero ver como vão explicar que o Brasil desmatou 500% a mais em março e abril, em comparação com o ano anterior.

O senhor tem respaldo do seu partido? 

Boa parte sim, como a Mara Gabrilli, que vai votar contra. Nem todos vão fechar com o governo. Mas essa questão é suprapartidária. A bancada ruralista permeou toda a Câmara, não tem mais um partido identificado com isso, nem um Estado. Tem muita gente preocupada com questões de ordem pessoal nessa votação. 
Como esse processo está se alongando por três meses, não sabemos qual será o efeito deste documento apresentado a Dilma. Obviamente, se ela mandar uma determinação para a bancada adiar a votação para o segundo semestre, seria o ideal. Outra possibilidade é eles aprovarem e o Senado corrigir, como já aconteceu algumas vezes - na votação da CPMF, por exemplo.

TERRA MAGAZINE